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HELENA VALSECCHIVAMPATAGALERIA PEDRO OLIVEIRA Calçada de Monchique, 3 4050-393 Porto 11 ABR - 20 JUN 2026
Estava particularmente ventoso o dia em que me dirigi à Galeria Pedro Oliveira para visitar a exposição “Vampata” (chama alta; onda de calor), da artista HElena Valsecchi. E recordei-me da célebre frase do moralista François de La Rochefoucauld (1613-1680), retomada por Machado de Assis (1839-1908) no seu conto “Miss Dollar” (1870): “o vento apaga as velas e atiça as fogueiras.” Distante da metáfora das paixões usada pelo autor da frase, pensei no vento como matéria que, sua audácia invisível, evidencia fragilidades ou aprofunda forças de outras corporalidades.
Helena Valsecchi, A nossa vida e tutta nu jocu, ora ccu l'acqua ora ccu foco, 2026. Exposição VAMPATA, Galeria Pedro Oliveira, Porto. © Cortesia Galeria Pedro Oliveira
O vidro, como uma espécie de luz solidificada, é um exemplo desse invisível que age, do ar que não só apaga ou atiça. Forjado a fogo, provém do calor, da pressão e da metamorfose, mas também do sopro que substancia o ar como matéria que dá forma. Depois, pulsa-lhe a fragilidade. Vive nessa interioridade e latência da iminência da quebra, onde os fragmentos não mais se concluem no inteiro. Tornam-se memória. As peças em vidro transparente de HElena Valsecchi, e aqui a transparência funciona como um paradoxo entre visibilidade (permitindo ver através de) e invisibilidade (aludindo à impercetibilidade), apresentam-se amorfas. Dispostas em baloiços, pousadas em painéis de vidro, suspensas por fios ou na ponta de pequenos troncos de madeira, habitam numa liminaridade entre equilíbrio e colapso, silêncio e estilhaço, estabilidade e risco.
Helena Valsecchi, A nossa vida e tutta nu jocu, ora ccu l'acqua ora ccu foco, 2024-2026. Exposição VAMPATA, Galeria Pedro Oliveira, Porto.
Em conjugação com estas peças, que contemplam uma sensação de estado-limite, surgem pinturas que, não obstante exibirem alguma pigmentação mais saturada, preservam essencialmente uma lúcida suavidade tonal. Rasgadas pelo fogo, parecem partir dessa herança da dor estética de Joan Miró (1893-1983), da pintura subtraída pela fúria das chamas. Desocultam-se camadas de sobreposição e forma-se uma operacionalidade de pós-medium que desagua numa corporalidade de pintura-escultura. E, nesse rastro escuro do fogo, forma-se um caminho que permite um mise en abyme de redundância estética e de reflexividade discursivo-abstrata. Numa outra vertente, o papel sustentado por pedaços assimétricos de madeira nota-se, igualmente, rasgado. Mantém-se o princípio da revelação de sobreposições, mas aqui a honra do gesto é manual. Sem o fogo devorador, é a mão bio-técnica que (des)forma. E uma pequena caixa de madeira contém essas sobras de papel como prova da ação. Mas, guardar fragmentos também pode ser uma forma de acalmar a angústia da perda.
Helana Valsecchi, La contemplation du feu, 2024. Exposição VAMPATA, Galeria Pedro Oliveira, Porto.
No chão da galeria um conjunto de gavetas e caixas de madeira mostram-se conectadas por fios elétricos que permitem a retroprojeção de imagens, de aura espectral, criadas pela união da luz, do vidro e do papel. Esta instalação, designada “La Contemplation du Feu”/ A Contemplação do Fogo (2024), é uma analogia a um estado hipnótico e de embalo causado pela visualização demorada das chamas. Aqui o fogo como luz, não consome, revela. As gavetas e caixas reaproveitadas, não ocultam, mas recebem para exibir. E os fios sendo visíveis, revelam o circuito energético necessário para a projeção. Há nestas imagens-luz uma indicação de pós-concetualidade do arquivo que se serve da energia para reativar a memória da (i)materialidade e (in)visibilidade.
Helena Valsecchi, SER VULCÃO, 2015-2026. Exposição VAMPATA, Galeria Pedro Oliveira, Porto.
A exposição de HElena Valsecchi preza, então, por uma narrativa de natureza-cultura, sustentada por uma cadeia de metamorfoses e relações: da árvore extrai-se a matéria para o papel, aqui parcialmente consumido pelas chamas; já a combustão, a altas temperaturas, forja o vidro. E, assim, o fogo apresenta-se como matéria paradoxal: que, por um lado, consome e destrói, e por outro fabrica e dá forma. Muitos dos materiais com que a artista trabalha revelam uma ecologia sensível de reaproveitamentos que, distantes do utilitarismo, são revelados como ações artísticas, poéticas e éticas que habitam fronteiras entre força e fragilidade, visibilidade e invisibilidade, inteiro e fragmento. É nas suas caminhadas pela floresta ou à beira-mar que extrai os gestos iniciais do seu trabalho, recolhendo vestígios, observando ritmos e escutando sons. Esses encontros, também catárticos, que vai tendo com o ambiente natural são, de certa forma, pré-formulações curatoriais de conhecimento e investigação. E, nos quais, o seu corpo torna-se mediador entre matéria e experiência. As obras que daí resultam, conforme já descritas, longe da objetualidade, afirmam-se como matéria em trânsito, portadora de temporalidades e transformações. No seu conjunto, a exposição parece revelar uma placidez discreta. Mas há uma dor em surdina: a da fragilidade como condição, a da (quase) invisibilidade como mistério, a da fragmentação como inevitabilidade. Os corpos inteiros tornaram-se vestígios. E esses vestígios voltam, agora, a ser corpos inteiros.
Sandra Silva
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