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NUNO CERA: CÉREBROS, DISTANTESMARIANA VARELA2026-02-17
cérebros, distantes está em diálogo com a produção de 2022 do artista, Luzes distantes, formando uma espécie de trilogia, ainda sem a terceira peça que lhe poderá futuramente acompanhar. Luzes distantes (2022) é um filme contemplativo de paisagens híbridas, em que as estruturas fabris e logísticas em Sines se misturam à paisagem natural. cérebros, distantes (2025) acompanha o interesse do artista pelo hibridismo e pela realidade produtiva do mundo, mas apresenta um carácter mais imersivo nos processos produtivos, na automação robótica e na aproximação desses processos ao nosso cotidiano. Menos contemplativo do que o primeiro trabalho, o artista acopla diferentes géneros, do documentário à cultura pop, em uma produção audio-visual original.
Still do filme cérebros, distantes (2023-2025), de Nuno Cera. 36’30’’ (Um canal vídeo 4K, stereo ). © Nuno Cera
Propõe apresentar, nesse sentido, a espécie de machine-learning-humana em curso, construindo um arco temporal que vai do trabalho nas fábricas no início do século XX até os dias de hoje. Esse arco é constantemente atravessado ou sobreposto por imagens do mundo natural, que dialogam e contrastam inteligências. O filme explora o que pode ser visto como um novo regime existencial, caracterizado pela intensificação da proximidade entre humanos e máquinas; ou como um novo passo do processo de produção, caracterizado por uma quase completa automatização dos processos produtivos. Há uma atmosfera inquietante no filme que, valha a distância, lembra ao mesmo tempo Cronenberg e Ridley Scott, salpicado por elementos de eventual jocosidade e melancolia. Automóveis e procedimentos médicos são os principais responsáveis pela presença tecnológica enquanto força material e estética do filme, enquanto a constante circulação de robôs sugere-os ora como espécies de companhia, ora como expressão de um novo humanismo robótico. Cera usa quase sempre duas projeções a correrem paralelamente ao longo do filme, sendo uma delas utilizada para apresentar elementos do mundo natural. Esse artifício proporciona sobretudo a experiência do contraste, uma vez que coloca lado a lado regimes completamente distintos: um que se refere ao regime do lítio, aço, automação e robótica, e o regime das flores, árvores, insetos e paisagens. É precisamente neste contraste que reside o enigma do filme, que parece colocar a questão da comunicação possível ou impossível entre dois regimes de realidade ou de inteligência. Esse contraste entre duas projeções ou, mais que contraste, esse vazio e essa separação que reside entre as projeções é não só o enigma, mas talvez o grande enlace do filme, que acaba por ficar para nós enquanto sugestão. A quebra de regimes paralelos remete a uma clara ausência de vínculo. Cabe a nós perguntar por ele. Cera escolheu operar por regimes paralelos, sem necessariamente revelar os processos de extração e fabricação que conectam esses mundos. As formas naturais aparecem implicadas em uma experiência de contemplação e melancolia, sem serem necessariamente desveladas as formas que marcam a extração e a transformação delas em matérias primas. Dessa forma, Cera acaba por sugerir uma outra coisa ainda — uma espécie de inteligência partilhada, distinta, impossível ou possível de ser vinculada enquanto forma ou processo. Poderíamos nos perguntar, assim, tanto se há uma inteligência robótica e se ela é similar ou diferente da inteligência natural, tanto - e talvez mais importante ainda, - qual é o processo que marca o modus operanti dessa inteligência tecnológica — que reúne, de facto, esses dois pólos aparentemente distintos por meio da destruição e transformação material das suas formas.
Still do filme cérebros, distantes (2023-2025), de Nuno Cera. 36’30’’ (Um canal vídeo 4K, stereo ). © Nuno Cera
A figura do robô é expressiva. Aparecendo como uma evidente mimetização do ser humano, seus traços, jeitos, movimentos e formas de estar, ele é a expressão talvez narcísica da capacidade humana-tecnológica de produzir um outro humano, ele todo formado de lítio e aço, plástico e eletricidade, à sua imagem. Esconde, por sua vez, a natureza natural da humanidade, a sua indissociável relação com o meio ambiente, a sua semelhança e continuidade com os animais e as aves, bem como a sua parca capacidade, enquanto cultura, de alcançar um outro ser humano, a si tão próximo. Essa cisão fundamental entre homem e natureza, que é também a cisão fundamental do espírito humano, caracteriza a sociedade ocidental enquanto a conhecemos. E é nesta quebra, neste muro, que reside todo o seu enigma: a problemática continuidade fundamental entre humanos e formas naturais, que parecem correr em regimes paralelos de realidade, mas que estão inevitavelmente implicados. Sabe-se, hoje em dia mais do que nunca, o alto preço pago pelos povos e pelos ecossistemas diante dessa permanente voracidade. Nesse sentido, a espécie de caixa-preta que se esconde por trás da aparência familiar do robô pode aparecer como uma espécie de metáfora para o conhecimento humano e para os efeitos impensados, onde o desenvolvimento tecnológico pode e acaba por nos arrastar. Nesse sentido, há uma força inquietante no filme, que deve-se tanto a ausência de seres humanos nos processos fabris - ausência essa largamente experimentada no seu outro trabalho, Luzes Distantes - quanto a presença carismática de alguns robôs em espaços eventualmente afetivos ou quotidianos, como hospitais, casas, mercados, etc. O que será deixado para trás nesse processo aparentemente inevitável de revolução tecnológica - e o que será à experiência humana adicionado? Parece-me que a recepção do filme de Nuno Cera no Museu do Neo Realismo é, de certa forma, interessante. Dado o facto de que o Museu conta com um vasto repositório de obras do movimento Neo-Realista em Portugal, que representou com centralidade os trabalhadores e o trabalho nas suas obras, o filme aparece exposto com a possibilidade de ser lido em relação a um continuum da história do mundo: histórias de exploração e mais-valia, de grandes construções e grandes pobrezas, grandes mortes e grandes delírios e, sobretudo, da história do trabalho. Nesse sentido, é apresentado para nós um novo regime existencial robótico, suas questões e seus enigmas, ao lado da história fundamental do trabalho — da relação inextricável do trabalho com a construção dos objetos do mundo.
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