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ABEL RODRÍGUEZMOGAJE GUIHU: A ÁRVORE DA VIDA E DA ABUNDÂNCIAMASP - MUSEU DE ARTE DE SÃO PAULO ASSIS CHATEAUBRIAND Av. Paulista, 1578 - Bela Vista São Paulo - SP, 01310-200, Brasil 10 OUT - 12 ABR 2026
O primeiro condicionamento é uma escolha. A primeira escolha quanto a Mogaje Guihu: A árvore da vida e da abundância, exposição de Abel Rodríguez (1941-2025), é a porta de entrada e a consequente direcção da circulação no espaço expositivo. Circule-se a favor ou contra sentido horário, Mogaje Guihu – nome indígena do artista pertencente ao clã Gavilán, das comunidades Nonuya e Muinane da Amazónia colombiana, e cujo significado é “pena de gavião brilhante” – e respectivos conhecimentos e imaginação botânica são dados a ver com diferentes tonalidades anímicas. Terão Adriano Pedrosa, curador desta exposição e director artístico do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand onde a mesma está patente até 12 de Abril, e Leandro Muniz, curador assistente da mesma instituição, designado como início a entrada correcta, onde informação para-expositiva nos sugere – sublinhe-se, na minha leitura – a série de desenhos como una, quer como símbolo quer como consequência da unidade da natureza com o corpo e comunidades a que Abel pertence. É também animada; diz-se que a árvore da vida implica que a vida se compreenda pela árvore, estrutura matriz. Também nesta abertura nos é dada a saber o mito de origem das comunidades Nonuya e Muinane; “Para eles, a primeira árvore criada no mundo é creditada como a matriz da floresta e de todos os seres. Estes, por sua vez, precisam identificar as frutas que são comestíveis ou não, o que os levará a uma série de disputas até atingirem a harmonia entre humanos e não humanos.” Cumprirá este ânimo da unidade harmoniosa, talvez, objectivos institucionais. A exposição integra a programação anual do museu dedicada às histórias da ecologia e é também a primeira exposição individual pós falecimento do artista no ano passado. Se esta unidade se depreende entre linhas do texto da entrada oficial, é algures noutros elementos textuais, informativos, que se usa “natureza integrada” como um dos temas centrais da obra do artista, juntamente com os demais identificados; árvores mitológicas, desenhos botânicos e ciclos naturais.
Acedendo à exposição pela entrada oficiosa a sugestão feita ao ver é outra. Outra escolha, outro condicionamento. Logo no início da coreografia contra corrente, que poderá gerar acidentes graves, choques frontais dada a circulação em contra-mão e outros demais tropeços, lemos o seguinte poema da autoria do artista;
Houve um tempo em que eu gostava de ouvir “Você tem que fazer a Árvore da Vida! - Essa Árvore da Vida... não sei de que vida é. Então eu peguei... tive que inventar. A árvore é fruto comestível, tronco, Ele era o início e o fim. É uma árvore que nasce verde e morre seca. E essa árvore, pois, ficou dessa maneira.
Naturalmente que tanto Adriano como Leandro, os curadores, carregam conhecimento sobre a exposição que propõem, terão estudado os seus temas origens e enquadramento cultural, e tudo o que eu não sei, não estudei, e desconheço. Escuso-me assim a continuar o sublinhado de que qualquer nota sugestiva da minha parte quanto ao espaço entre a plataforma e o comboio, ao espaço entre o texto, visão institucional e a obra, será por demais ignorante e não mais que fruto do aliciamento que estas obras me trouxeram. Fruto da felicidade de encontrar o brilho no olho da obra do artista de quem nunca vi a face; de encontrar o engajamento com a feitura. Como nota adicional acrescento que já na Bienal de Veneza de 2024 com curadoria de Adriano Pedrosa, obras de Abel haviam sido apresentadas, séries centradas na apresentação taxonómica de parte da flora amazónica, com valor científico ao nível da recolha – cor, texturas, formatos, etc. – sem perda da candura do registo, dando uso à sabedoria botânica para a qual foi educado desde infância. Note-se que, se Abel foi treinado desde a infância a reter este conhecimento, foi apenas nos anos 90, mudando-se para Bogotá para fugir aos conflitos armados, que “em contato com a fundação holandesa Tropenbos, foi incentivado a desenhar para registrar e compartilhar seus conhecimentos sobre a floresta. “ Retornando à traseira, onde demos de caras com a unidade, sim. Mas onde encaramos por acumulação a incerteza dessa vida e dessa árvore. Árvore que também morre e vida que nem se sabe o que será. Aqui, a sugestão acontece via incerteza. Dela nasce a união imaginada do humano com a árvore. Só dessa imaginação aparece o uno da vida, da morte, e da imagem que estes podem ter, tudo considerado.
Abel Rodríguez, Árbol natural, 2018. Coleção Oliveros, Medellín, Colômbia. Foto © Cortesia do artista e Instituto de Visión
Desfaz-se, nesta entrada, a solenidade da entrada principal, onde se crê que o artista saberia, com toda a certeza, do que versava. Acabamos por entrar rindo. Sabendo que morreremos, resta-nos o humor para suportar a finitude. O que mais poderemos fazer não tendo vivido ainda tudo, nem tendo vivido nenhuma vida de nenhuma árvore? Não chegue a moda, rimos o prazer de imaginar e de desacreditar o que não mais se pintou. “Assim”, porque como, de outra maneira, pintar tudo o que existe? Ao visitar Mogaje Guihu: A árvore da vida e da abundância iniciei-me pela reverência e fascínio e não pela alegria. Não que necessitem de ser excludentes, contudo a primeira dupla carrega a esteticização domesticada e poupa-nos ao humor sincero - cru e cruel, se assim quisermos - de um artista em profunda relação com o não saber, sabendo demais. Uma mão na árvore e a imaginação a navegar daí, saio da rememoração desta exposição (se dele me lembrei em primeira vivência, não me recordo) a lembrar Manoel de Barros, que creio partilhar do mesmo radical humorístico de Abel, e que em “POEMA”, no livro “Tratado Geral Das Grandezas do Ínfimo” nos diz;
A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Qualquer coisa nessa qualidade de não saber se move para mim como manifesto do mesmo ofício; da perseverança dos nomes das coisas que em Abel se dá numa direcção, na partilha do conhecimento desses nomes botânicos, na difusão da poesia da árvore da vida, poderia dizer, e que em Manoel se dá no desenrolar dos nomes, na extensão das palavras para a poesia das coisas, das insignificâncias, maior das vezes naturais. Tantas outras poderia citar com a mesma alegria, mas deixo apenas um trecho das suas palavras de entrada à sua própria obra. Palavras às quais recorro para dar imagem a esta associação; (…) A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim: O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz. Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar. Eu queria que as garças me sonhassem. Eu queria que as palavras me gorjeassem. Então comecei a fazer desenhos verbais de imagens. (...)” Este ofício de memorização dos nomes das espécies e suas características recorda-me também o livro de Ray Bradbury, onde a sociedade, à época do lançamento de Fahrenheit 451, distópica, preserva a sabedoria narrada decorando-a. Cada ser humano, um livro. E assim a resistência ao apagamento da história do conhecimento. Se esta resistência segue o mesmo método – o estudo e memorização – o abraço de Abel ao registo gráfico como veículo de partilha do seu profuso conhecimento, reúne o saber ao sabor. Saboreamos a sabedoria desta exposição, como se tudo víssemos pela primeira vez. Embora (ou também por isso) justos cientificamente, os seus registos gráficos trazem ao valor do seu conhecimento um espírito juvenil e leve: sabe-se porque se prova, sabe-se porque é saboroso.
Catarina Real
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