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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Sem titulo, 2020. Fotografia: Silvio Santana.


Mountain House (2018). Fotografia Silvio Santana.


Montanha Suspensa, 2012. Fotografia cortesia da artista.


Vista da exposição. Fotografia cortesia da artista.


Vista da exposição. Fotografia cortesia da artista.


Vista da exposição. Fotografia: Silvio Santana.


(im)permanencias. Fotografia: Silvio Santana.


Auto-retrato. Fotografia Silvio Santana.


Vista da exposição. Fotografia: Manuel Falcão.


My body in dust list. Fotografia Silvio Santana.

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ARQUIVO:


CRISTINA ATAÍDE

DAR CORPO AO VAZIO




MUSEU COLEÇÃO BERARDO
Praça do Império
1499-003 Lisboa

25 NOV - 14 MAR 2021


 


Dar corpo ao vazio revela-se como uma jornada de conhecimento existencial do ser humano. Através do ver, do sentir e do estar na natureza, Cristina Ataíde proporciona ao espetador um caminho transcendental. O ser deambula numa experiência estética, cuja vivência o transforma, permitindo, assim, viajar para outros planos existenciais e dimensionais. O espaço e o tempo abrem outras formas de ver cada imagem, desenho, escultura, lugar ou palavra.

Através da escultura Mountain House #12 (2018), que a artista nos apresenta no início da exposição, percecionamos um olhar singular.

Contemplamo-la.

Somos deuses do Olimpo. O grande torna-se pequeno. Inicia-se a grande jornada com a montanha suspensa no ar. Enfatiza, assim, o curador Sérgio Fazenda Rodrigues (2020): “A montanha surge como um corpo invertido, acima e abaixo de um horizonte de referência, em outros o negativo marca-se apenas como sombra, recorte e ausência.”

Elevamos o nosso olhar.

Do alto, caminhamos em direção à montanha, vemos lagos e rios. Fluxos de água corrente.

Do encarnado, nascem lugares, passagens de tempo e de espaço.

Caminhamos entre montanhas.

Contemplamos a Montanha Suspensa (2012).

A artista descreve múltiplos nomes de lugares, trilha percursos já feitos e outros por percorrer, onde residem vários espaços. Regiões, culturas e experiências. Diferentes jornadas a explorar. Do encarnado, vive-se enquanto espaço interior energético. Desdobra-se em outros caminhos em Todas as Montanhas do Mundo (2008-2020).

Evoca-se o corpo, o interior.

A obra revela-se como um efeito invertido dela mesma. Recordamos as palavras de Deleuze (1966, p. 15): “um corpo pleno determinado como socius”. O corpo é o feminino, o masculino, a matéria, a árvore, a montanha, a água, o sangue e a seiva. A natureza metamorfoseia-se num corpo cuja imagem nos transporta ao ser-coletivo. O corpo é social, cultural, efémero. A vida.

A natureza metamorfoseia-se em corpos, enquanto seres e obras. Do corpo-natureza, transmuta-se para o corpo-humano. Um socius-corpo em Ficus #1, #2, #3 e #4 (2004). Em troncos das árvores que irradiam a energia, a seiva e o sangue. Nasce o fluxo. Segundo argumenta José Gil (2001): “São múltiplos os espaços da alma, e as suas regiões, os seus compartimentos: e o corpo é o que multiplica a alma, lhe oferece uma geografia, uma geologia, uma topologia.”

O ser vive no firmamento da existência, entre a cultura e a natureza, a sombra e a luz, o pequeno e o grande, o vazio e o cheio, o exterior e o interior. Em constante alternância e mudança, a unidade divide-se e diverge em duplicidade, retorna em unidade.

Tudo flui. Na matéria e no espírito.

Do corpo ao pó. Abre-se um diálogo. Conectamos imagens, conceitos, experiências e lugares.

Viajamos por inúmeros situs distantes, montanhas, lagos e rios.

Sentimos corpos. Cultura. Geografia. Orgânico.

Lemos a palavra. Cada uma com um significado variado.

Origens diversificadas, multiculturais. World’s words.

Do sublime, surge a caminhada. O corpo transforma-se em natureza. A natureza em corpo. Num veículo entre a cultura e o ser. Da imagem à palavra, do pensamento ao cosmos. Da fluidez da água ao sentir, vivemos a matéria das coisas-em-si.

Em Tao-Te King, Lao-Tzu descreve o Tao:

O Tao flui sem cessar.
No entanto, na sua atuação, ele jamais transborda.
Ele é um abismo; parece o ancestral de todas as coisas.
Abranda a sua dureza.
Desata os seus nós.
Modera o seu brilho.
Une-se com a sua poeira.

Na perpétua fluidez, desdobra-se num eterno movimento, de energias invisíveis que percorrem os céus, emanam e transcendem da terra, a corporalidade material. Retornam ao ser humano.

Tudo se transmuta. Dilui-se.

Em Dar corpo ao vazio, Cristina Ataíde apresenta a matéria e o espírito, o corpo e o pó. Imaginamos o ver como modo transcendental de todas as coisas. O pó encarnado como um símbolo da vida e da impermanência das coisas-em-si.

Viajamos entre lugares. O lugar transcendental e efémero. Orgânico e fluído. Sentimos com o corpo, a mente e o espírito. Olhamos e vivenciamos. Vislumbra-se uma experiência sensorial estética. Contemplamos uma fusão que une o interior ao exterior, o exterior ao interior. O ser ao todo, o todo ao ser. Através desta experiência estética, a artista convida-nos a ter uma análoga visão que já tinha sido pronunciada pelo poeta Wordsworth: “Come forth into the light of things”.

Do fluxo, água, correntes. Do Rio Negro, Amazónia.

Emergem passagens.

Transitamos em águas flutuantes.

Numa transformação, sonhamos através de uma viagem espiritual.

Barco. Pó. Encarnado. Corpo. Ausente.

Feminino. Masculino.

Princípio e fim.

Silêncio.

Retorno.

 

5. pó do meu corpo                       6. o meu corpo em pó
7. pó do meu desejo                     8. o meu desejo em pó
9. pó da minha transformação       10. a minha transformação em pó
11. pó do meu silêncio                  12. o meu silêncio em pó
13. pó do meu abismo                  14. o meu abismo em pó
15. pó da minha solidão                16. a minha solidão em pó
17. pó da minha ausência             18. a minha ausência em pó

 

 



JOANA CONSIGLIERI