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ANNA MARIA MAIOLINOTERRA POÉTICAMAAT Av. de Brasília, Central Tejo 1300-598 Lisboa 25 MAR - 31 AGO 2026
A abertura da exposição de Maiolino, em 24 de março, foi feita com a histórica performance Entrevidas (1981), agora renomeada de KA: dezenas-centenas de ovos dispostos a certa distância uns dos outros, no chão, e um conjunto de pessoas convidadas a andar – pisar – em ovos. Entrevidas, ou KA, é uma performance replicada em diferentes contextos, tendo sido adquirida enquanto fotografia pelo Museu Reina Sofia em 2012. Entrevidas é um bom modo de começar: trata-se de uma performance capaz de expressar de forma significativa a carga poética e política do seu trabalho. Afinal, pisar em ovos é uma expressão ampla – ter cuidado, segurar-se, atentar-se. Mas os ovos, sob um olhar mais dedicado ao seu trabalho, são também esse delicado invólucro da promessa da vida, uma metáfora do início, do meio e do fim. Afinal o ovo é uma coisa que, implodida por dentro, expressa o nascimento e as grandes metamorfoses. Mas há também a possibilidade que a quebra lhe acometa por fora, por indelicadeza ou violência. É preciso nascer sempre por dentro [1]. Mas há quem nos assalte constantemente por fora, obrigando-nos a fugir e sair dos nossos lugares. Quem interrompa nossos processos. Quem bombardeie as nossas casas. A história e o trabalho de Maiolino versam também sobre isso: sobre a fragilidade da vida em contextos políticos. Tendo duas das suas casas na infância bombardeadas, e tendo a performance Entrevidas nascido no contexto final da ditadura militar brasileira, Maiolino relembra como o tema do exílio, da migração, da guerra, da violência e da casa estão presentes no seu trabalho. Afinal a casa é uma coisa que pode ser curta ou longa. Estamos em casa, na nossa casa, assim como em nossas comunidades podemos estar em casa. Também estamos em casa na terra em que estamos – ainda que sejamos constantemente assaltados por aqueles que querem nos tornar todos refugiados do mundo. O exercício da vida é um exercício de habitação, de permanência, de cuidar e de construir habitações, ainda que a atmosfera da guerra e da aceleração não pare de dar a tónica da partitura do mundo e tente nos convencer de que é o movimento constante a lei da vida.
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O MAAT tem uma arquitetura própria e propícia para a experiência das suas exposições, mas muito bem realizado é o processo em que, ao descer a rampa central da Galeria em direção ao espaço inferior que abriga as suas maiores obras, somos conduzidos por uma série de fotografias, desenhos, rascunhos e processos de trabalho da artista. Somos introduzidos, assim, às obras e ao processo de confeção das obras; num conjunto de desenhos e trabalhos fotográficos. Funciona como uma espécie de preâmbulo e contém, por exemplo, a série Tempestade de Ideias – mais de 100 trabalhos feitos pela artista entre 1990 e 2025.
Anna Maria Maiolino, Por um fio, da série Fotopoemação, 1976. © Anna Maria Maiolino
Uma das fotografias em particular, nesse percurso, chamou-me a atenção. Uma foto em que avó, mãe e filha estão ligadas por um fio, um rolinho de macarrão, que seguram pela boca. “Por um fio” dá o nome à fotografia. Retrato do compromisso silencioso da passagem, do fio delicado e forte que liga aquilo a que chamamos gerações. Continuada pela boca – esse território do corpo em que tudo se mistura – revela o aspeto terreno, material, que essa passagem muitas vezes adquire. Uma revelação sensível do continuum que forma a nossa vida, das formas através dos quais esse continuum temporal se realiza. A exposição de Maiolino no MAAT é, sobretudo, sobre a terra e a sua poética. E se na terra estão adormecidas, em promessa, uma miríade de possibilidades de flor e fruto, de minério e água, ela é também a metáfora da vida e da morte, da nutrição e da manutenção, da fecundação e do debulho, do afago e do nascimento. Tudo – ou quase tudo – passa pela terra. E na terra encontram-se adormecidas todas as promessas. Essa espécie de saudação à terra é, sem dúvida, a força poética que carrega e traz o trabalho de Maiolino no MAAT. A palavra humano vem de húmus, terra, vale lembrar. E por isso essa saudação à terra é também uma saudação, uma recordação ou uma lembrança futurista de um sentido de humano. Uma recordação acerca da nossa inextricável relação com a terra, nosso suporte e nossa fundação mais fundamental, mas também às práticas que, com o capitalismo e a modernidade, vamos paulatinamente nos esquecendo. A recordação do humano que falo não é, nesse sentido, um elevar-se ou um protagonizar-se humano: é uma aproximação aos exercícios perdidos do humano – ouvir a terra; fazer falar a terra. Maiolino trabalha com grandes peças de argila, trazendo para o espaço expositivo obras de projeção dimensional ampla que não exigem que busquemos por elas, concentremo-nos nelas. Elas se impõem no espaço, vistas de longe ou perto, avistadas desde o início da exposição. Dadas as formas – espiralares, macarrônicas, enlaçadas – das esculturas, forjadas em argila, as suas dimensões sugerem, também, uma demora: pode-se quase ver a permanência da artista nas obras, as suas mãos a enrolar, a apertar, a compor umas peças nas outras, lidando com a sua organicidade, com a sua estabilidade possível, seu endurecimento posterior, sua eventual quebra. Há, pela languidez do material e as formas macarrónicas ou emaranhadas, que lembram recifes, cupins, formigueiros – uma certa efemeridade longa transmitida pelo seu trabalho, um misturar do efémero e do duradouro que o próprio material da argila proporciona. É um trabalho cuidadoso. A obra não é frágil – mas pode quebrar – e remete ao aspeto manipulável que tinha há pouco tempo. As dimensões das obras são impactantes o suficiente para que qualquer fragilidade do material seja rapidamente substituída pelo reconhecimento da sua força de presença. Mas o material tem mesmo os seus mistérios. E nos trabalhos de pequeno-médio porte que acompanham as grandes obras, torna-se visível um espaço de intermeio e até de aliança, no procedimento, com outros elementos. Surge uma dúvida, muitas vezes, se um cupinzeiro ou uma casa inventada; se uma colmeia ou outra qualquer habitação. Mas há na verdade a impressão que também o vento, também a água, também os elementos do cosmos participaram da confeção da obra. Nesse sentido, as obras de Maiolino remetem a um espaço de intermeio entre o humano e o bicho, como se fossem abelhas ou flores que houvessem feito colmeias. E é isto precisamente que concede a impressão de que Maiolino faz a terra falar. O seu trabalho sugere essa zona limiar: uma espécie de humanidade mais próxima do húmus, mais próxima das abelhas, dos trabalho de aliança com a água, com o vento e com o calor; ressoando, aproximando as formas artísticas dos recifes, dos corais.
Sem título, da série “Do Barro à Escultura” (2026) [pormenor], exposição Anna Maria Maiolino – Terra Poética, MAAT, 2026. © Mariana Varela.
Um trabalho que se revela, enquanto procedimento, muito compromissado com terra – com um servir à terra, de um estar com a terra, de trabalhar com a terra – ao contrário do implodir a terra, arrancar a terra, utilizar a terra. Nesse compromisso e nessa aliança, parece-me, da perspetiva em que vejo, que há no seu trabalho a possibilidade de repensar o próprio sentido de humano, aproximando-o cada vez mais daquilo que o envolve e acolhe, e, além disso, de revisitar os procedimentos da sua aproximação cuidadosa com a terra. E este aspeto do seu trabalho é adquirido, sobretudo, por meio de duas coisas. Uma, pelos materiais. A argila tem a capacidade de nos mostrar os ecos das mãos da artista e de, ao mesmo tempo, nos trazer a lembrança de qualquer geografia do mundo. Isso porque a argila está próxima aos rios, está no mangue – é barro, lama. É esta terra que misturada à água, molda-se, deixa-se moldar. Ela tem por isso, enquanto material, qualquer universalidade, porque facilmente reconhecida. Não é à toa que é húmus o termo que origina a palavra humano. A criação enquanto aquilo que moldamos precisa sempre de qualquer maleabilidade e o conceito serve a muitos e diferentes tipos de criações. E depois, pelas próprias formas que a artista produz com o material. Que nos lembram, como uma espécie de lembrança antiga, as forma dos recifes, dos formigueiros; sugerem talvez estranhas habitações temporárias de um pássaro misterioso ou de um conjunto de insetos; ou por vezes fazem-nos surpresa, estupefactos de que a terra também nos possa surpreender com suas inesperadas formas. Faz-nos pensar assim, nas possibilidades infinitas na forma de estar com a terra e de vê-la surgir continuamente diante de nós. De cultivarmos o espanto, a surpresa e a espera. E de afinar nossos sentidos para perceber o trabalho coletivo que certas obras implicam com os elementos do cosmos – vento, água, calor.
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Repensar o sentido de humano aqui, nesse aspecto, é revisitá-lo, não enquanto conceito, é fazê-lo enquanto prática, ao revisitar a terra. É a poética da terra que nos permite capturar, novamente, não a ideia, mas uma prática de humanidade. É a terra e a sua poesia que nos permite ver o humano com novos olhos. Como o ser que nasce e morre na terra, bem como aquele que trabalha a terra. Apesar das grandes construções e da nossa cisão fundamental, enquanto sujeitos modernos, em relação à fabricação do mundo, esta é uma verdade que nunca se perderá de vista – temos uma ligação inextricável com o planeta que habitamos. E somos, ou podemos ser, poetas da terra. Abrigadas no MAAT, que é um museu que, como projeto arquitetónico, é dotado de uma forma tão fluída – integrado na paisagem e, no seu interior, tão acolhedor em suas descidas e aberturas – há uma reunião feliz entre as obras de Maiolino e o espaço expositivo, possibilitando uma habitação temporária de grande encontro. E se a argila convoca para uma efemeridade longa, ou uma longeva efemeridade, cabe pensar no próprio MAAT como projeto arquitetónico – e como a arquitetura não é também, ela mesma, a nossa forma humana primordial de habitar o mundo. De acolher as obras que são as nossas vidas e os seus objetos. Nossas grandes colmeias, nossas grandes cidades. A arquitetura é também uma forma de trabalhar com os materiais, mas em um sentido, a princípio, muito mais longevo. Construímos nossas casas para que perdurem no tempo, para que nos abriguem das intempéries, para que sejam uma expressão viva dos nossos movimentos, das nossas rotinas. Nossas casas e nossas cidades são a expressão viva do nosso corpo, são a forma como organizamos a nossa vida. Da mesma forma, a arquitetura dos nossos parques, dos nossos bairros; a arquitetura dos nossos museus, dos nossos passeios. Ela é sempre, e continuamente, a nossa forma de estar no mundo. Não é à toa que grandes projetos arquitetónicos pensaram não só formas de estabilizar formas, mas formas de habitar o mundo – de relacionar-se com o que está à nossa volta – vizinhos humanos, rios, montanhas, animais; vento, calor. Nesse sentido penso como, de certa forma, o trabalho de Maiolino, abrigado no MAAT, remete precisamente a isto – às formas de estar no mundo, ou ainda, às formas de tocar o mundo. E a delicadeza do trabalho de Anna Maria Maiolino é precisamente um toque tão subtil que nos dá a sensação de que Maiolino deixa a terra falar. Considerando, precisamente, a terra na sua poética, o seu trabalho nos convida a uma deambulação entre o sólido e o abstrato, entre o humano e o bicho, entre a memória e o efémero, entre a matéria e a ideia. Nessa dança de polos e nessa mais básica necessidade de moldar a terra e ouvir a terra – encontramos o trabalho de Maiolino. Nesse invólucro humano, de húmus, o seu trabalho sugere a retomada – ou a criação, quem sabe – de uma sensibilidade de ligação com a matéria e com a terra. No enrolar das mãos, no moldar do material, no inventar e ressoar de formas do cosmos, encontraremos, quem sabe, sussurros e formas de habitar o planeta.
Notas [1] Perscruta no que te digo o aroma premeditado
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