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ENTREVISTA



BARTOMEU MARÍ


Este mês publicamos uma entrevista com Bartomeu Marí, diretor do Museu d’Art Contemporani de Barcelona (MACBA). Entre 1989 e 1993, Marí, esteve associado à Fondation pour l’Architecture de Bruxelas. Posteriormente passou pelo IVAM de Valência (entre 1993 e 1995) e foi nomeado diretor do Centro Witte de With de Roterdão, em 1996.A trabalhar no MACBA desde 2004, como chefe do departamento de exposições, foi nomeado diretor da instituição em abril de 2008, sucedendo a Manuel Borja-Villel. Esta entrevista, conduzida por Víctor Palacios, foi publicada originalmente na revista Código, em 2010.
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O ESTADO DA ARTE



AUGUSTO M. SEABRA


A OBRA DE ARTE NA ERA DA SUA REPRODUTIBILIDADE DIGITAL (II)
Google é o nome de um motor de busca e o de uma empresa fundada em 1998 por Larry Page e Sergey Brin quando eram ambos doutorandos da Universidade de Stanford na Califórnia. Mas “Google” tornou-se também num termo corrente, tanto que em 2002 a American Society a considerou a “palavra mais útil” do ano, dando mesmo origem a um verbo, “to Google”, consagrado pelo Oxford English Dictionary e o Webster’s Online Dictionary em 2006 – “eu googlo”, “tu googlas”, “ele googla”. Sem dúvida alguma, o Google é-nos hoje um instrumento de trabalho crucial – como outros meios digitais, caso da Wikipedia. Mas aquilo que ora trabalhamos é muito mais que um utensílio. O grande escritor inglês Evelyn Waugh dizia que “the language is a mindset”, que a linguagem e a língua são um sistema de pensamento. O que ora sucedeu com as tecnologias de informação e os meios digitais é uma autêntica rutura epistemológica, isto é, uma mutação radical dos nossos sistemas de pensamento e de perceção do mundo, que será ainda maior nos que desde a infância usam essas possibilidades.
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PERSPETIVA ATUAL

PATRÍCIA TRINDADE


LOS ANGELES: PACIFIC STANDARD TIME
A cidade de Los Angeles marcou e continua a marcar a cena artística norte-americana e é sem dúvida o local, à parte de Nova Iorque, a ter em conta para perceber como se move o universo criativo dos Estados Unidos. Los Angeles é detentora do maior número de museus per capita de todo o mundo: 841 museus e galerias. Mais de 60 instituições culturais do sul da Califórnia, incluindo os principais museus de Los Angeles, participam no mega projecto Pacific Standard Time – Art in LA 1945-1980. A iniciativa é do Getty Center (com o patrocínio do Bank of America), que está na génese do projecto (tendo investido 10 milhões de dólares para desencadear a investigação), mas as exposições estão disseminadas pelos 60 espaços, que até Abril próximo expõem a criação artística que marcou a diferença e tornou Los Angeles relevante no contexto artístico norte-americano e, mais tarde, no europeu. Com uma janela temporal que se inicia no pós II Guerra Mundial, as obras apresentadas estendem-se até à década de 1980.
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OPINIÃO

FILIPE PINTO


A AUTORIDADE DO AUTOR - A PARTIR DO TRABALHO DE DORIS SALCEDO (SOBRE VAZIO, SILÊNCIO, MUDEZ)
(...) A obra de arte disponibiliza um acesso ao sítio a partir do qual o artista vê o mundo. O que acontece é que os textos que se escrevem sobre o seu trabalho repetem inevitavelmente as suas intenções, numa obediência à voz da artista, repetem-se em mise en abyme; o que acontece é que a abordagem ao seu trabalho se dá acriticamente – lemos que Shibboleth é sobre racismo, que Plegaria muda é sobre jovens colombianos mortos pelo exército do seu país, mas nada disso é patente nas peças; esse significado específico é dado apenas pela intenção da artista. O que acontece comummente é que esses textos demonstram uma espécie de ventriloquismo, quer dizer, demitem-se de uma posição crítica mexendo apenas a boca para re-citar as palavras do artista; muitos textos não passam portanto de folhas de sala; e assim o significado do trabalho vai-se sedimentando em algo que lhe é exterior. Sem aquele texto prévio seria possível dizer que Plegaria muda se trata de uma obra política? – A morte é sempre política; a morte representa sempre um acesso que já não existe, um possível para sempre negado.
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EXPOSIÇÃO COLECTIVA

29 SETEMBRO - 10 NOVEMBRO
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ARQUITETURA E DESIGN

IVO POÇAS MARTINS


ARCHIZINES – QUAL O TAMANHO DA PEQUENÊS?
Archizines é um “arquivo em expansão” de fanzines, jornais e revistas de arquitetura “independentes” e “alternativas” de mais de 20 países, lançadas desde o ano 2000. Nasce do interesse e de uma recolha individual feita por Elias Redstone ao longo de várias viagens e torna-se agora um projeto público. Elias lança em Archizines a hipótese de se ter dado neste século um aumento relevante do número de edições de arquitetura em formato impresso, num fenómeno comparável ao período entre os anos 1960 e 1970, aparentemente em contracorrente com a atual era digital. A primeira abertura à fruição e participação pública de Archizines deu-se com o lançamento da página web (www.archizines.com) onde, para além de se apresentarem todos os números dessa recolha, se fez um autêntico call for papers: um apelo ao envio de diferentes edições impressas com estas características. A exposição de Archizines, esteve patente em Londres, na Architectural Association, entre 5 de Novembro e 14 de Dezembro de 2011.
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MEMÓRIAS DO FUTURO

RUI MIGUEL ABREU


ONEOHTRIX POINT NEVER: da implosão dos fantasmas
No recentemente editado Retromania, o crítico e teórico Simon Reynolds conta a história de como Jim Jupp, um dos homens do leme do quartel general do género conhecido como Hauntology, a Ghost Box, fez "um morto cantar uma nova canção" ao samplar e alterar uma gravação originalmente feita em 1908. Na verdade, nestes últimos 100 anos, todos nos habituámos à ideia da permanência dos fantasmas: Billie Holiday que nos canta os seus lamentos, Jimi Hendrix que nos convida para nadar no seu oceano de feedback particular ou Ian Curtis que nos puxa para o abismo. Sob uma certa perspectiva, todos são fantasmas que se recusam a abandonar este plano e que cumprem com rigor o plano de vaguear nesta dimensão para todo o sempre. Mas já não são casas, o que estes fantasmas assombram, mas os nossos próprios ouvidos.
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BLOGSITE EM RESIDÊNCIA

DAMIEN HIRST: THE COMPLETE SPOT PAINTINGS 1986-2011




ART THOUGHTZ: DAMIEN HIRST by Hennesy Youngman, January 10, 2011.






EXPOSIÇÕES ATUAIS

VASCO ARAÚJO

Trabalhos para nada: O Modelo


Fundação Carmona e Costa, Lisboa
Com curadoria de Luís Serpa, o trabalho que constitui a mostra de Vasco Araújo no Espaço de Artes Decorativas da Fundação Carmona e Costa, em Lisboa, intitulado Trabalhos para nada: O Modelo, partiu de um convite realizado diretamente por Maria da Graça Carmona e Costa e por Luís Serpa (curador e responsável pela arquitetura de interiores do espaço). A proposta dirigiu-se para a criação de uma intervenção, numa parede precisa do espaço de artes decorativas - recentemente remodelado e reestruturado - que cruzasse as artes decorativas (a coleção de porcelanas e faianças da Coleção Carmona e Costa) e a prática artística contemporânea. Foi dada carta branca ao artista para a apresentação do projeto. A peça criada pelo artista traduz-se numa proposta site-specific que tem como ponto de partida, uma seleção de peças de porcelana e faianças do séc. XVII desta coleção. A sua investigação começa nos motivos e nas personagens que surgem representadas na decoração destas peças que, como é relevado no trabalho do artista, contêm elementos que lhe surgem como dicotómicos, eu acrescentaria, incongruentes. As peças portuguesas criadas com inspiração oriental, neste caso, chinesa, contêm, em essência, os mesmos elementos. No entanto, nas cópias portuguesas os elementos perdem claramente a sua carga simbólica, mantendo apenas o lado decorativo. Vasco Araújo joga com o confronto entre a visão oriental, as narrativas e simbologias retratadas e a perspectiva ocidental, mais restrita e literal, dado cingir-se a uma cópia destes motivos tradicionais chineses, criando uma imagética próxima da oriental, contudo vazia de sentido.
Patrícia Trindade

DORIS SALCEDO

Plegaria Muda


CAM - Centro de Arte Moderna, Lisboa
Plegaria Muda é o título da instalação mais recente de Doris Salcedo, mas também a primeira exposição que a artista colombiana realiza em Portugal, numa co-produção do Centro de Arte Moderna-Fundação Calouste Gulbenkian com mais quatro instituições internacionais: o Moderna Museet Malmö; o MUAC – Museo Universitario Arte Contemporáneo, Cidade do México; o MAXXI – Museo nazionale delle arti del XXI secolo, Roma e a Pinacoteca do Estado de São Paulo. O trabalho de Doris Salcedo (n.1958, Bogotá), até hoje pouco conhecido entre nós, remonta ao final da década de 1980, adquirindo porém maior visibilidade no decorrer dos anos 1990, altura em que vários artistas redirecionam a prática escultórica e da instalação para um questionamento crítico da ideia de monumento e de memória associado aos problemas de exclusão inerentes aos desenvolvimentos do capitalismo global. Doris Salcedo surge assim a par de outros nomes, como Mona Hatoum, Rachel Whiteread ou Santiago Sierra, produzindo um corpo de trabalho diversificado que interroga a fragilidade da vida humana em particular, através da rememoração de atos de opressão, violência e morte política ou de traumas coletivos e pessoais. No entanto, os processos de rememoração em causa não atuam meramente como testemunho ou simples evidência de um mal. Eles recuperam antes a história com a vontade de fraturar e também de cancelar as ordens e hierarquias que configuram determinados poderes. Enquanto os seus trabalhos iniciais se resolviam em pequenas e médias esculturas, constituídas geralmente por combinações dos mesmos materiais: cimento, portas, cadeiras, mesas e armários de madeira e outros objetos quotidianos em metal, nos anos 2000 Salcedo recorre com mais frequência a instalações de grande escala que se inscrevem no espaço público ou se articulam com os espaços de apresentação, como é caso de Plegaria Muda (2008-10) que ocupa com grande eficácia toda a nave central do CAM ou de outras instalações anteriores como Abyss (2006) e Shibboleth (2007) exibidas no foyer do museu em forma de documento fotográfico.
LER MAIS Sofia Nunes

COLETIVA

Antic Measures


Galeria Gregor Podnar (Berlim), Berlim
O galerista esloveno Gregor Podnar tem-se afirmado a nível internacional nos últimos anos, representando um elenco de artistas concetuais já estabelecidos da Europa de Leste – como Dan Perjovschi ou Vadim Fiskin, que previamente não eram representados pelas galerias devido ao mercado, que se encontrava subdesenvolvido –, e alguns artistas emergentes como Tobias Putrih, por exemplo, sediado em Nova Iorque. Desde 2004, Gregor Podnar tem uma galeria em Berlim- Kreuzberg, contudo, mantém um espaço mais experimental em Liubliana, reservado para a produção artística local, que se confirma muito inovadora. A exposição Antic Measures, comissariada por Chris Sharp, é uma exposição coletiva que junta obras que partilham o interesse por materiais pouco comuns, mudanças de escala divertidas, pelo espaço urbano e que de alguma forma se apropriam do cubo branco. Entretanto, são estabelecidas relações inesperadas entre elas. Na primeira sala encontramos uma pequena escultura, Untitled (1993) de B. Wurtz, feita de uma meia branca que está virada para cima, ou suspensa na vertical, em cima do suporte de alumínio e madeira. Em frente a ela está uma proposta simultaneamente monumental e minimalista, Endnote pink (inflatable) (2010), que vai do chão ao teto. Trata-se de uma estrutura de polieteno insuflada e transparente que parece demasiado grande para o espaço da galeria. Ao lado dela, na parede, aparece Stadtstrukuren (2004), dez fotos a preto e branco, com forte contraste, granuladas, que parecem antigas, mas de facto não o são, mostrando “casais” de pombas no espaço urbano vazio.
LER MAIS Rosana Sancin

COLECTIVA

The World Belongs to You


Palazzo Grassi - François Pinault Foundation, Veneza
A polémica em torno da ida para Veneza da colecção de arte contemporânea do bilionário francês François Pinault, considerado, em 2006 e 2007, uma das pessoas mais influentes no mundo da arte contemporânea pela revista Art Review, terminou com a aquisição em 2005 do Palazzo Grassi. Construído entre 1748 e 1772 para a rica família bolonhesa dos Grassi, é um edifício que se afasta dos palácios barrocos venezianos, devido ao seu classicismo académico. Em 1983 foi adquirido pelo grupo Fiat, que o transformou num espaço para exposições de arte. Depois de ter abandonado a ideia de construir um museu na Île Seguin, nos arredores de Paris, em pleno Sena, o município de Veneza apoiou Pinault na instalação da sua colecção, após as inconsequentes negociações com o estado francês. Punta della Dogana, também na cidade italiana de Veneza, foi o outro espaço adquirido por Pinault pouco depois do Palazzo Grassi, reabrindo ao público completamente remodelado pelo arquitecto japonês Tadao Ando (que também renovou o Palazzo Grassi), em Junho de 2009, com uma exposição conjunta entre os dois espaços: Mapping the Studio. The World Belongs to You é a exposição comemorativa dos cinco anos desta colecção em águas venezianas, colecção que só pode ser entendida, pela sua dimensão e natureza, como um auto-retrato de um coleccionador. Apresentando trabalhos de 40 artistas de 22 nacionalidades, ao longo dos três pisos do edifício, cada autor expõe a sua obra numa sala específica, definida como um espaço individual para cada peça. The World Belongs to You, mostra comissariada por Caroline Bourgeois, vai ao encontro do contexto experimental em que a arte contemporânea se vê envolvida. Este cunho experimental vem justificar um número cada vez maior de exposições em que deixa de ser necessário um conceito que suporte a “organização” de uma exposição.
LER MAIS Patrícia Rosas

INDIVIDUAIS

Terceiro programa de exposições


Carpe Diem Arte e Pesquisa, Lisboa
Mais uma vez a galeria Carpe Diem inaugura uma exposição provida de um indubitável cariz multifacetado e dialogante com o espaço, promovendo um mesclado que coloca em contacto directo a arte contemporânea portuguesa com as tendências internacionais vigorantes. Nuno Cera coloca o espaço a transbordar de oceano. A exploração do líquido e do rochoso compõe, no vídeo e nas fotografias que se apresentam, um díptico: a rudeza da pedra em coexistência com a fluidez marítima; a estaticidade em relação com a inquietude permanente. A água eternamente esculpindo a rocha. E o som desse acto de moldar a ecoar pelas salas da cave, dando-lhe uma humidade morna, maternal. Há algo de epifânico em vislumbrar um horizonte inteiro a derrubar a parede de uma cave sombria, como se o espaço a tornar-se infinito. E a luz que se reflecte na água, agora espelho; e a rocha que se reflecte na água, agora sombra. Em O Passageiro (2011), a viagem faz-se sem cansaços, algo nos leva. E a antiguidade daquelas paredes, arcos e colunas que nos rodeiam parece ser por fim devolvida à sua origem: pedra desumanizada, em carne viva, pois que apenas o mar a tocou. E navegando, nos vamos perdendo. Carlos Noronha Feio coloca-nos perante uma Natureza que nos faz frente, inexorável perante o ataque humano. Trying to reach the point zero (2009) é um vídeo projectado em loop no qual podemos ver um homem que, repetidamente, golpeia com um machado o tronco de uma árvore. O som do embate contra a madeira ecoa, compassado, sem que a catástrofe irrompa. A árvore permanece intacta, na sua altivez, perante a ameaça de perder parte de si, tornando manifesta a impotência humana perante a robustez do natural.
LER MAIS Maria Beatriz Marquilhas

EDGAR MARTINS

The Time Machine


Museu da Electricidade, Lisboa
Edgar Martins é um artista plástico que trabalha sobre fotografia. Uma definição que parece mais adequada do que a de fotógrafo. Isto porque Edgar Martins não trabalha a fotografia de forma purista, nem sequer explora qualquer tipo de naturalidade lumínica ou do objecto, antes optando por trabalhar a imagem em pós-produção consoante as suas necessidades artísticas. Isto aproxima-o muito mais de um pintor que de um fotógrafo e as questões artísticas que levanta com as suas obras estão mais próximas da pintura que da fotografia. Compreendendo isto, pôr-se-ia rapidamente fim a polémicas que não aprofundam questões importantes acerca do papel da fotografia com medium artístico ou como um fim em si mesmo. Edgar Martins utiliza a fotografia de certa forma como um meio técnico auxiliar da mesma forma quase como era utilizada pelos pintores no século XIX. Mas se estes a usavam como forma de aceder às tão desejadas paisagens que não podiam visitar, Edgar utiliza-a como um meio de reproduzir ambientes, imagens que cria em jeito de pincelada, perfeitos e imaculados do ponto de vista formal. Aliás, essa é uma das suas características: o cuidado que é posto nas composições, com preocupações de simetria, de escala e de tonalidade, em que todo o descuido aparente é fruto de um trabalho meticuloso e calculado. Certamente Edgar Martins partilha a opinião de Doris Salcedo que em entrevista a Nuno Crespo refere que “o descuido não serve para a arte. A arte tem que ver com respeito, cuidado, devoção, atenção e precisão.” (1)
LER MAIS Bárbara Valentina

CARLA FILIPE

Bordas de Alguidar


Galeria Graça Brandão (Lisboa), Lisboa
Em Bordas de Alguidar, exposição patente na Galeria Graça Brandão, Lisboa, Carla Filipe dá continuidade a uma reflexão que tem marcado profundamente o seu trabalho e que se prende com os desenvolvimentos do poder global e suas implicações nas estruturas sociais, culturais e comunitárias das sociedades atuais. Porém, não é a interpretação ou o comentário do mundo que lhe parece interessar, mas antes a possibilidade de operar criticamente sobre ele. Ora esta possibilidade no seu caso, como sabemos, é sempre pensada e formulada a partir de memórias pessoais e experiências vividas, pelo que o seu trabalho apresenta uma reversibilidade de sentido muito particular. Se, por um lado, convoca o mundo através de contingências vivenciais, estas, por sua vez, extravasam o plano pessoal já que se mistura nos dados do próprio mundo, gerando situações inesperadas. Para esta exposição em concreto, Carla Filipe apropriou-se da expressão popular Bordas de Alguidar (que significa os restos de comida que ficavam presos no alguidar da refeição), alargando o seu sentido ao contexto da atual crise económica para problematizar precisamente o modo como hoje o capitalismo celebra a obsolescência de certos saberes e práticas e os transforma em excedentes votados ao desaparecimento. Se não há cultura, não há nada, um dos trabalhos realizados para esta exposição, é a este respeito exemplar, já que se ocupa de uma atividade profissional quase extinta.
LER MAIS Sofia Nunes