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ALICE NEEL: BEAUTIFULLY IMPERFECTMAFALDA TEIXEIRA2026-10-09
Vista da exposição Alice Neel: Beautifully Imperfect, 2026, Serralves. © nvstudio
Num tributo de Inês Grosso à artista, para quem as pessoas vinham sempre em primeiro lugar – People come first – observamos na primeira sala da exposição, a par com o autorretrato nu, cartas de vários artistas nacionais e internacionais dirigidas a Neel. Como um coro de vozes, dispostas sobre uma mesa espelhada, lemos palavras de confissão, de admiração e reconhecimento de Carminho, Vasco Araújo, Chantal Joffe, André Romão, Fernanda Fragateiro, entre outros, num gesto demonstrativo de que a sua obra continua a ecoar no presente, inspirando artistas de diferentes contextos e gerações. Da primeira sala dedicada a Alice Neel, a exposição organiza-se por núcleos que se distribuem pelos dois lados da Ala Álvaro Siza: de um lado, as relações familiares e afetivas, a maternidade e a ideia de família expandia, na qual se incluem amigos, objetos e animais domésticos; do outro lado, o universo ativista e militante, os poetas e os críticos com os quais conviveu. Afastando-se de uma abordagem cronológica, desconstruindo uma leitura conservadora do trabalho de Neel, destacamos a decisão curatorial em incluir naturezas-mortas e obras que criam momentos de tensão entre os diversos núcleos, assim como os jogos de espelhos que, numa evocação da história da pintura e do autorretrato, pontuam o espaço expositivo, ora expandindo-o, ora refletindo outras obras e o próprio visitante, integrando-o simbolicamente no universo e coleção de retratados de Alice Neel.
Vista da exposição Alice Neel: Beautifully Imperfect, 2026, Serralves. © nvstudio
À dimensão documental e arquivista da exposição, acresce-se o carácter biográfico com a presença de fotografias, postais, livros e músicas de eleição da artista, assim como pinturas que testemunham momentos marcantes da sua vida pessoal. A este propósito, destaque para o retrato Isabetta, segunda filha de Alice Neel com o pintor cubano Carlos Enríquez, que com cerca de seis anos posa nua e de frente para a artista. De mãos nas ancas, olhar e postura desafiantes face à mãe, são visíveis e quase palpáveis a tensão e a distância entre ambas. Realizada em 1934, após um longo período de afastamento, o retrato – cuja força reside na expressão enigmática da criança – consiste numa segunda versão, tendo a primeira sido destruída juntamente com outras pinturas por Kenneth Doolittle, companheiro da artista. Ao lado, como um esboço, observamos a mesma imagem de Isabetta realizada cinquenta anos depois: depurada, de traço negro e pequenos apontamentos de cor, Memories (1981) surge como uma memória desvanecida da filha, e segundo a curadora como uma memória da pintura. A relação ambivalente da artista com a maternidade manifesta-se em obras como Well Baby Clinic (1928-29) e Degenerate Madonna (1930). Na primeira, o retrato psicológico e coletivo da clínica comunitária onde Isabetta nasceu, revela uma cena caótica dominada por rostos contorcidos e olhares esgazeados de mães com os seus bebés; em Degenerate Madonna, a desconstrução de um tema da história da arte com a figura da Virgem de rosto cansado e seios alongados, em cujo colo repousa o Menino de cabeça desproporcionada, numa cena dominada pela escuridão e densidade cromática. Na mesma sala sobressai a tensão de Suicidal Ward (1931) – desenho antigo de uma ala psiquiátrica de Filadélfia onde Neel foi internada após a perda da primeira filha com difteria e várias tentativas de suicídio – dominada pelo cansaço e o desespero de mulheres agonizadas. Ao longo das primeiras salas da exposição, acompanhamos o crescimento da família da artista e consequentemente do seu universo pictórico, através dos retratos dos filhos e dos netos em diferentes fases, qual álbum familiar marcado por momentos de tensão, de separação, transformação dos corpos e morte, de que é exemplo Death Father (1946). Destaque para o núcleo dedicado ao Spanish Harlem, bairro nova iorquino onde Alice viveu por mais de 20 anos, e à visibilidade que deu na sua obra à comunidade porto-riquenha e às minorias étnicas. A dimensão social, política e ativista do trabalho de Neel, sobressai na segunda metade da exposição em obras como Black Draftee (James Hunter), 1965, retrato inacabado de um jovem afroamericano recrutado para combater na Guerra do Vietname. O olhar inexpressivo e a postura introspectiva do retratado, de quem não sabe o que o futuro lhe reserva, adquirem força e dimensão através da decisão deliberada da artista em não terminar a pintura, retratando deste modo uma geração que desperece no Vietname, ao mesmo tempo que nos revela a beleza do não finito. Mais à frente, o retrato informal do Presidente da Câmara de Nova Iorque, Mayor Kosh (1981), cuja administração seria criticada pelo distanciamento e passividade face à epidemia da sida, apresenta-se de modo pouco inocente ao lado do pintor e performer Brian Buzczack (1983), que viria a falecer da doença aos 33 anos de idade. Entre políticos, artistas, ativistas e figuras proeminentes da esfera cultural queer, o retrato da performer e trabalhadora do sexo Annie Sprinkle (1982) destaca-se pela presença empoderada e autoconfiante, cujo corpo – envergando lingerie de couro preta e revelando nudez – se apresenta livre de convenções. Na última sala, entre o humor e a genuinidade do peru que descongela no lava-loiças em Thanksgiving (1965), passando pela melancolia da paisagem urbana de Nova Iorque durante a Grande Depressão, o comentário político da artista manifesta-se no retrato duplo Rita and Hubert (1958), em que captura a intimidade do casal inter-racial – numa época em que o casamento entre pessoas de diferentes etnias era proibido em diversos estados norte americanos – deixando transparecer a confiança mútua entre a artista e os modelos.
Alice Neel, Rita and Hubert (1958). Óleo sobre tela, 86.4 × 101.6 cm
Ao longo de Beatifully Imperfect, a irregularidade e deselegância dos corpos, o realismo e a veracidade com que Neel os retrata, sem artifícios ou idealizações, seduzem-nos e testemunham um olhar sem julgamentos de uma artista capaz de ver a beleza na falha e na imperfeição. Captando a essência, o carácter e a singularidade de cada pessoa, as pinturas de Neel confronta-nos com o real: com a volumetria dos corpos das mulheres durante o período gestacional; com o nascimento, mas também com a velhice e a morte, com a passagem do tempo e a transformação. Controversa, excêntrica, determinada e fiel ao seu trabalho, não obstante as múltiplas adversidades que marcaram a sua a vida pessoal e profissional, Alice Neel nunca deixou de pintar. Num mundo artístico dominado por homens, numa altura em que o abstracionismo era valorizado, Neel manteve a figura humana no centro do seu trabalho, alcançado reconhecimento na década de setenta quando a revista Time encomenda, para a capa da edição de Agosto de 1970, o retrato da autora e ativista feminista americana Kate Millet. Nesse mesmo ano de 1970 pinta o retrato de Andy Warhol, e em 1974 o Whitney Museum of American Art (Nova Iorque) dedica-lhe a primeira retrospetiva, catapultando-a para o estatuto de importante retratista americana. Nascida com o século na Pensilvânia – I am the century – a sua obra espelha através dos retratos – de familiares, amigos, vizinhos do Harlem, políticos, ativistas e artistas – a época em que viveu, desde a Grande Depressão ao pós-guerra, acompanhando a luta pela emancipação feminina e a defesa dos direitos das comunidades marginalizadas, num corpo de trabalho que permanece profundamente atual.
Mafalda TeixeiraMestre em História de Arte, Património e Cultura Visual pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, estagiou e trabalhou no departamento de Exposições Temporárias do Museu d’Art Contemporani de Barcelona. Durante o mestrado realiza um estágio curricular na área de produção da Galeria Municipal do Porto. Atualmente dedica-se à investigação no âmbito da História da Arte Moderna e Contemporânea, e à publicação de artigos científicos.
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