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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Alexandre Estrela, “Motion seekness”, 2010


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ARQUIVO:

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ALEXANDRE ESTRELA

Motion seekness




CULTURGEST (PORTO)
Edifício Caixa Geral de Depósitos Avenida dos Aliados, 104
4000-065 Porto

20 FEV - 10 ABR 2010

Dois momentos

Exactamente uma semana após a abertura da exposição no Porto de “Motion Seekness” de Alexandre Estrela, o crítico Celso Martins lamenta, num artigo intitulado de “Estratégias de apresentação” no suplemento Actual do Expresso (1), que a Culturgest esteja transformada numa espécie de adido cultural dos Países Baixos, “demasiado dependente do gosto pessoal do seu responsável [Miguel Wandschneider]”. No decorrer do artigo não deixa de referir que – “Não quer isto dizer que não tenham vindo belíssimas exposições a Lisboa pela mão de Miguel Wandschneider (as de Jochen Lempert e Gruyter/Thys são disso bons exemplos).” O cerne deste queixume de Celso Martins reside na previsibilidade das propostas apresentadas pela Culturgest.

Este trejeito em forma de balancete, sem aludir a grandes detalhes, sobre a actividade do curador Wandschneider na Culturgest só é possível, porque se inscreve no conhecimento de que a curadoria se tornou num terreno fértil em competição. Não se trata apenas de assistir a um gladiar de gostos. Isso seria ingénuo. Particularmente porque o fazer mais com menos é o capacho que se coloca a todo o curador, proporcionando cada vez menos margem para correr atrás de gostos. E sendo assim, a receita surge como farmacopeia comum, digamos que é genérico: na certeza de que tudo é passível de existir numa forma expositiva, nem que seja invocando a diluição eficaz que é o pluralismo. E que facilmente se encapuça no agenciar do múltiplo (no histórico, no social, no cultural, etc.); o curador encontra-se menorizado no seu papel de especialista de conteúdos, para ser apreciado como programador de um espaço. É nesta condição, que tem de encontrar alternativas dinâmicas e baratas. E sim, continua a ter que justificá-las. Porém sendo a predisposição mais festiva, o argumento da quantidade de visitantes é a pedra basilar sempre pronta a ser arremessada. Instalações, projecções, concertos de música, obras encomendadas para o local (grande parte destas efémeras) são as soluções mais comuns. Daí advém, talvez, grande parte da previsibilidade que Celso Martins evoca.

Pode-se reclamar um interesse na criação de novos valores, ou até a necessidade de dinamismo na área. Mas é corrente fazê-lo porque, simplesmente, se tem de fazer mais com menos. Neste a priori a peneira do curador vira-se para artistas cujos nomes não estejam inflacionados. Encontrados, vê-se ainda se há necessidade de sacudir algum grumo mais atravancado em trabalhos anteriores. E volta e meia, durante este processo, até se encontra um artista cujo trabalho foi injustamente colocado no refugo. Mas é raro como a sorte grande. Mais frequente é inventariar-se um novo valor na prometedora expectativa de vir a ser, pelo menos, um diferente no mesmo.

Mas a localização de um “novo valor artístico” é apenas uma quota-parte do trabalho do curador. É apenas o olho e o ouvido a trabalhar. E as inovações tecnológicas também trouxeram a sua velocidade para essa flânerie. O trabalho de ardil do curador está em formar aquilo que é entendido por mediação entre a proposta artística e os diversos públicos. Na construção, divulgação e consolidação do designado valor simbólico e para a qual a crítica também contribui. Mas como ver tudo isto, quando a mediação não é feita pela eficácia das obras; quando a disposição dos trabalhos pelo respectivo espaço expositivo nem sequer assegura uma leal confrontação; quando a única mediação surge sobre a forma de texto (de sala ou em catálogos) e nestes esperando-se uma minuciosa pesquisa do curador deparamo-nos, por sua vez, com o assumir de funções idênticas à de um narrador, que em vez de justificar a premência da proposta ou aposta, descreve com empatia envolvente o processo criativo de determinado autor. Sobre a empatia Walter Benjamim já o disse bem – que é a natureza da intoxicação. Não é de admirar que a toxidade destes textos seja tal, que são poucas as pessoas que pegam neles, e menos aqueles que se dão ao trabalho de os ler. Os espectadores ocasionais de arte contemporânea, ao lê-los, sentir-se-ão debilitadamente remetidos para o seu processo de iniciação na arte contemporânea. Os familiarizados, abeirar-se-ão à cisma de estarem a assistir a uma alavancagem de nomes, que tende e atende às lógicas de mercado.

Quem for ver a exposição de Alexandre Estrela e no enfiamento ler o texto de sala não poderá deixar de notar na dissonância entre a intencionalidade do autor e o seu trabalho. Depara-se com uma encriptação, cuja chave só está ao alcance do texto que o narrador-comissário activa. É o texto que tenta envolver o visitante naquele universo e reparar as deficiências da proposta expositiva. E na fabricação desse resultado o texto de Miguel Wandschneider é eficaz.

A exposição tem o título sugestivo de “Motion seekness” sendo este também o título de um dos trabalhos. Joga na junção do verbo to seek (procurar) e o substantivo sickness (enjoo). Essa associação é também evocada no texto de sala, num reforçar do esforço para que ambos sentidos não passem despercebidos. E é nesta divisão, entre a acção e a condição indicada, que se forma o mote: o tipo e o topos que deverão acompanhar o visionamento da exposição.

A estrutura do espaço da Culturgest do Porto está alterada – encontra-se dividida em duas áreas contíguas, onde vamos encontrar os dois momentos que compõem a proposta de Alexandre Estrela.

Na primeira sala encontramos o trabalho “Queda e contra-queda”, trata-se de uma serigrafia composta por dois círculos, um traço em cunha e uma seta. Todos da mesma cor vermelha. Esta representação estática é sujeita a projecções de luz estroboscópica que alterna com uma sonorização de duas frequências, uma grave outra aguda. Todo este dispositivo, de sobreposição de mediums, tem a intenção de dificultar as condições de captura da imagem estática. A criação de trabalhos que concebem estas fissuras perceptivas tem sido o filão do artesão. Basicamente é neste campo que Alexandre Estrela tem apostado e pelo qual é referenciado. Mas aqui, e quem conhecer trabalhos anteriores do autor como “Stargate” ou “Deserto Acéfalo”, facilmente percebe que “Queda e contra-queda” não provoca a mesma inquietação. Que se assimila pelo que é, uma sobreposição de ruídos.

Na segunda sala, numa área circular, surge então o trabalho “Motion Seekness”, este tem por base um registo que é inabitual ver-se no autor, o desenho. São uma série de impressões a jacto de tinta em grande formato. Que explora diferentes disposições de capacetes acoplados por máquinas de fotografia e vídeo, e onde cada um deles possui um rasto que sugere estar em queda. É necessário recorrer ao texto do curador para não levar deste trabalho a sugestão de estarmos diante de uma parafernália de registos ópticos numa espécie de update craniano. É o texto que nos informa que se trata de capacetes usados por pára-quedistas para registarem as suas formações em voo. É o texto que nos diz que este trabalho surge da memória que o autor tem de um programa televisivo francês, da década de 80, em que assistiu à queda descontrolada de um operador de câmara pára-quedista que esqueceu-se do pára-quedas e é esse movimento de queda registado, que Alexandre Estrela tenta reproduzir neste trabalho. Levando-nos novamente para a temática da desorientação ou das dificuldades de percepção (neste caso de registar a queda) quando existe a sobreposição de médiuns, a fotografia e o vídeo respectivamente.

A história desta exposição resume-se ao facto de que com a narração existe pontualmente questões de interesse empático. Mas se atendermos só ao impacto com os trabalhos é uma exposição que não irá aspirar a grandes voos. É bom ter um curador que saiba usar um ampara-quedas.




NOTAS
(1) Actual de 27 de Fevereiro Expresso


Rui Ribeiro