Links

SNAPSHOT. NO ATELIER DE...





















Outros registos:

Virgílio Ferreira



Antonio Fiorentino



Alexandre Conefrey



Filipe Cortez



João Fonte Santa



André Sier



Rui Algarvio



Rui Calçada Bastos



Paulo Quintas



Miguel Ângelo Rocha



Miguel Palma



Miguel Bonneville



Ana Tecedeiro



João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira



João Serra



André Gomes



Pauliana Valente Pimentel



Christine Henry



Joanna Latka



Fabrizio Matos



Andrea Brandão e Daniel Barroca



Jarosław Fliciński



Pedro Gomes



Pedro Calapez



João Jacinto



Atelier Concorde



Noronha da Costa



Pedro Valdez Cardoso



João Queiroz



Pedro Pousada



Gonçalo Pena



São Trindade



Inez Teixeira



Binelde Hyrcan



António Júlio Duarte



Délio Jasse



Nástio Mosquito



José Pedro Cortes



share |

FERNANDO MARQUES PENTEADO

LIZ VAHIA


 

 

Nasceu em São Paulo, Brasil, mas é no Porto que reside há já alguns anos. Com formação inicial em ciências sociais, foi-se encaminhando gradualmente para as artes, onde deu privilégio a um território pouco explorado por mãos artistas masculinas, os têxteis. O bordado e os objectos que recolhe são uma das imagens características do seu trabalho, numa mistura entre espaço pessoal e espaço público plasmada na sua casa/atelier. E interroga-nos: “Mas não é a casa de todos nós um pouco assim, eu me pergunto? Seja um vaso de flores, uma virgem iluminada, um calendário, um ‘naprom’ de crochet, as colagens do quarto dos adolescentes…não são essas artes combinadas aos utilitários os guias de nossas relações visuais e emocionais com o mundo?…”


Por Liz Vahia

 

 

>>>

 

 

LV: Estudaste Ciências Sociais em São Paulo e depois fizeste um mestrado em Artes Visuais/Têxteis no Goldsmith College, Londres. Como é que foi esse percurso das ciências para as artes? Como é que se desenvolveu o interesse particular pelo têxtil?

FMP: Antes de mais nada grato por visitar o meu atelier.

Foi uma curiosa passagem, um percurso totalmente ligado ao acaso, foi integralmente circunstancial. Por sempre ter vivido, ao sair da casa dos pais, entre artistas, eu procurava uma maneira de me situar financeiramente sem ter de trabalhar em hotéis ou dar aulas de língua como eu costumeiramente fazia. Por entre esses artistas, eu entrei em contato com técnicas têxteis de pintura sobre tecidos que me levaram a poder ganhar e investir na minha vida em um atelier, o que de consequência me estimulou a conhecer outros artistas e fazeres têxteis. Eram os anos 80 e tive a oportunidade de crescer e me estabilizar dentro desse circuito, muito próximo a um conjunto de artista que levavam a bandeira de ‘wearable art’: gente aventurosa e juntos nós pudemos fazer muitos projetos. Inclusive em 1990 a Fundação Gulbenkian em sua sede de Lisboa montou uma larga e linda exposição ‘Traje um objeto de arte?’ comissariada pelo Sommer Ribeiro que, ele mesmo, se inspirou na exposição de mesmo título que fizemos em 1987 no MASP de São Paulo, com os trajes antigos e contemporâneos pelo meio dos expositores de vidro da Lina Bo Bardi, exposição da qual eu fui um dos três curadores. Esse cenário me fez entusiasmar pelo têxtil, ele que é, em um plano mais amplo, a plataforma aonde o meu trabalho de hoje mais se expressa. Em paralelo eu consegui expor meus primeiros desenhos, já que eu vivia em São Paulo e conheci, inevitavelmente, a cena artística de então.

As ciências ficaram ‘para a memória’ por assim dizer, e só voltei a estudar vinte anos depois, quando apareceu a oportunidade de cursar Goldsmith College, uma escola que consolidou o equipamento de experiências que eu trazia e o colocou para dentro do cenário das artes visuais, e que também me ensinou a questionar seus regimes e a desmontar suas questões. E assim nele me encontro hoje, a perscrutar.


LV: Essa mistura de interesses reflecte-se no teu trabalho, que combina uma série de elementos de carácter popular, antropológico, com o contemporâneo e o artístico. Dirias que o teu processo de criação passa também por um período de pesquisa, de “trabalho de campo”?

FMP: Sem dúvida alguma.

Meu método de trabalho e baseado na prática sistemática e por décadas de garimpar objetos vendidos em feiras de rua, objetos de vidas desaparecidas ou situações limites, objetos sem a moldura do ‘vintage’ que eu importo para meu atelier para que ingressem noutra narrativa. Por aí encontro têxteis, livros, alfaias, raquetes, flores artificiais e mais e mais. Eles são os pilares do meu processo.

Objetos também me chegam às mãos via surpreendentes doações de pessoas que acreditam eu ser capaz de os tratar e transformar seus destinos.

Eu tenho particular predileção por objetos entre o popular como souvenirs ou bibelôs, a expressividade de suas formas quasi-cafonas, o excesso das palhetas e, eu continuo sempre fascinado com a beleza de técnicas populares e artesanais incrustadas em, por exemplo, cestarias, em empalhamentos, em utensílios-equipamentos dos artesãos de um tempo, e por aí vai.


LV: Por ocasião da Guimarães Capital da Cultura desenvolveste e peça “O Anel de Catarina”, instalada ainda hoje no Centro Internacional das Artes José de Guimarães. Como é que surgiu a ideia e como se desenrolou o processo de criação da obra?

FMP: O tema que orientou a produção do conjunto de peças que me foram comissionadas pelo CIAJG na altura foi o do que chamei de ‘tráfego de relíquias’, muito porque eu sempre me impressionei muito por bordados antigos que retratam os desenhos das chamadas ‘armas de Cristo’, um elenco de objetos como a escada, a lança, a esponja ou os dados, e que aparecem nas descrições do calvário de Cristo a caminho da sua cruz.

Relíquias em voga foram também os corpos desmembrados das santas e santos por seu poder de cura e, ao pesquisar a vida de santas tombei com a fascinante história _ estória do anel de Catarina de Siena . Diz-se que Catarina, ao se nomear ‘esposa de Cristo’ dado o seu voto de castidade, amplificou seu poder pessoal ao afirmar que o anel ao se consagrar levava em seu dedo era feito do prepúcio de Cristo ele mesmo, o próprio. Incrível. É uma afirmação tão exuberante a que se deve perguntar…. --- mas Maria, a mãe do menino, guardou mesmo essa pele talhada do infante em um saquinho de linho…? O importante desse relato é ver a força [da imaginação] de uma relíquia a se incumbir da fé e da devoção, valores que eu aprecio muito nas culturas, o interesse dos sujeitos pelo transcendental.

E da inspiração para a execução, esse acontecimento [o meu anel] nasceu de

1. eu notar com atenção no mercado central de Guimarães em diferentes talhos as tripas suspensas que são vendidas para enchidos, e decidir-me por usá-las em larga escala já que o anel tem 3 metros de diâmetro, fazendo uma alusão gigante àquele ínfimo prepúcio, e
2. a bem-aventurança de encontrar um serralheiro como o Sr. Miranda e a sua execução primorosa, uma enorme peça redonda em ferro, a qual eu cobri com esse meu bordado têxtil à base de tripas.


LV: Participaste na 30ª Bienal de São Paulo, em 2012, com uma instalação que reproduzia um pouco a tua casa. O teu espaço de trabalho confunde-se com o teu espaço doméstico? Objectos de várias proveniências convivem com arte e outras coisas utilitárias? Ainda é assim?

FMP: O fato de objetos de minha casa virem a fazer parte da instalação da 30ª. Bienal foi uma decisão de curadoria. Meu estúdio em São Paulo era em minha própria casa e quando o Luis Peres Oramas e seus dois curadores adjuntos Tobi Maier e Andre Severo foram visita-lo, eles se fascinaram com a ordenação espacial dos objetos colecionados que eu expunha pelas paredes. Eles perguntaram se eu não poderia fazer migrar esses objetos para dentro da instalação. Achei uma ideia bacana e através dela eu montei e eu lhes sugeri um certo desenho expositivo, e com o auxílio do Martim Curulon, o arquiteto responsável pela expografia daquela edição, as minhas obras elas mesmas mais os objetos de minha casa encontram uma nova e feliz comunhão naquela sala da Bienal desenhada a propósito para contê-los.

Posso dizer que, por eu ter o método de trabalho que descrevi acima, eu acabo por ‘ser’ o meu próprio método, donde objetos curiosos estão sempre a me rodear. É o caso de minha casa hoje do Porto que tem um espaço mais amplo de que o meu atelier, um atelier compacto e preservado para que o ‘patrimônio têxtil’ fique incólume frente a materiais mais agressivos, cortantes que os objetos por vezes comportam. Ainda hoje é assim, como sugere a tua pergunta.

Mas não é a casa de todos nós um pouco assim, eu me pergunto[?]. Seja um vaso de flores, uma virgem iluminada, um calendário, um ‘naprom’ de crochet, as colagens do quarto dos adolescentes…não são essas artes combinadas aos utilitários os guias de nossas relações visuais e emocionais com o mundo [?]… eu penso que sim, e que os objetos de arte da cada quem, com suas singularidades e propósitos, podem sempre ser os mais variados.


LV: Trabalhas com o bordado, tradicionalmente associado ao feminino, mas dás destaque muitas vezes às figuras masculinas. Além disso, assinas f.marquespenteado, o que deixa na dúvida a tua identidade como homem ou mulher. Editaste também o livro “Masculinidades – Teoria, Crítica e Arte”. As questões de género fazem há muito parte dos teus interesses?

FMP: De certo as questões de gênero há muito fazem parte de meus interesses.

Mais uma vez foi a possibilidade de eu poder voltar a estudar em Goldsmiths College e em Central Saint Martins que criou a possibilidade de eu atravessar os portais de ingresso nesse universo e ali equipar-me. Nessas escolas e como aluno maduro eu pude edificar diferentes materiais sobre masculinidades, assunto que já era meu interesse anterior. Desde então, seja neste processo de recolher material e apresenta-lo na antologia que citas na tua pergunta, seja pelo fato de eu operar trabalhos de conteúdo homoerótico no meu atelier e apresenta-los frequentemente no espaço expositivo, eu posso dizer que minhas presentes entradas sobre essas questões ficaram mais precisas, buriladas.

Uma das entradas que mais cuido em entrelaçar no meu trabalho, escrito ou artístico, é a fraca homo_sociabilidade entre homens. Mulheres estão bem mais disponíveis a entre si se tratarem amorosamente, elogiarem-se umas as outras, cuidarem umas das outras, enquanto que na vida e na proximidade de homens com outros homens há sempre ruídos, grunhidos e a incapacidade de homens serem mais ternos uns com os outros.

Outra entrada que venho trabalhando e a sevícia cultural que a comunidade masculina carrega ao liderar culturalmente com o uso de armas, e por esse mesmo vetor cultural ser continuamente convocado a fazer uso delas. O espectro de violência interior, o sofrimento da alma masculina que esse ‘estado de cultura’ incrusta na pele do homem é pesada, um compromisso cultural que eu tomo como equívoco. Hoje eu quero mais e mais dividir a violência material da cultura com mulheres, torna-las mais observadoras dos desconfortos culturais que homens também carregam, incumbindo-os de responsabilidades [como o uso das armas] que por vezes podem, com facilidade, torna-los mais secretos, ensimesmados e eventualmente violentos.

E, finalmente, no que tange a sexualidade, eu também acredito importante que mais homens se apresentem como bissexuais, o que implica expressá-lo publica e afetivamente como algo produtivo e contemporâneo, deixando assim escapar pela válvula da franqueza uma situação que, se mascarada ou escondida, precipita homens em relação com outros homens a tornarem-se clandestinos sociais, o que é inaceitável e anacrônico.

Quanto à associação do bordado ao feminino é culturalmente incorreto já que homens bordam hoje e bordaram desde tempos imemoriais. O meu caso em relação ao bordado se explica antes de mais nada pelo fato de que eu ter encontrado no bordado a técnica que mais dá vigor ao meu desenho pueril, à la Flinstones como eu normalmente o descrevo. Enquanto artista eu tenho muita alegria pelo fato da técnica do bordado me contagiar, já que ela faz ver, meio um mundo de tantas e tão incensadas [novas] tecnologias, a tão antiga, poderosa e incontornável tecnologia de uma agulha.

Obrigado, mais uma vez, pelo interesse em meu trabalho.