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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Samson Kambalu | Imagem: Vera Marmelo


Documento dos arquivos Sanguinetti | Imagem: Vera Marmelo


Documento dos arquivos Sanguinetti (com Miroslav Tichý)


Documento dos arquivos Sanguinetti


Documento dos arquivos Sanguinetti


Still do filme


Still do filme


Samson Kambalu, projeto do 4º pedestal da Trafalgar Square, modelo na exposição da Culturgest | Imagem: Vera Marmelo


Vista da exposição, Lisboa | Imagem: Vera Marmelo


Gianfranco Sanguinetti, Theses, livro compilado por Samson Kambalu a partir dos arquivos e vendido por £8500 | Imagem: Vera Marmelo


Gianfranco Sanguinetti, Theses, livro compilado por Samson Kambalu a partir dos arquivos e vendido por £8500 | Imagem: Vera Marmelo


Carta de Bill Brown para a exposição de Veneza, parcialmente obscura | Imagem: Vera Marmelo


Documento dos arquivos Sanguinetti (com Guy Debord)

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ARQUIVO:


SAMSON KAMBALU

SAMSON KAMBALU: FRACTURE EMPIRE




CULTURGEST
Edifício Sede da Caixa Geral de Depósitos, Rua Arco do Cego
1000-300 Lisboa

02 OUT - 06 FEV 2022

Arquivos vendidos, arquivos roubados e a sociedade do entretenimento

 

 

Gianfranco Sanguinetti era um companheiro de Guy Debord e um dos líderes dos situacionistas em Itália. Ensaista, publicou sob o pseudónimo Censor um livro intitulado Relatório verídico sobre as últimas chances de salvar o capitalismo em Itália, no qual, alegando ser um alto funcionário da cultivada burguesia conservadora, recomendava a aliança entre o patronato e o Partido Comunista, o único capaz de conter as revoltas operárias. Tratava-se de um panfleto sob "bandeira falsa", que enganou todos os comentadores. É também conhecido por ter revelado o envolvimento dos serviços secretos italianos no atentado da Piazza Fontana em 1969 no seu texto O Reichstag está a arder?. Num outro registo, conheceu bem Miroslav Tichý e escreveu um dos mais belos textos sobre ele, Miroslav Tichý: Forms of Truth (2011). Tendo acumulado arquivos importantes sobre essas diferentes facetas da sua vida e dos seus compromissos políticos (além da Internacional Situacionista dissolvida em 1972), guardou-os na sua cave em Praga, cidade onde viveu durante trinta anos, estando inacessíveis aos historiadores.

Em 2013, a casa de leilões Christie's vendeu por $650.000 os seus arquivos à Biblioteca Beinecke da Universidade de Yale, a mesma que havia anteriormente tentado comprar sem sucesso os arquivos de Guy Debord à sua segunda esposa Alice Becker-Ho (mas a BnF - Biblioteca Nacional de França organizou um jantar de doadores, por €10.000 o couvert, como contribuição para o financiamento da quantia solicitada por Alice Becker-Ho, e os arquivos Debord permaneceram em França). Beinecke adquiriu outros arquivos de situacionistas, incluindo os de Jacqueline de Jong (o que possibilitou a publicação deste livro) e disponibilizou-os gratuitamente aos investigadores. Um tradutor e editor americano do universo pós-situacionista, Bill Brown, sentindo-se enganado por esta venda, indurgiu-se contra Sanguinetti numa carta insultuosa que tornou pública na Internet (também eu sofri da sua agressividade quando ele traduziu o meu texto sobre a exposição Debord na BnF).

O artista do Malawi Samson Kambalu (n.1975), então relativamente desconhecido, a trabalhar numa tese sobre William Blake na Biblioteca Beinecke, foi conduzido (ou impelido) a interessar-se pelas 62 caixas dos Arquivos Sanguinetti em Yale (sob o pretexto bastante obscuro da psico-geografia em Blake) e começou a fotografar clandestinamente cerca de 3000 desses documentos, durante quatro meses, em contradição com as regras da biblioteca. As suas motivações, expressas de maneira bastante confusa no seu discurso, eram protestar contra esta venda, de se afirmar ele mesmo como situacionista (ou pós-situacionista) e, numa lógica de potlatch, de "devolver os arquivos a Itália", o que ele fez expondo-os na Bienal de Veneza em 2015 num stand com o título Sanguinetti Breakout Area (os arquivos preocupavam certamente muito a Itália, mas saíram de Itália décadas antes, quando Sanguinetti se instalou em Praga); encorajou os visitantes a fotografar os documentos apresentados e a partilhá-los online. Além da ex-galeria de Kambalu, esta exposição contou com o apoio do British Council e da Fundação Ford, cujo interesse pelos situacionistas até então era desconhecido. Notamos de passagem a semelhança (certamente involuntária) da expressão hiper-nacionalista "restituir à Itália" com a de Vincenzo Peruggia, o ladrão da Mona Lisa. Não deixamos de nos questionar como, embora a quase totalidade do arquivo esteja em francês e italiano, Kambalu, não falando nenhuma dessas duas línguas, pôde fazer a sua pesquisa nesses documentos. Também observamos que a entrada na biblioteca de Yale é gratuita (mas reservada aos estudantes e investigadores, como em todas as bibliotecas universitárias), enquanto a entrada na Bienal de Veneza custa, eu creio, 25 € por uma única entrada: a passagem do mundo da seleção com base nas competências científicas a este da seleção pelo dinheiro não foi exatamente um "retorno ao domínio público", pelo contrário. E por último, é de referir que Kambalu foi pago pela sua participação na Bienal, e que além disso colocou à venda três exemplares de um grosso "livro de artista", Theses, que era uma simples reprodução de uma parte dos arquivos Sanguinetti, ao preço de £ 8.500 o exemplar.

Após esta exposição em Veneza, Sanguinetti encetou um processo contra a Bienal de Veneza, que solicitava que Kambalu fosse questionado, e perdeu. A sentença do juiz veneziano Luca Boccuni, datada de 7 de novembro de 2015, mais parece ser uma opinião estético-moral do que uma decisão jurídica; lá podemos ler "a obra de Kambalu colocou em evidência a contradição entre a luta teorizada contra a mercantilização da obra do intelecto de Sanguinetti e a colocação em venda das obras por parte de Sanguinetti" e "a instalação de Kambalu é dedicada à 'fuga' de Sanguinetti do seu ideal situacionista."

A exposição Sanguinetti Breakout Area, que consiste quase exclusivamente em fotografias dos documentos dos arquivos que Kambalu tem na sua mão (o que ele define como a sua “intervenção artística”) e de um livro que os reagrupa, foi posteriormente apresentada em diversos locais; também inclui a carta de Bill Brown, sem a autorização do autor, que protestou, meio dissimulada (porque, diz Kambalu, ele temia infringir os direitos autorais de Bill Brown!). Assim, aos 40 anos, deu-se o início do reconhecimento de um certo universo da arte contemporânea de Kambalu como artista, embora ele pouco tivesse exposto anteriormente. Por ocasião de uma exposição em Ostend em Mu Zee, Kambalu rodou um filme de ficção de mais de duas horas representando um julgamento simulado (do qual muitos não estiveram conscientes, encontrando mesmo este jornalista Kambalu "nervoso" esperando pelo julgamento) com atores a representarem o juiz, o seu escrivão, um especialista em “situacionismo” e os advogados, que retomam mais ou menos os temas do processo veneziano, mas num estilo menos “stalinista” e mais legalista. Deve-se observar para registro que tanto o "especialista" Sven Lütticken (cujo site pessoal, salvo erro, não menciona nenhum texto cujo título inclua as palavras Debord, sociedade do espetáculo ou situacionistas; se pesquisarmos um pouco, encontramos um artigo na Grey Room; sem dúvida poderíamos ter encontrado "especialistas" mais especialistas...) como Kambalu usam a palavra "situacionismo" profusamente, palavra que os situacionistas sempre rejeitaram, recusando-se a fazer uma ideologia em "ismo".

Culturgest, em Lisboa, está a dedicar uma exposição a Kambalu até 6 de fevereiro. Duas das salas são destinadas ao Sanguinetti Breakout Area, incluindo este filme, as outras seis salas mostram diversos trabalhos do artista, tecidos, postais, pequenos filmes absurdos (que ele define como estética nyau), e o seu projecto para o 4º pedestal de Trafalgar Square (com laureamos de qualidade muito desigual), um homem negro que se recusou em 1914 a tirar o chapéu diante dos Brancos: pouco a dizer sobre isso. A legitimidade fundadora de Kambalu parece reduzir-se neste momento à sua Sanguinetti Breakout Area, que data de 2015, o resto dificilmente tem densidade. É a ocasião para recordar, uma vez que esta exposição está em Lisboa, que, em português, situacionista significa "aquele que apoia a situação política dominante", uma definição que não se aplica a Debord ou Sanguinetti, mas que se adapta bem a Kambalu.

Os argumentos jurídicos apresentados por Kambalu no filme e nos seus escritos são de três ordens. Em primeiro lugar, Sanguinetti não seria o autor do arquivo, uma vez que este inclui cartas assinadas por terceiros e documentos dos quais ele não é o autor. Tanto juridicamente como moralmente, esse argumento é rapidamente desmontado, o criador de um arquivo é reconhecido como fazendo obra de autor.

Em segundo lugar, os Situacionistas teriam-se oposto à própria noção de direito de autor, de copyright, e a revista Internacional Situacionista incluía a menção "Todos os textos publicados na I.S. podem ser livremente reproduzidos, traduzidos ou adaptados, mesmo sem indicação de origem”. Esta posição de princípio dos situacionistas é apresentada como moralmente em contradição com a vontade de Sanguinetti de fazer respeitar os seus direitos, mas havia desde o início uma ambiguidade evidente: o anti-copyright tinha um valor puramente discricionário e não jurídico, assim como mostrou a acção contra o editor italiano De Donato, que publicou uma tradução falsa de Debord. Além disso, havia sido especificado para a revista e não para os livros: nenhum livro de Debord traz essa menção. E Debord foi publicado primeiro pela Champ Libre, depois, após o assassinato de Lebovici, pela Gallimard, Arthème Fayard e Flammarion que, todas, não hesitaram em fazer respeitar os seus direitos se aplicável. Essa posição de princípio a respeito dos artigos da revista Internacional Situacionista (1958-1969) autorizava Kambalu a reproduzir esses documentos sob licença aberta? Embora o curioso julgamento de Veneza fizesse grande caso desse argumento, o falso juiz de Ostende no filme não o reteve: juridicamente, diz ele, Sanguinetti tem o direito de mudar e de ter uma opinião diferente sobre o assunto em 2015 daquela de 1969. Alguns, sem dúvida, poderão criticar moralmente Sanguinetti neste ponto, como o faz Kambalu, e ficar surpresos que ele tenha apresentado uma reclamação, mas, tanto histórica como juridicamente, esse argumento não se sustenta.

Terceiro, houve intervenção artística de Kambalu pelo facto de que os seus dedos são visíveis na maioria das fotografias dos documentos? O juiz do filme (aqui ainda mais cauteloso que o de Veneza) evitou cuidadosamente definir se era arte ou não, considerando que só poderia ter uma opinião subjetiva (e portanto a cada um de nós poder julgar se a inclusão de dois dedos, que sejam pretos ou brancos, numa fotografia constitui um ato artístico). Mas considerou que se tratava de uma paródia, não impedindo o acesso ao original e baseado em apropriação humorística e, portanto, permitido por lei. Por este motivo rejeitou a solicitação de Sanguinetti (cujo advogado, em todo o caso neste filme, não era de primeira qualidade).

Afinal, qual é o menos situacionista dos dois? Aquele que vende o seu arquivo e defende o seu direito de autor, ou aquele que constrói a sua notoriedade apropriando-se da obra de outro sob o pretexto de crítica e derivação?

Diante das incongruências desta história, deve-se procurar fazer perguntas mais amplas: dada a inconsistência do seu discurso, Kambalu foi instrumentalizado, e por quem? Foi uma operação que o ultrapassou e da qual ele era apenas um simples instrumento, bem recompensado? Existe alguma ligação com a obra de Jean-Marie Apostolidès denegrindo Debord, Debord le Naufrageur, publicada pela Flammarion no mesmo ano da Bienal, e altamente controversa (e também baseada em grande parte sobre os arquivos Sanguinetti, que a denunciaram como uma impostura)? Todo este caso parece ser uma ilustração magnífica da Sociedade do Espectáculo, que continua a ser um livro essencial para a compreensão do nosso mundo.

Nota deontologica: o autor contribuiu com um texto para a exposição de uma parte das obras de Tichý da coleção Sanguinetti em 2017 em Marselha.

 

Num espírito kambalusituacionista, as fotos provenientes do site Kambalu não são creditadas e o leitor é encorajado a reproduzi-las e difundi-las. 

 

 

Marc Lenot
É desde 2005 autor do blog Lunettes Rouges, publicado pelo jornal Le Monde. Em 2009 obteve o grau de Mestre com uma dissertação sobre o fotógrafo checo Miroslav Tichý, e em 2016 doutorou-se pela Universidade de Paris com uma tese sobre fotografia experimental contemporânea. Membro da AICA, venceu em 2014 o Prémio de Crítica de Arte AICA França, pela sua apresentação do trabalho da artista franco-equatoriana Estefanía Peñafiel Loaiza.



MARC LENOT