NOTÍCIAS
EXPOSIÇÕES ATUAIS
VASCO ARAÚJO
Trabalhos para nada: O Modelo
Fundação Carmona e Costa, Lisboa
Com curadoria de Luís Serpa, o trabalho que constitui a mostra de Vasco Araújo no Espaço de Artes Decorativas da Fundação Carmona e Costa, em Lisboa, intitulado Trabalhos para nada: O Modelo, partiu de um convite realizado diretamente por Maria da Graça Carmona e Costa e por Luís Serpa (curador e responsável pela arquitetura de interiores do espaço). A proposta dirigiu-se para a criação de uma intervenção, numa parede precisa do espaço de artes decorativas - recentemente remodelado e reestruturado - que cruzasse as artes decorativas (a coleção de porcelanas e faianças da Coleção Carmona e Costa) e a prática artística contemporânea. Foi dada carta branca ao artista para a apresentação do projeto.
A peça criada pelo artista traduz-se numa proposta site-specific que tem como ponto de partida, uma seleção de peças de porcelana e faianças do séc. XVII desta coleção. A sua investigação começa nos motivos e nas personagens que surgem representadas na decoração destas peças que, como é relevado no trabalho do artista, contêm elementos que lhe surgem como dicotómicos, eu acrescentaria, incongruentes. As peças portuguesas criadas com inspiração oriental, neste caso, chinesa, contêm, em essência, os mesmos elementos. No entanto, nas cópias portuguesas os elementos perdem claramente a sua carga simbólica, mantendo apenas o lado decorativo. Vasco Araújo joga com o confronto entre a visão oriental, as narrativas e simbologias retratadas e a perspectiva ocidental, mais restrita e literal, dado cingir-se a uma cópia destes motivos tradicionais chineses, criando uma imagética próxima da oriental, contudo vazia de sentido.Patrícia Trindade
DORIS SALCEDO
Plegaria Muda
CAM - Centro de Arte Moderna, Lisboa
Plegaria Muda é o título da instalação mais recente de Doris Salcedo, mas também a primeira exposição que a artista colombiana realiza em Portugal, numa co-produção do Centro de Arte Moderna-Fundação Calouste Gulbenkian com mais quatro instituições internacionais: o Moderna Museet Malmö; o MUAC – Museo Universitario Arte Contemporáneo, Cidade do México; o MAXXI – Museo nazionale delle arti del XXI secolo, Roma e a Pinacoteca do Estado de São Paulo.
O trabalho de Doris Salcedo (n.1958, Bogotá), até hoje pouco conhecido entre nós, remonta ao final da década de 1980, adquirindo porém maior visibilidade no decorrer dos anos 1990, altura em que vários artistas redirecionam a prática escultórica e da instalação para um questionamento crítico da ideia de monumento e de memória associado aos problemas de exclusão inerentes aos desenvolvimentos do capitalismo global. Doris Salcedo surge assim a par de outros nomes, como Mona Hatoum, Rachel Whiteread ou Santiago Sierra, produzindo um corpo de trabalho diversificado que interroga a fragilidade da vida humana em particular, através da rememoração de atos de opressão, violência e morte política ou de traumas coletivos e pessoais. No entanto, os processos de rememoração em causa não atuam meramente como testemunho ou simples evidência de um mal. Eles recuperam antes a história com a vontade de fraturar e também de cancelar as ordens e hierarquias que configuram determinados poderes. Enquanto os seus trabalhos iniciais se resolviam em pequenas e médias esculturas, constituídas geralmente por combinações dos mesmos materiais: cimento, portas, cadeiras, mesas e armários de madeira e outros objetos quotidianos em metal, nos anos 2000 Salcedo recorre com mais frequência a instalações de grande escala que se inscrevem no espaço público ou se articulam com os espaços de apresentação, como é caso de Plegaria Muda (2008-10) que ocupa com grande eficácia toda a nave central do CAM ou de outras instalações anteriores como Abyss (2006) e Shibboleth (2007) exibidas no foyer do museu em forma de documento fotográfico.| LER MAIS | Sofia Nunes |
COLETIVA
Antic Measures
Galeria Gregor Podnar (Berlim), Berlim
O galerista esloveno Gregor Podnar tem-se afirmado a nível internacional nos últimos anos, representando um elenco de artistas concetuais já estabelecidos da Europa de Leste – como Dan Perjovschi ou Vadim Fiskin, que previamente não eram representados pelas galerias devido ao mercado, que se encontrava subdesenvolvido –, e alguns artistas emergentes como Tobias Putrih, por exemplo, sediado em Nova Iorque. Desde 2004, Gregor Podnar tem uma galeria em Berlim- Kreuzberg, contudo, mantém um espaço mais experimental em Liubliana, reservado para a produção artística local, que se confirma muito inovadora.
A exposição Antic Measures, comissariada por Chris Sharp, é uma exposição coletiva que junta obras que partilham o interesse por materiais pouco comuns, mudanças de escala divertidas, pelo espaço urbano e que de alguma forma se apropriam do cubo branco. Entretanto, são estabelecidas relações inesperadas entre elas. Na primeira sala encontramos uma pequena escultura, Untitled (1993) de B. Wurtz, feita de uma meia branca que está virada para cima, ou suspensa na vertical, em cima do suporte de alumínio e madeira. Em frente a ela está uma proposta simultaneamente monumental e minimalista, Endnote pink (inflatable) (2010), que vai do chão ao teto. Trata-se de uma estrutura de polieteno insuflada e transparente que parece demasiado grande para o espaço da galeria. Ao lado dela, na parede, aparece Stadtstrukuren (2004), dez fotos a preto e branco, com forte contraste, granuladas, que parecem antigas, mas de facto não o são, mostrando “casais” de pombas no espaço urbano vazio.| LER MAIS | Rosana Sancin |
COLECTIVA
The World Belongs to You
Palazzo Grassi - François Pinault Foundation, Veneza
A polémica em torno da ida para Veneza da colecção de arte contemporânea do bilionário francês François Pinault, considerado, em 2006 e 2007, uma das pessoas mais influentes no mundo da arte contemporânea pela revista Art Review, terminou com a aquisição em 2005 do Palazzo Grassi. Construído entre 1748 e 1772 para a rica família bolonhesa dos Grassi, é um edifício que se afasta dos palácios barrocos venezianos, devido ao seu classicismo académico. Em 1983 foi adquirido pelo grupo Fiat, que o transformou num espaço para exposições de arte. Depois de ter abandonado a ideia de construir um museu na Île Seguin, nos arredores de Paris, em pleno Sena, o município de Veneza apoiou Pinault na instalação da sua colecção, após as inconsequentes negociações com o estado francês.
Punta della Dogana, também na cidade italiana de Veneza, foi o outro espaço adquirido por Pinault pouco depois do Palazzo Grassi, reabrindo ao público completamente remodelado pelo arquitecto japonês Tadao Ando (que também renovou o Palazzo Grassi), em Junho de 2009, com uma exposição conjunta entre os dois espaços: Mapping the Studio.
The World Belongs to You é a exposição comemorativa dos cinco anos desta colecção em águas venezianas, colecção que só pode ser entendida, pela sua dimensão e natureza, como um auto-retrato de um coleccionador. Apresentando trabalhos de 40 artistas de 22 nacionalidades, ao longo dos três pisos do edifício, cada autor expõe a sua obra numa sala específica, definida como um espaço individual para cada peça. The World Belongs to You, mostra comissariada por Caroline Bourgeois, vai ao encontro do contexto experimental em que a arte contemporânea se vê envolvida. Este cunho experimental vem justificar um número cada vez maior de exposições em que deixa de ser necessário um conceito que suporte a “organização” de uma exposição.
| LER MAIS | Patrícia Rosas |
INDIVIDUAIS
Terceiro programa de exposições
Carpe Diem Arte e Pesquisa, Lisboa
Mais uma vez a galeria Carpe Diem inaugura uma exposição provida de um indubitável cariz multifacetado e dialogante com o espaço, promovendo um mesclado que coloca em contacto directo a arte contemporânea portuguesa com as tendências internacionais vigorantes.
Nuno Cera coloca o espaço a transbordar de oceano. A exploração do líquido e do rochoso compõe, no vídeo e nas fotografias que se apresentam, um díptico: a rudeza da pedra em coexistência com a fluidez marítima; a estaticidade em relação com a inquietude permanente. A água eternamente esculpindo a rocha. E o som desse acto de moldar a ecoar pelas salas da cave, dando-lhe uma humidade morna, maternal. Há algo de epifânico em vislumbrar um horizonte inteiro a derrubar a parede de uma cave sombria, como se o espaço a tornar-se infinito. E a luz que se reflecte na água, agora espelho; e a rocha que se reflecte na água, agora sombra. Em O Passageiro (2011), a viagem faz-se sem cansaços, algo nos leva. E a antiguidade daquelas paredes, arcos e colunas que nos rodeiam parece ser por fim devolvida à sua origem: pedra desumanizada, em carne viva, pois que apenas o mar a tocou. E navegando, nos vamos perdendo. Carlos Noronha Feio coloca-nos perante uma Natureza que nos faz frente, inexorável perante o ataque humano. Trying to reach the point zero (2009) é um vídeo projectado em loop no qual podemos ver um homem que, repetidamente, golpeia com um machado o tronco de uma árvore. O som do embate contra a madeira ecoa, compassado, sem que a catástrofe irrompa. A árvore permanece intacta, na sua altivez, perante a ameaça de perder parte de si, tornando manifesta a impotência humana perante a robustez do natural.| LER MAIS | Maria Beatriz Marquilhas |
EDGAR MARTINS
The Time Machine
Museu da Electricidade, Lisboa
Edgar Martins é um artista plástico que trabalha sobre fotografia. Uma definição que parece mais adequada do que a de fotógrafo. Isto porque Edgar Martins não trabalha a fotografia de forma purista, nem sequer explora qualquer tipo de naturalidade lumínica ou do objecto, antes optando por trabalhar a imagem em pós-produção consoante as suas necessidades artísticas. Isto aproxima-o muito mais de um pintor que de um fotógrafo e as questões artísticas que levanta com as suas obras estão mais próximas da pintura que da fotografia.
Compreendendo isto, pôr-se-ia rapidamente fim a polémicas que não aprofundam questões importantes acerca do papel da fotografia com medium artístico ou como um fim em si mesmo. Edgar Martins utiliza a fotografia de certa forma como um meio técnico auxiliar da mesma forma quase como era utilizada pelos pintores no século XIX. Mas se estes a usavam como forma de aceder às tão desejadas paisagens que não podiam visitar, Edgar utiliza-a como um meio de reproduzir ambientes, imagens que cria em jeito de pincelada, perfeitos e imaculados do ponto de vista formal. Aliás, essa é uma das suas características: o cuidado que é posto nas composições, com preocupações de simetria, de escala e de tonalidade, em que todo o descuido aparente é fruto de um trabalho meticuloso e calculado. Certamente Edgar Martins partilha a opinião de Doris Salcedo que em entrevista a Nuno Crespo refere que “o descuido não serve para a arte. A arte tem que ver com respeito, cuidado, devoção, atenção e precisão.” (1) | LER MAIS | Bárbara Valentina |
CARLA FILIPE
Bordas de Alguidar
Galeria Graça Brandão (Lisboa), Lisboa
Em Bordas de Alguidar, exposição patente na Galeria Graça Brandão, Lisboa, Carla Filipe dá continuidade a uma reflexão que tem marcado profundamente o seu trabalho e que se prende com os desenvolvimentos do poder global e suas implicações nas estruturas sociais, culturais e comunitárias das sociedades atuais. Porém, não é a interpretação ou o comentário do mundo que lhe parece interessar, mas antes a possibilidade de operar criticamente sobre ele. Ora esta possibilidade no seu caso, como sabemos, é sempre pensada e formulada a partir de memórias pessoais e experiências vividas, pelo que o seu trabalho apresenta uma reversibilidade de sentido muito particular. Se, por um lado, convoca o mundo através de contingências vivenciais, estas, por sua vez, extravasam o plano pessoal já que se mistura nos dados do próprio mundo, gerando situações inesperadas.
Para esta exposição em concreto, Carla Filipe apropriou-se da expressão popular Bordas de Alguidar (que significa os restos de comida que ficavam presos no alguidar da refeição), alargando o seu sentido ao contexto da atual crise económica para problematizar precisamente o modo como hoje o capitalismo celebra a obsolescência de certos saberes e práticas e os transforma em excedentes votados ao desaparecimento.
Se não há cultura, não há nada, um dos trabalhos realizados para esta exposição, é a este respeito exemplar, já que se ocupa de uma atividade profissional quase extinta.| LER MAIS | Sofia Nunes |
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