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JOÃO PEDRO FONSECA

CONSTANÇA BABO


 

 

João Pedro Fonseca é um artista para quem não parecem existir barreiras formais, visuais ou plásticas. Revela capacidades criativa e técnica invulgares, numa produção que tanto explora os média digitais como o universo físico, principalmente a partir do seu próprio corpo. Na página online do artista pode acompanhar-se a sua produção artística nas áreas de vídeo-arte, performance, instalação, fotografia, teatro e design.


Por Constança Babo


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CB: João, o teu percurso artístico define-se por uma pluralidade criativa que resulta numa multiplicidade expressiva, muito de acordo com o tempo presente, do múltiplo, da aceleração, do progresso e de alarmantes incertezas. Consideras que a produção artística deve surgir numa mesma velocidade de produção e evolução? E, paralelamente, que o artista deve ter um papel interveniente ou uma função social?

JPF: Até hoje, a velocidade do movimento do corpo não igualou a velocidade do pensamento. Há uma barreira física que impede o homem de extrapolar os sonhos e, na prática, somos mais matéria que espírito - talvez por esta ser mais concreta aos nossos olhos. A metafísica, por outro lado, é um campo extremamente complexo com velocidades instáveis (ou ainda não compreendidas). Penso que se a ação e o pensamento se deslocassem à mesma velocidade, levar-nos-iam à nulidade da criatividade. O facto do corpo ser limitado e difícil de levar a todo o lado, cria, em mim, uma angústia, mas, ao mesmo tempo, a procura de fórmulas de o alcançar, fazendo com que conheça melhor o meu interior e crie coisas mais ricas. Quando falo de produção e evolução levo para esta mesma questão. A percepção da matéria e do tempo é que marca o compasso das certezas e incertezas do pensamento, é uma velocidade demasiado relativa e complexa para ser medida. Posso afirmar que não tenho certezas sobre o mundo: o meu pensamento é mutável e direcionado para o sentido que estiver mais à margem da vanguarda. Faz-me confusão o ser humano ter tantas certezas quando não se conhece a si mesmo. Muita ou pouca produção não reflete evolução, é a percepção do tempo que o vai definir. Por sua vez, o artista, e todo o homem, já adquire uma função social mal nasce, o que, na minha perspectiva, não é uma escolha, é uma consequência de viver no mundo. E, quando se cria e apresenta algo à sociedade, adquire-se um papel social, independentemente do propósito artístico. Acho que alguns artistas deviam ser mais ativos socialmente, há um certo receio em expor ideais e perspectivas devido a uma certa atmosfera de rejeição. Nem todas as peças criadas são aceites por todas as sociedades, o mundo tem uma direção única mas todo ele vive sob diferentes velocidades.


CB: A instalação audiovisual ( )3 que realizaste, em 2017, com João Cristóvão Leitão, na galeria Appleton Square, proporciona uma experiência múltipla, visual, auditiva e perceptiva. Tais dimensões sensitivas proporcionadas ao espectador são algo que procuras alcançar e reconheces como uma das possibilidades dos media mais atuais?

JPF: A peça ( )3, criada juntamente com o João Cristóvão Leitão, é um desafio de tentar mexer com as várias emoções do espectador através da singularidade de um cubo. Os nossos sentidos têm um papel cada vez menos autêntico e se antigamente tinham o propósito da sobrevivência, hoje são formatados para serem usados pela indústria do entretenimento. Na verdade, são mecanismos sensoriais para o funcionamento das nossas funções cognitivas, sendo um dos casos mais basilares, a memória, que tem vindo a ser descartável, volátil e sem apego à atenção. Ver um vídeo numa galeria exige um compromisso radicalmente diferente em comparação com uma peça estática, exige mais espaço, tempo, uma determinada condição física e mental. Os média mais atuais trabalham os sentidos colocando o espectador numa posição vulnerável, é uma das consequências da ciência a redefinir a humanidade. Quando uso a tecnologia para levar o espectador a viver os seus campos sensoriais, deparo-me com algo mais vivo que o próprio homem, a máquina inteligente.


CB: Sentes que existe uma acrescida dificuldade na exposição destes trabalhos tão estruturalmente complexos? Não somente quando se tratam de instalações físicas, mas também no que diz respeito a vídeos como, por exemplo, o experimental Empty Touches (2014) que interpela e confronta o espectador através de um negro profundo e uma ação e movimento inquietantes.

JPF: Em Portugal sim. Há um grande delay nas galerias e instituições culturais na sua resposta às artes contemporâneas e tecnológicas, os modelos e formatos do passado ainda se mantêm criando uma situação paradoxal face à atual sociedade da internet. Num mundo onde a informação data nas redes virtuais é cada vez mais pesada e a necessidade do formato físico menos exigente, atrevo-me a dizer que a arte está um passo a trás em relação ao resto, não está a acompanhar as exigências que a sociedade tece. As galerias, os teatros, as instituições culturais, na sua maioria, já não são o espelho da atualidade e parecem terem adquirido um carácter museológico. Os espaços ainda não estão preparados para receber obras com diferentes visões artísticas e isso influencia imenso o desenvolvimento cultural e as comunidades artísticas.
A Empty Touches foi exibida no Brasil e em França, peça que consiste numa forte repetição em forma de ritualismo que os performers executaram e, sobretudo, experienciaram. No início, o espaço black box onde a obra é exposta vive exclusivamente desse negro envolvente e do som da respiração dos integrantes da peça, radicalizando uma intensidade imersiva e provocando um confronto direto com o público. Tenho um grande fascínio pelo silêncio e pelo negro, talvez por ser algo que o Homem ainda não conseguiu dominar, duas extensões do medo do desconhecido. Desviamos e somos desviados do elemento mais importante da nossa vida, o eu. Empty Touches o isolamento do homem num espaço sem tecto nem chão, onde a repetição do movimento o leva a repensar não sobre o ato mas sobre si mesmo.


CB: E em relação ao congelamento da performance em imagem, a sua alteração para algo fixo funciona somente como registo ou poderá substituir a ação ao vivo? Destaco a obra Cordeiro de Deus (2014) que concretizaste num matadouro abandonado em Lamego e que, agora, é passível de ser vista através do seu registo fotográfico.

JPF: Sou da opinião que uma performance é irrepetível, uma ação do momento. Feita mais que uma vez já é outra coisa. A minha experiência nesse campo foi sempre muito intensa, aliás, considero quase todo o meu trabalho uma espécie de performance e raramente repito ou ensaio para chegar ao resultado final. Uso o meu corpo como um instrumento e atiro-o à ideia. Tenho imensos registos de trabalhos que correram mal ou que, simplesmente, não corresponderam com o meu imaginário. As fotografias do Cordeiro de Deus são apenas registos de um momento específico que datam a performance. Lembro-me perfeitamente de toda a sensação física e mental que a situação me despontou, foi tudo uma surpresa. Há sons que só ecoaram na minha cabeça quando caí contra a parede e que a minha pele só sentiu com toda a tinta a agarrar progressivamente o meu corpo, as zonas frias e quentes do chão e a dificuldade em respirar. O espectador nunca irá sentir isso, o facto de ele poder ver ao vivo torna-o apenas um voyer, testemunho da ação. É curioso como, nos dias de hoje, no auge do conhecimento absoluto das coisas e no exagero dos prazeres, ainda há margem para sermos surpreendidos. Se voltasse a repetir, já não seria uma experiência tão impactante, mas sim uma teatralidade.


CB: No que diz respeito à exposição virtual, consideras que a experiência estética de uma obra e a sua plena compreensão ficam comprometidas mediante a visualização a partir de um ecrã de computador exterior ao contexto expositivo? Mesmo tratando-se de obras imagéticas e imateriais, como é o caso de CASCADE (2015), vídeo que apresentas-te em exposições colectivas no MNAC em Lisboa ou na Fifties Art Gallery no México e que, hoje, podemos ver na tua página online.

JPF: Completamente. A nossa experiência sobre um objecto é comprometida consoante o contexto do dispositivo, contudo, não sou contra a tela do computador como expositor. A decisão de tornar a CASCADE visível na íntegra no meu site foi recente. Quando acabei a peça, a primeira pessoa a vê-la foi o músico William Basinski que estava em Nova Iorque. O William tem um álbum intitulado de Cascade (2015) que mudou muito o meu caminho e o meu olhar sobre algumas coisas do mundo. Quando lho enviei, pelas redes sociais, justifiquei que a ausência de som na peça se devia ao facto de esse lhe pertencer, o vídeo é um casamento com a sua peça musical. Ele respondeu-me a dizer que amou e, que a apresentação pouco importa quando uma peça não se reproduz, mas sim, toca, não no sentido musical, mas no espírito.
Há coisas que, na nossa vida, vão ser impossíveis de mostrar com o exato propósito com que as realizamos e compreendo que haja coisas que maravilhosas de se ver sob uma perspectiva específica, mas não será igualmente fascinante que uma pessoa do outro lado do mundo possa ter acesso a algo que, de outro modo, seria impossível de obter? Só reforça que o mundo tem menos muros e fronteiras do que as que estão marcadas. Não abandono uma ideia em que acredite, assim como não posso privar um trabalho meu de ser visto. Todos merecemos o acesso ao conhecimento e, neste caso, pretendo que todos aqueles que vejam a CASCADE o façam com os mesmos olhos e admiração do William, onde o mundo sem barreiras não é uma utopia.


CB: Para terminar, refiro as várias dimensões visual, formal e construtiva que apresentas, nas quais revelas uma clara libertação expressiva e corpórea mas, simultaneamente, uma profunda reflexão sobre o que produzes. O teu mais recente trabalho em desenvolvimento, Haunted corners of a room full of space é representativo disso mesmo.
Pergunto-te se há fluxos, comunicações e relações entre as tuas obras, um objetivo, um lugar específico para o qual caminhas ou trabalhas diferentes conceitos consoante a prática artística que exerces?

JPF: Procuro sempre trabalhar diferentes conceitos e ideias e perceber o lugar onde as coisas podem ser materializadas. Contudo, espero que, um dia, com a mesma facilidade que temos em sonhar e dar importância ao imaterial, ao imaginário e às utopias, possamos não ter a necessidade de representar apenas fisicamente o nosso mundo interior. É uma tarefa extremamente árdua a de materializar o imaginário. A perspectiva individual de cada ser humano é tão única e particular que é muito difícil expressá-la. O limite da linguagem denota o limite do mundo, expressa o tom da realidade e a situação do possível, são poucas as “línguas” que representam a experiência do sensível. Não vejo a minha arte como uma experimentação contínua, simplesmente a cada peça o risco em tentar fazer algo diferente é constante. Gosto de experimentar novas expressões que possam materializar a ideia da melhor forma. Uso o meu corpo como um instrumento pois é o muro entre o eu e o mundo, sujeitá-lo às minhas ideias é como se me libertasse dele. Contudo, cada vez mais, procuro o mundo da tecnologia, dos códigos e da ciência. Com isto não quero dizer que trabalhe na computação ou nas linguagens digitais, mas pretendo inundar o meu universo com estas relações pois é algo infinito, tanto a nível visual como filosófico. O mundo digital trouxe uma noção de tempo e espaço totalmente diferente do que havíamos saboreado. A nossa relação com a vida e a morte alterou drasticamente, levando a refletir sobre o presente sentido de real. Atualmente, vejo o corpo e o uso da matéria como as maiores limitações do ser humano pois é através destes que nos expressamos. Acredito que, com o passar do tempo, com a ajuda das máquinas e, sobretudo, das mentes digitais, uma nova linguagem vai ocupar e dar uma outra forma ao nosso universo.