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RAYMOND DEPARDON - PAUL VIRILIOTerre Natale – Ailleurs commence iciFONDATION CARTIER POUR L’ART CONTEMPORAIN 261, Boulevard Raspail 75014 Paris 21 NOV - 15 MAR 2009 “Terra Natal”, é o título (em versão portuguesa) da última grande produção da Fundação Cartier. É uma exposição sobre o estado da terra, sobre a condição humana, a ecologia e o urbanismo. O título parece vir de longe por estar associado a velhas expressões regionais, à tradição cristã e à literatura do final do século XIX, em que uma das temáticas predominantes era a dos contrastes entre a vida no campo e nas cidades. Concebida por duas grandes figuras do panorama cultural francês: o documentarista, cineasta e fotógrafo Raymond Depardon (n. 1942) e o urbanista e ensaísta Paul Virilio (n. 1932), que já organizara em 2002 /2003 a exposição “Ce qui arrive...” nesta mesma instituição. A exposição ocupa os espaços concebidos por Jean Nouvel e para além de fazer um apelo humanista à salvaguarda dos últimos povos autóctones do planeta e reflecte simultaneamente sobre a velocidade das nossas vidas. Por um lado, hoje é raro encontrar alguém que nunca tenha viajado e que na sua vida não tenha deixado para trás a sua terra natal. Por outro lado, a velocidade das telecomunicações e a facilidade com que podemos dar a volta ao mundo faz com que a nossa identidade deixe de estar associada a um lugar de origem. Actualmente somos todos nómadas globais. Esta é a análise de Paul Virilio, que há mais de 30 anos estuda as alterações da cidade e as mutações na vida do homem do século XX. Ele lembra: “ Antigamente quando uma criança nascia num comboio, ele parava nesse instante para que ela tivesse um lugar de nascimento, hoje essa prática deixou de existir pois a questão não é mais a da identidade regional mas a da sua trajectória, onde cada vida é um puro trajecto e podemos reconstituí-la ao retraçar cada movimento através das ondas que emite o telemóvel ou pelos múltiplos sistemas de codificação: cartões bancários, sistemas de identificação no vestuário, etc.” “A cidade mundo, onde os indivíduos estão em todo o lado graças ao telemóvel, é um fenómeno urbano que deixou de ser urbano para pertencer à época que chamo omnipolitana, outrora dizia-se eleger domicílio, hoje o lugar de nascimento é o lugar de partida para o mundo (eject place) e tornamo-nos um tapete de trajectórias até ao dia em que partida e chegada sejam contemporâneas ...” Paul Virilio. Estas são as premissas desta ambiciosa exposição que se apresenta dividida por autor nos dois andares da Fundação: em duas salas do piso térreo apresentam-se dois filmes de Raymond Depardon realizados especificamente para esta mostra. “Donner la parole” (Dar a palavra) de 33 minutos, consiste em duas projecções gigantes onde surgem os que falam em dialecto, em língua nativa, ou com sons que por vezes parecem falar do princípio do mundo, como a centenária do Chile que fala a língua dos Kawésqar. As suas vozes difundem-se até à outra sala de projecção, onde está a passar o filme “Le tour du monde en 14 jours”, de 22 minutos, com o mesmo dispositivo de duas projecções gigantes, mas sem som, onde vemos como corremos no nosso dia-a-dia por algumas grandes cidades industrializadas como Washington, Los Angeles, Honolulu, Tokyo, Singapura, entre outras. No piso subterrâneo da Fundação, na grande sala despida, encontram-se os dispositivos de Paul Virilio: dezenas de ecrãs transmitem-nos imagens de arquivo das grandes catástrofes naturais e humanas, que dia-a-dia, nos entram em casa pela televisão, comentadas pelo próprio filosofo num ecrã de tamanho humano. Na outra sala encontramos num dispositivo de longo ecrã em semi-círculo todas as estatísticas mundiais das migrações urbanas, dos fluxos de homens e de dinheiro, dos refugiados políticos e emigrações forçadas, da subida das marés e das cidades que desaparecem. Actualmente os ecos desta consciência sobre a evolução humana encontra-se em diversas produções artísticas. A questão do desenraizamento humano está igualmente patente numa grande exposição colectiva na capital britânica, a Trienal da Tate, que fala de uma nova modernidade, a “Altermodern” teorizada pelo crítico Nicolas Bourriaud, e que é a apologia deste mesmo desenraizamento que segundo este autor está na base da arte produzida pelos nossos contemporâneos. Em “Terre Natale” o desenraizamento é visto como uma perda de identidade e faz apelo à sabedoria dos últimos primitivos que são nossos contemporâneos: um dos chefes índios Yanomami do Brasil diz: não é para meu próprio bem que falo ao querer defender a nossa floresta porque eu já morri; ele reconhece pertencer a uma geração desde há muito tempo desaparecida... A exposição adquire um carácter ansiogénico característico de toda a obra de Paul Virilio à qual os filmes de Depardon fazem um eco emocional. As diversas problemáticas dos nómadas contemporâneos e da ameaça da catástrofe natural que nos espera a todos é o subtexto do filme “Encounters at the end of the world” (2007), de Werner Herzog, projectado especialmente na retrospectiva integral deste autor patente no Centre Pompidou até Março. O filme não se encontra distribuído em França nem em Portugal embora seja candidato aos Óscares deste ano. Neste filme documentário do cineasta conhecido por dar uma aura a personagens com um enorme “grain de folie”, Herzog parte para a Antártida, Pólo Sul, onde se fazem experiências científicas de ponta sob condições extremas para tentar descobrir a solução para salvar o homem da obesidade, compreender o nascimento dos neutrinos, verificar porque é que no reino animal os pinguins também podem ter actos suicidas. Ao encontrar estes refugiados da humanidade e filmar os encontros imediatos destes exploradores com a vida nas catedrais de gelo submarinas, este filme magnífico, sem qualquer apelo melodramático, antes pelo contrario imbuído do humor corrosivo do seu autor, que é seu narrador em voz-off, é a obra mais sintomática dos últimos anos deste caminhar do homem para o fim do progresso e retorno às origens da vida no planeta Terra. Nota: Werner Herzog nasceu em 1942 em Munique mas viveu toda a sua infância e adolescência numa remota aldeia das montanhas da Baviera, sem televisão nem meios de comunicação e nunca saiu da sua terra natal até aos 14 anos. Aos 17 anos fez a sua primeira chamada telefónica.
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