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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição. Cortesia FRAC Lorraine.


Michael Rakowitz, 'The invisible enemy should not exist (Nortwest palace of Nimud)', 2018, FRAC Lorraine. Fotografia: Fred Dott


Michael Rakowitz, 'The invisible enemy should not exist', 2007, FRAC Lorraine. Fotografia: Fred Dott


Vista da exposição. Cortesia FRAC Lorraine.


Vista da exposição. Cortesia FRAC Lorraine.


Michael Rakowitz, 'The Ballad of Special Ops Cody', 2017. Still de vídeo.


Michael Rakowitz, 'Return', 2006. Still de vídeo.


Capa do catálogo 'Michael Rakowitz', Silvana Editoriale, 2019, com uma imagem de 'The Ballad of Special Ops Cody'.

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MICHAEL RAKOWITZ

RÉAPPARITIONS




FRAC LORRAINE
1 bis rue des Trinitaires
F-57000 Metz

25 FEV - 12 JUN 2022

Regresso a Bagdad?

 

 

Michael Rakowitz é neto de um iraquiano judeu, Nissim Isaac Daoud bin Aziz, que, como mil outros (entre cerca de 150 000 judeus iraquianos, na época) deixou o Iraque para a Índia em 1941 após o massacre de Farhoud, depois estabeleceu-se nos Estados Unidos em 1946 (e lá mudou então o seu nome para David). E contrariamente a muitos dos árabes judeus, ele não nega a sua ascendência, não a apaga, mas reivindica-a (num estilo diferente, mas com o mesmo orgulho que Ariella Aïsha Azoulay, que retomou o nome próprio da sua avó berbere). A sua exposição no FRAC Lorraine (até 12 de junho) compreende quatro partes, todas ligadas ao Iraque (e à guerra).

A maior parte da exposição mostra dezenas de reproduções de obras de arte mesopotâmicas que foram roubadas do Museu de Bagdad após a invasão americana. Essas reproduções grosseiras foram feitas com embalagens de produtos alimentares iraquianos ou do médio-oriente. Cada uma é acompanhada por uma nota histórica sobre o objeto, como no Museu, e de uma citação, na maioria das vezes de um historiador ou arqueólogo, mas às vezes de Donald Rumsfeld afirmando que esses saques são muito tristes, mas que é o preço a pagar para aceder à liberdade e à democracia. São fantasmas que nos perseguem.

O mais impressionante é a reconstrução dos painéis do sítio de Nimroud, muitos dos quais, destruídos pelo Daesh em 2015, estão desaparecidos. Rakowitz propôs a um museu (não identificado) de lhe oferecer a sua própria reconstrução de um génio protetor mesopotâmico (um lamassu) em troca da restituição de um lamassu do referido museu ao Iraque.

Um filme (em “stop motion”) parte de uma reivindicação de uma milícia iraquiana antiamericana divulgando a fotografia de um soldado americano sob a ameaça de uma arma, que será executado se os prisioneiros iraquianos não forem libertados. Ora o referido soldado americano é na verdade uma figurinha, Special Ops Cody (aqui na sua versão afro-americana; uma outra versão é "caucasiana") que os militares americanos no Iraque compram e enviam à sua família. Rakowitz coloca em cena esta estatueta no Instituto Oriental da Universidade de Chicago: Cody vai ao encontro das estatuetas mesopotâmicas do Instituto, pede desculpa, tenta convencê-los a regressarem ao país [Iraque] e, no final, decide ficar com eles nas suas vitrines, um gesto fraternal e desesperado.

Mas é no outro filme que Rakowitz se envolve mais pessoalmente. Em 2006, sessenta anos após a chegada do seu avô a Nova York, e três anos após o "Missão cumprida", Michael Rakowitz, tendo obtido um financiamento para uma performance artística, reconstitui a loja do seu avô, Davisons & co, na Atlantic Avenue em Brooklyn. Não só cria um lugar de encontros e intercâmbio para os Iraquianos-americanos, muçulmanos, cristãos ou judeus, que sentem uma nostalgia do país distante (a palavra apropriada é "zikra"), e acabam por encontrar-se lá, mas decide importar tâmaras iraquianas. No entanto, os produtos iraquianos só podem entrar nos Estados Unidos disfarçados, recondicionados noutro lado, como esta caixa de xarope de tâmaras. Apesar das sanções alfandegárias terem sido oficialmente revogadas, ele enfrenta todos os tipos de bloqueios das autoridades americanas e, depois de muitas peripécias, vai receber algumas dezenas de quilos a preço de ouro: um périplo tão complexo e igualmente entravado como o dos refugiados. Podemos ler o jornal diário desta ação.

 

Michael Rakowitz, Return, 2006. Still de vídeo.

 

Michael Rakowitz (que eu encontrei há doze anos em Ramallah para este projeto) combina aqui três dos temas importantes do seu trabalho: é antes de tudo, evidentemente, um trabalho político, mas que aborda as questões políticas de forma indireta, desviada e irónica; e toca aqui em questões de pilhagem e de restituição de obras de arte roubadas nos países do sul, um assunto que, também em França, é controverso. É depois, sempre, um trabalho baseado no encontro, na troca, um ambiente social onde partilhamos, comunicamos, nos confrontamos sem nos afrontarmos. E por fim, e isto percebi-o nesta exposição, é um trabalho centrado sobre o objeto, sobre a sua materialidade, seja a reconstrução de um artefacto antigo com as embalagens ou a concepção da embalagem de tâmaras (com um dos leões ainda na Babilónia, e a porta de Ishtar, agora em Berlim). E hoje, chamamo-lo de Michael Daoud Rakowitz... Para ir mais longe, acabei de comprar o seu catálogo Whitechapel / Castello di Rivoli, no qual vários ensaios enfatizam essa dupla cultura dos árabes judeus.



MARC LENOT