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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição Leaking Bodies de Susana Rocha. PLATO, Évora. © Samuel Duarte Figueiredo / Cortesia da galeria PLATO


Susana Rocha, Down my back, 2025. Resistência, borracha, ferragens metálicas e vidro, 150x120x8cm. Exposição Leaking Bodies, PLATO, Évora. © Samuel Duarte Figueiredo


Susana Rocha, Clinical touch, 2025. Luvas de talho em borracha, inserções metálicas, varão metálico, 50 x 30 x 1 cm. Exposição Leaking Bodies, PLATO, Évora. © Samuel Duarte Figueiredo


Susana Rocha, Sinking Feeling, 2025 (detalhe). Borracha, ferragens metálicas e vidro borossilicato, 250 x 40 x 6 cm. Exposição Leaking Bodies, PLATO, Évora. © Samuel Duarte Figueiredo


Susana Rocha, Leave it to the worms, 2025. Metal, borracha, ferragens metálicas e vermes em vidro, 90 x 25 x 14 cm. Exposição Leaking Bodies, PLATO, Évora. © Samuel Duarte Figueiredo


Susana Rocha, Leave it to the worms, 2025 (pormenor). Exposição Leaking Bodies, PLATO, Évora. © Samuel Duarte Figueiredo


Susana Rocha, Dripping, 2025. Borracha, vidro e apoio metálico, 110 x 12 x 4 cm. Exposição Leaking Bodies, PLATO, Évora. © Samuel Duarte Figueiredo


Susana Rocha, Hedone #1, 2025. Impressão em plexiglass, inserções metálicas e moldura metálica, 31x41 cm. Exposição Leaking Bodies, PLATO, Évora. © Samuel Duarte Figueiredo


Susana Rocha, Hedone #2, 2025. Impressão em plexiglass, inserções metálicas e moldura metálica, 31x41 cm. Exposição Leaking Bodies, PLATO, Évora. © Samuel Duarte Figueiredo


Susana Rocha, Hedone #2, 2025 (pormenor). Exposição Leaking Bodies, PLATO, Évora. © Samuel Duarte Figueiredo

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ARQUIVO:


SUSANA ROCHA

LEAKING BODIES




PLATO (PORTO)
Rua de Brito Capelo, n.º 152
4050-118 Porto

24 JAN - 28 FEV 2026


 


Do corpo entende-se, à luz da hodiernidade, que a sua armadura biopsicossocial se expande a campos digitais e virtuais e, por consequência, se desdobra em outras “(des)corporalidades” e ramificações a partir do seu núcleo identitário. Nos alicerces discursivos que ajudaram a formatar a exposição “Leaking Bodies”, a artista Susana Rocha reflete sobre o princípio desse corpo expandido legitimado, pela aceleração tecnocientífica, como corpo-máquina asséptico e otimizado, e que é exposto a uma “anestesia” afetiva e ausência de “excreção emocional”. Nessa fenda que se abre, o prazer desloca-se do toque para o clique, e do vivido para o imaginado. E tanto no sofrimento, como no deleite, o corpo apresenta uma diplopia, entre o físico e a projeção, e elaboram-se novas formas de lazer e solidão. E mesmo quando o corpo se fina, persiste a sua pegada digital (perfis, imagens, mensagens...) e surgem tecnologias de “ressurreição digital” (Inteligência Artificial, hologramas, avatares, vozes sintetizadas...) que não só podem prolongar e reconfigurar a experiência do luto, como distorcer temporalidades e alterar relações entre o “Eu” e o “Outro”.

O prazer, argumenta a artista, resiste à fantasia do corpo tecnológico altamente funcional e otimizado, pois não existe sem excessos, desperdícios e fricção com a dor. Assim, a interligação neurocognitiva entre dor física e prazer emocional pode repercutir-se numa “estética melancólica”. Sendo que a arte tem essa capacidade de nos permitir experimentar emoções profundas por identificação, a comoção sem consequências diretas, e a expansão do território afetivo. Neste sentido, “Leaking Bodies” explora a ambiguidade do prazer (ou hedonismo) e como a tecnologia, sendo arquivo e gatilho de memórias, despoleta experiências que tanto nos confortam, como nos ferem.

 

Vista da exposição Leaking Bodies de Susana Rocha. PLATO, Porto. © Ana Santos / Cortesia da galeria PLATO

 

O conjunto de obras apresentadas não se prende a um literalismo antropomórfico que possibilite uma tradução simplista da fórmula narrativa adotada. Ao invés, surge em abstrações variadas, mas dentro de um mesmo programa estético e material. Como que uma formatação física da imaginação/intuição que Brian Massumi (2002) argumenta ser o pensamento que melhor acompanha o “virtual” nas suas passagens, interstícios, dobras e redobras, sustentado pelo “diagrama sem fixar”. Ou seja, as obras ramificando-se diversas a partir de um núcleo estético, não revelam um “desenho” final, mas um mapa de forças e relações com zonas de instabilidade, continuidade e vizinhança. E sem formas definitivas, auguram desdobramentos e o vir-a-ser.

Dos materiais destaca-se uma repetição do uso de fitas de borracha preta, estruturas metálicas (grades, argolas...) e ferragens (parafusos, tachas...), que remetem para a força, o suporte, o controlo e, de certa forma, para a artificialidade. Compostos em diferentes instalações, evidenciam uma estética aproximada de subculturas como o gótico urbano, o metal, o punk ou mesmo as práticas sadomasoquistas que, não obstante, integram aspetos diferenciadores na forma como concetualizam o prazer e a dor.

Esta materialidade de permanência é invadida por apontamentos que convocam a fluidez e a efemeridade. Permitindo a recordação de que a corporalidade pós-humana pode ser: nomádica no sentido da epistemologia do deslocamento que transgride dualismos (sujeito/objeto; natureza/cultura; corpo/mente); não unitária porque nela se assomam composições, contradições, por vezes estratificações, e multiplicidades; e, também, como campo de intersecções biológicas, sociais, materiais, simbólicas, institucionais e afetivas.

É o vidro transparente, em formas quebradas e afiladas e em gotas penduradas nas estruturas metálicas ou na ponta das fitas de borracha, que traz a representação dessa fluidez da ação do corpo-água. Como uma provocação orquestrada da possibilidade de corpos inorgânicos coreografarem processos orgânicos. Há um sentido de vazamento que é, paradoxalmente, perda e caminho. A estanquicidade adormecida dá espaço à fluidez da matéria que abandona um corpo para encontrar outro. Como acontece na vida quotidiana. Será a chuva no toque com todas as peles do mundo – seja o zinco dos telhados, as folhas de uma árvore, o cabelo aprumado – assim como as lágrimas que escorrem pelas faces como pequenos rios. São processos biológicos, naturezas líquidas, composições químicas e arrebatamentos da existência.

Em “Sinking Feeling” (2025), uma fita de borracha preta, como espinha dorsal, sustenta formas afuniladas de vidro transparente, que se desdobram como ramificações nervosas. Nesta encenação, a matéria corporifica o conflito psíquico onde o EGO surge destabilizado, o ID pronunciado e o SUPEREGO adormecido. Pulsão fulgurante, moral reprimida. O encontro entre borracha e vidro denuncia um regime de forças: entre elasticidade, fragilidade, resistência e quebra. O objeto, sendo artifício, não sente. Mas, guarda vestígios do tempo e do gesto, como um arquivo de tensões que o olhar reconhece e reconfigura. E ao guardar, consciencializa-nos para as inquietações prazerosas e dolorosas que passam pelo corpo – e nele permanecem.

De um outro sentir, as luvas dimensionalmente sobre-humanas (“Clinical Touch”, 2025) auguram um toque amplificado. Serão estas, hipérboles do transumanismo que colocam o humano no monstruoso ou como expressão exacerbada do prazer e/ou da dor, como as inserções metálicas pontiagudas, que as rematam, sugestionam? As ferragens, sejam achatadas ou afuniladas, servem um jogo de contrastes ao serem, literalmente, cravadas nas imagens emolduradas de “Hedone #1” (2025) e “Hedone #2” (2025). Na substância líquida ou na potencial maciez da pelagem, estes pequenos objetos metálicos surgem como invasores e desestabilizadores da fluidez e do prazer.

 

Pormenor de Leave it to the worms, 2025, de Susana Rocha. Exposição Leaking Bodies, PLATO, Évora. © Samuel Duarte Figueiredo

 

Como símbolo do princípio e do fim, da vida e da escatologia, surge a larva. Conhecemo-la como pré-forma de uma transformação e celebração de uma outra vida que irá brotar. Mas, como verme, calha-lhe também a denúncia do lamento do corpo em decomposição, pois sendo “operário das ruínas” devora os tecidos e “à vida em geral declara guerra”, conforme declarou o poeta brasileiro Augusto dos Anjos (1884-1914), no seu poema “Psicologia de um vencido” (1909). Em “Leave it to the worms” (2025), pequenas larvas de vidro “passeiam” pela estrutura, como transitividade e transformação. Podendo indiciar que todos os corpos, orgânicos ou artificiais, negoceiam a sua própria ruína e metamorfose.

A exposição de Susana Rocha, divergente de uma utopia assética do corpo e do embotamento afetivo, propõe, desta forma, uma contaminação entre (bio)físico e (tecno)afetivo. Entendendo as corporalidades (orgânicas e não orgânicas) como espaços de fluidez, e não como “percursos” congelados numa trilha única. Dor e prazer desaguam (e não raras vezes se cruzam) em intensidades e tensões, fazendo parte da extensão entre realidade e virtualidade. Combinando cuidado e controle, intrusão e deleite, metamorfose e ruína. Da existência que proveio há milhões de anos da alquimia estelar, terminámos em húmus, adubo de reminiscências, arquivos de contato. No “entre” ficam as viagens do ser, entre dor e prazer: o que passou, o que restou e o que se transformou. No fim, talvez sejamos memória e objeto, rasto e coisa. Talvez o fim, na verdade, seja só um estratagema sórdido de continuidades.

 

 

Sandra Silva
Licenciada em História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e mestre em Estudos Artísticos - variante Estudos Museológicos e Curatoriais, pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto, com uma dissertação sobre a interligação entre arte e ciência. Dedica-se à investigação independente, com particular interesse pelos diversos temas da arte e curadoria contemporânea.

  

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Referências

Augusto dos Anjos. Psicologia de um vencido In Escritas. https://www.escritas.org/pt/t/12233/psicologia-de-um-vencido
Massumi, B. (2002). The Bleed: Where Body Meets Image In Parables for the virtual: movement, affect, sensation. Durham & London: Duke University Press
Rocha, S. (2026). Leaking Bodies [Folha de Sala] In Galeria Plato (Porto).

 

 

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Nota sobre as imagens

A exposição Leaking Bodies, de Susana Rocha, esteve primeiramente patente de 18 de Outubro a 21 de Novembro de 2025 no espaço da galeria Plato em Évora. As imagens da exposição aqui presentes foram realizadas nesse espaço, à excepção da primeira imagem inserida no corpo do texto.
 

 

 



SANDRA SILVA