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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Fotografia: Constança Babo


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DANIEL STEEGMANN MANGRANÉ

UMA FOLHA TRANSLÚCIDA, NO LUGAR DA BOCA




MUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA
Rua D. João de Castro, 210
4150-417 Porto

30 SET - 07 JAN 2018

O ECOSSISTEMA DE DANIEL STEEGMANN MANGRANÉ EM SERRALVES

 

 

Daniel Steegmann Mangrané (Barcelona, 1977) poderá representar uma jovem geração de artistas que tem vindo a afirmar-se através de trabalhos com grande complexidade conceptual e proporcionais qualidades estética e formal. Ora, é precisamente pela conjugação destas características que uma obra se destaca e estabelece o seu lugar na atual densa e extensa esfera da arte contemporânea.

O artista chega-nos ao Museu de Arte Contemporânea de Serralves como o oitavo escolhido para integrar a plataforma “Projetos Contemporâneos”, a qual procura, precisamente, expor e promover os criadores que, ora emergentes ora mais estabelecidos, exploram presentes problemáticas a partir das mais recentes técnicas, formas e práticas artísticas. Respondendo a tais princípios, o trabalho de Daniel Steegmann é plural e introduz vários elementos que se relacionam e associam numa dinâmica tão singular quanto bem concretizada.

Deste modo, a exposição apresentada na sala central de Serralves resulta de uma conversa que começou há dois anos entre o artista e a diretora do museu, Suzanne Cotter. Um diálogo entre duas gerações que se cruzam numa mesma compreensão da atualidade da arte, do homem e do planeta. A curadoria é também partilhada com Paula Fernandes, do departamento de artes plásticas do museu, contribuindo, assim, para uma ainda maior força de instalação artística no espaço. Nesta exposição, inaugurada dia 29 de setembro, o artista mostra a sua mais recente produção e reconhece ser “um luxo trabalhar num lugar de excelência como este”.

É sob uma luz verde a evocar a atmosfera de uma floresta tropical que o público é convidado a refletir sobre o seu próprio corpo, a arte, a natureza e as possíveis relações entre todos estes elementos. Nos poemas que Daniel Steegmann incorpora na sua exposição, Não queria tomar forma humana, carne humana ou matéria humana (2016), da poetisa brasileira Stela do Patrocínio, é invocado um estado físico humano que se fragmenta, dissolve e atinge uma forma gasosa. Também numa diluição, ao nível do fantasmagórico, exibe-se o holograma do artista Mano con Hojas (2015). Tal dispersão e desconstrução formal estão também patentes nos primeiros três grandes objetos que parecem expandir-se, contorcer-se e, até, quebrar. Em redor, impressas nas paredes, linhas geométricas multiplicam-se, sendo que, enquanto conjunto e à medida que se instalam no espaço, resultam em formas menos hirtas e menos fixas e mais móveis e orgânicas.

Com efeito, em toda a exposição é proposto pensar nas várias formas do fenómeno da transformação, desde a mutação a, por exemplo, alterações que as obras sofrem quando interpretadas pelo público, ganhando infinitas possibilidades de significados. Daniel Steegmann Mangrané defende que o espetador contemporâneo já não está estático, mas antes, observador e autónomo na receção da arte.

O artista confessa ainda que a conclusão e a exposição das obras são, também para si, momentos novos, geralmente proporcionando-lhe os pontos de partida para a sua seguinte criação artística. É como se o seu trabalho se desenvolvesse numa espécie de percurso constante, onde não há uma conclusão em cada peça produzida, mas sim uma continuidade e um prolongamento para a obra seguinte. Exemplo disso é a obra central da exposição que, sendo site-specific, propositadamente concebida para este espaço, deriva do filme 16mm realizado pelo artista espanhol entre 2009 e 2011 na Amazónia.

A viver no Rio de Janeiro desde 2004, Daniel Steegmann Mangrané determinou essa área de reserva natural como seu objeto de estudo, aproximando-se, assim, da esfera da natureza e adquirindo uma maior consciência de sustentabilidade.

Na medida em que a grande obra exposta é susceptível de várias análises, é importante referir que a influência absolutamente determinante na sua conceção foi o texto de Georges Didi-Huberman, The paradox of the Phasmid. Neste, o importante filósofo e crítico contemporâneo narra uma sua experiência no Jardin des Plantes, em Paris, ao observar uma das várias vitrinas de ecossistemas. Aí, encontrou uma criatura mimética, o phasmid, que se camufla no meio ambiente e só muito dificilmente se torna visível. Como paradoxo, o corpo do animal revela-se de acordo com o espaço em que habita, ganhando forma através dele e, simultaneamente, a ele lhe atribuindo novos contornos. O momento em que esse aparecimento ocorre é, pois, uma verdadeira transformação ao nível da percepção visual.

Ora, são exatamente insectos como estes que nos são exibidos nesta instalação em Serralves. Apenas observando atentamente este habitat ocidental, proveniente dos jardins do museu, é que se revelam, através do seu movimento, os exóticos "bichos-pau" e "bichos-folha". Tanto estes insetos como o phasmid de Didi-Huberman fazem parte de uma fauna camuflada tão profundamente que se apresenta como a própria flora. Tratando-se de figuras e fundos que se influenciam e alteram mutuamente, este modo de existência pode ser também compreendido como a condição de toda a obra de arte, mediante o espaço expositivo em que é inserida, sendo este último determinante na sua validação.

É a partir desta pluralidade e heterogeneidade conceptual e formal que o artista procura aproximar os vários elementos que coexistem e compõem o mundo, colocando em causa a divisão moderna entre a natureza e a cultura. Considera necessário reforçar as ligações entre as várias dinâmicas existentes, tão frequente e erradamente compreendidas como dicotomias. Também em ligação estão o museu e o parque de Serralves, personificando o equilíbrio entre a arte contemporânea e a natureza.

Com tal desígnio, Daniel Steegmann Mangrané construiu um trabalho que desperta e suscita o pensamento, a reflexão, a múltipla interpretação e a experiência estética. Com o título “Uma folha translúcida no lugar da boca”, nome da obra central da exposição, encontra-se, até dia 7 de janeiro, a oportunidade de ver um trabalho realmente vivo que pulsa e respira neste contemporâneo espaço expositivo.

 



CONSTANÇA BABO