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JOSÉ MAÇÃS DE CARVALHO21 MINUTES POUR UNE IMAGECAPC - CÍRCULO DE ARTES PLÁSTICAS Piso Térreo do Edíficio da Biblioteca Municipal Parque de Santa Cruz, Jardim da Sereia 3001-401 Coimbra 17 JAN - 21 MAR 2026 Pensar o tempo da imagem em “21 minutes pour une image”
“Un minute pour une image” foi um programa realizado pela cineasta e fotógrafa Agnés Varda, emitido pelo canal francês FR3, em 1983. Em cada um dos seus 170 episódios, apresentavam-se fotografias, cada uma descrita e analisada ao longo de um minuto. No final, revelavam-se as identidades dos seus autores, entre os quais Henri Cartier-Bresson e Robert Doisneau, e dos comentadores, tais como Marguerite Duras e Yves Saint Laurent. O programa propunha-se a explorar o campo interpretativo da imagem fotográfica e o tempo que lhe é dado. Ora, é justamente a partir daqui e do reconhecimento da necessidade de ampliar a leitura e a recepção da imagem que emerge a atual exposição de José Maçãs de Carvalho, no CAPC - Círculo de Artes Plásticas de Coimbra. Entenda-se que as imagens podem ter inúmeras leituras e é a partir da extensão do seu campo interpretativo e receptivo que adquirem mais e múltiplos sentidos e significações, donde, que se amplia o seu campo de possibilidades e que elas próprias se ampliam. Com doutoramento em Arte Contemporânea, concluído em 2024, no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, onde hoje leciona, José Maçãs de Carvalho tem vindo a desenvolver uma interessante produção fotográfica revertida num valioso espólio. Daí provém o projeto que o fotógrafo hoje apresenta e que, embora iniciado em 2011, integra fotografias datadas de 1988 a 2025. Ao fotógrafo, interessa-lhe o arquivo e a memória, neles delineando o eixo da sua criação artística ou do seu trabalho, sobretudo fotográfico. Preocupa-lhe, também, contrariar a “eterna procura da imagem certa”, uma quase fatal condição dos fotógrafos e que resulta numa constante ansiedade. Simultaneamente, em resultado de contrariar essa tendência, Maçãs de Carvalho evita a rejeição e a subtração das imagens, no fundo, a sua morte. No CAPC, expõem-se diferentes fases da sua produção, sobretudo imagens fixas, efetivamente fotográficas, mas também algumas em (ínfimo) movimento, sob a forma de dois vídeos. As várias imagens devem ser apreendidas e lidas em relação umas com as outras, enquanto um conjunto articulado. Ao visitar a exposição, testemunhamos como as obras de Maçãs de Carvalho detêm a invulgar e notável capacidade de transformarem o ordinário, o comum, em algo singular, cativante e poético. O que à primeira vista parecerá tratar-se de capturas instantâneas e espontâneas, casuais e não planeadas, são, na verdade, cuidadosamente refletidas. Nenhum ponto de vista, nenhuma perspetiva ou escolha de luz, é ao acaso, e todas as imagens dialogam, dirigem-se a nós, interpelam-nos. Como o autor nos explica, o seu trabalho é, de certo modo, um elogio à banalidade e ao homem comum, sendo que algumas das imagens se aproximam, inclusivamente, do perfil do voyeurismo. Deste modo, a fotografia de Maçãs de Carvalho distancia-se do estilo documental que lhe poderia, numa primeira instância, ser atribuído. Ao invés, a sua obra é pautada por uma estética do sensível e a sua semântica é discursiva e problematizadora. Por exemplo, um frame fixo em vídeo e uma série de 8 fotografias da mesma perspetiva de um ecrã publicitário a partir do hotel Wynn (Macau), exploram a passagem do tempo e questionam a sociedade contemporânea e o supercapitalismo. Uma outra série, bem distinta, é composta por 6 fotografias de um casal (o artista e a sua mulher), que recupera retratos da reconhecida obra “48 portraits”, de Gerhard Richter, entre os quais se encontram Paul Valéry e Oscar Wilde. Mas esta obra de Maçãs de Carvalho não se trata de uma simples apropriação, pois o que nela está em causa é a tautologia da imagem, i.e., a repetição e a imagem sobre a imagem. Desafia-se, igualmente, a característica intrínseca à prática fotográfica em representar fielmente o seu referente, a qual constituiu desde sempre matéria para os grandes teóricos da fotografia, nomeadamente ao incontornável Roland Barthes. Na obra de Maçãs de Carvalho, o rosto deixa de ser um rosto e de ter uma identidade, surgindo como território.
21 minutes pour une image de José Maças de Carvalho. CAPC @ Jorge das Neves
Mas o carácter enigmático desta obra atravessa toda a exposição, mesmo quando as imagens resultam do olhar direto, honesto e despretensioso do seu autor. Destaquem-se as duas fotografias da entrada do Hotel Lisboa (Macau), de carácter cinematográfico, que nos convidam a observá-las e a contemplá-las uma e outra vez. Captura-nos o congelamento daquele cenário, daquela luz, naquele instante. No fundo, trata-se do congelamento do tempo, potencialidade própria da prática fotográfica, sendo que a Maçãs de Carvalho lhe interessa, precisamente, a sobrevivência das imagens. Ocorre que, pela qualidade do seu trabalho, o mesmo se inscreve no nosso próprio espólio mental de imagens, onde adquire uma outra vida, uma outra dimensão, um outro tempo. Ainda, nesta ocorrência, contraria-se o efeito da profusão e da saturação imagética dos dias de hoje, que é tornarmo-nos imunes às imagens e não lhes concedermos mais do que uns breves segundos. Apela-se, por isso, a visitar esta exposição de José Maçãs de Carvalho, para conceder tempo à imagem, tempo à fotografia, tempo ao olhar. Até ao próximo dia 21 de Março.
Constança Babo
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