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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Dominguez Alvarez, “Paisagemâ€, 1929. Óleo sobre tela colada em cartão prensado. Col. CAMJAP / FCG


Dominguez Alvarez , “Auto-retratoâ€. Óleo sobre cartão, 34,8 x 29 cm. Col. CAMJPA/FCG


Dominguez Alvarez, Sem título, 1934. Óleo sobre tela, 40 x 49,7 cm. Col. Graça e Manuel Castilho


Dominguez Alvarez, Segóvia, 1932. Óleo sobre tela, 56,3 x 66 cm. Col. CAMJPA/FCG

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ARQUIVO:


DOMINGUEZ ALVAREZ

Dominguez Alvarez - 707, Rua da Vigorosa, Porto




CAM - CENTRO DE ARTE MODERNA
Rua Dr. Nicolau de Bettencourt
1050-078 Lisboa

19 MAI - 15 OUT 2006

Céu encarvoado

O lugar de Dominguez Alvarez na história da arte portuguesa esteve até hoje ligado a um consenso inerte, feito de lugares comuns com referência a algumas obras mais ousadas e quase sempre apressadamente catalogadas de expressionistas. Sem estudos aprofundados que pudessem ajudar a uma leitura mais aprofundada da sua obra, Alvarez tem sido visto como um artista sombrio, desconhecido, e sobretudo incaracteristicamente português. Isto é, o facto de Dominguez Alvarez ter nascido no Porto no início de Novecentos, mas só em meados dos anos 30 ter optado pela nacionalidade portuguesa, por causa da ameaça que significava a Guerra Civil Espanhola, deixou uma marca profunda na sua identificação como pintor português de inspiração galega.

Com efeito, a Galiza e toda a Espanha estiveram sempre presentes na sua pintura, tanto em termos temáticos, patente em “D. Quixote†ou nessas muitas paisagens de contido casario e linhas de horizonte quase oníricas, como em termos pictóricos, inspirada essencialmente na longa mas fecunda tradição naturalista (ou ainda em El Greco) e numa muito peculiar interpretação paisagista, marcada pela constância de um “céu encarvoadoâ€, como escreveu um crítico seu contemporâneo.
Todavia, Alvarez foi ao mesmo tempo um pintor das ruas e das paisagens campestres do Norte de Portugal, com desataque para a sua cidade do Porto, ou ainda para essas pequenas vilas e aldeias pontudas de tristes personagens. Isoladas umas das outras e muitas vezes curvadas sobre si mesmas, estas pequenas figuras, de inesquecível existência pictórica, apressam-se pelas ruas em direcções dissonantes, ora cumprindo um destino de tabernas, ora vagueando, perdidas, entre “árvores descarnadas†e as chuvas que marcam o cinzentismo das suas vidas. Esta é uma pintura de forte presença matérica e cromática, explorada quase sempre numa paleta de tons ocres e carmins mais ou menos soturnos. Trata-se de uma pintura de rasgo lunar, perscrutada entre o expressionismo, a Nova Objectividade e um naturalismo declinado em variantes de obsessiva persistência, como uma longa mas regular viagem pelos meandros de um mapa, de uma cartografia pessoalíssima, espécie de autobiografia pictográfica.

Depois do aturado trabalho de investigação conduzido por Ana Vasconcelos e Melo e Emília Ferreira (as comissárias da exposição comemorativa do nascimento do pintor), percebe-se finalmente uma visão de conjunto sobre a importância do trabalho pictórico de Dominguez Alvarez. A partir da presente mostra pode entender-se ainda que o tom aparentemente bisonho desta pintura resulta afinal de uma opção consciente e informada em torno de valores vanguardistas, mas também numa eficaz interpretação de valores naturalistas (ex: Ignazio Zuloaga) que se cruzam muitas vezes com experiências pós-impressionistas (ex: Regoyos).

Aliás, alguns ícones do trabalho de Alvarez, como essas “figuras espectrais†dos anos 30, nomeadamente “O Bispoâ€, “Homem Compostelanoâ€, “D. Quixote†ou o “Homem da Cartolaâ€, são aqui pela primeira contextualizados, de um modo magistral e complementar, com a obra menos conhecida do pintor que esteve desde a primeira hora com o Grupo + Além do Porto e procurou ainda dar a conhecer, em exposições organizadas na cidade Invicta, a pluralidade da pintura galega que ele tão bem conhecia.

Apesar de ter morrido prematuramente, em 1942, com apenas 36 anos de idade, Dominguez Alvarez foi um pintor de grande fulgor e participação, merecendo há muito uma exposição deste teor e amplitude, que fizesse jus, afinal, à sua condição de artista maior da nossa segunda geração modernista.


David Santos