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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista geral da exposição THEM OR US!, Galeria Municipal do Porto. Fotografia: Paulo Mendes Archive Studio / Rui Pinheiro


Vista geral da exposição THEM OR US!, Inauguração na Galeria Municipal do Porto. Fotografia: Paulo Mendes Archive Studio / Rui Pinheiro


Vista geral da exposição THEM OR US!, Galeria Municipal do Porto. Fotografia: Paulo Mendes Archive Studio


Exposição THEM OR US!, obra de Hugo de Almeida Pinho, From one place to another, 2017, impressão lenticular.


Exposição THEM OR US!, obra de Miguel Palma, Orange Skin And Cases, 2012.


Exposição THEM OR US!, obra de Cristina Mateus, Bombe à retardement (after), 2017.


Exposição THEM OR US!, obra de Fernando José Pereira, Ruin, 2012, desenho.

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COLECTIVA

THEM OR US!, Um Projecto de Ficção Científica, Social e Política




GALERIA MUNICIPAL DO PORTO
Palácio de Cristal Rua D. Manuel II
4050-346 Porto

02 JUN - 13 AGO 2017


A importância da arte reside, em grande parte, na experiência estética que proporciona ao espetador. Deste modo, a curadoria das exposições desempenha um papel fundamental na interpretação e na receção das obras, as que, com Paulo Mendes, atingem as suas maiores possibilidades.

Isto verifica-se na atual exposição da Galeria Municipal do Porto, onde encontramos o exemplo de uma curadoria com tamanha proposta estética e artística que se torna, ela mesma, numa obra de arte. Como o comissário nos explica, o que mais lhe interessa é a relação da arte com o espaço e a apropriação deste último. Assim, dia 2 de junho às 22 horas, a galeria esteve repleta por um público surpreendido pelo que visualmente se apresentava e pelas ações performativas que decorriam.

Com o título Them or us e uma justaposição de práticas, formas e conceitos, a exposição começa por requerer um reconhecimento da proposta de Paulo Mendes. Trabalhando de um modo muito complexo e inteligente, que lhe é característico, o comissário interessa-se, em primeiro lugar, pelo aspeto cenográfico da exposição. Procura provocar uma experiência cénica, com um caráter de espetáculo avassalador e a efemeridade de um momento irrepetível. Para viver a exposição que nos é apresentada, devemos seguir a proposta da primeira obra exposta, de Erwin Wurm que, em The Artist who swallowed the world (2006), nos mostra um individuo que absorve tudo o que a arte lhe proporciona. Nesse mesmo âmbito, Paulo Mendes coloca o espetador no lugar de performer que interage com o que vê e que decide o seu percurso e ordem de observação e receção das obras. Para tal, o curador criou um espaço labiríntico e substituiu a habitual conceção de área expositiva aberta por uma disposição consecutiva e quase sobreposta das mais de cem obras assinadas por cerca de noventa artistas. Contudo, para lhes fornecer um espaço existencial e tempo individual de leitura, o espaço é organizado pela construção de várias estruturas, desde paredes e tectos falsos, separações concebidas através de cacifos, divisões cromáticas e outros objetos, adquiridos através de parcerias com a Câmara Municipal, o exército português e a engenharia militar. Trata-se da utilização de objetos pré-existentes, relacionados com o contexto em questão, algo recorrentemente presente no trabalho de Paulo Mendes.

Outra particularidade que encontramos, é a substituição das habituais escadas de acesso ao piso superior por outras, centrais, da autoria de Nuno Pimenta, que proporcionam uma perspetiva inédita tanto das obras como do espaço da exposição. Em simultâneo, as janelas estão pintadas e cobertas para impedir a relação com o exterior, tornando a galeria quase claustrofóbica, numa aproximação à ideia de um bunker e, como o curador explica, "de um conflito latente", relacionado com o conceito da exposição.

As obras são intercaladas por peças não artísticas, como um computador de Steve Jobs ou variados objetos do Museu Anatómico do ICBAS, causando um fluxo dinâmico e acelerado no espaço, convidativo a uma visita dinâmica e intensa por parte do espetador. Revela-se um paralelismo entre o digital, o tecnológico, o informático e o analógico ou o manual, e um claro elo de ligação através do qual se inicia toda a exposição: um axioma do cineasta russo Alexander Sokurov, "em história falamos do que aconteceu, na arte do que poderia ter acontecido". Sabemos que muitas das narrativas que se desenvolvem em discursos artísticos partem de ocorrências reais e daquilo que, perante estas, surge como um infinito de possibilidades da imaginação e da criação do artista. A arte é, pois, uma enorme força crítica e o veículo ideal para convocar para análise a atualidade.

Hoje, a resposta crítica dos artistas tem sido particularmente despoletada pelas mais recentes ocorrências, desde o terrorismo às ideias radicais e extremistas que apelam à construção de muros quando seria mais benéfica a dissolução de fronteiras culturais, raciais e de gênero. O tema das barreiras sociais é brilhantemente trabalhado num filme que incorpora a exposição, o icónico Neighbours de Norman McLaren.

O que Fukuyama, em 1992, compreendeu como a forma final e definitiva de governação social, a democracia western, é, agora, posto em causa. E, tal como a criação artística evolui em força e retoma a sua voz mais provocadora e ativista, não estaremos perante o aclamado "fim da história", de Hegel a Karl Marx, mas sim num turning point e renascer histórico. Trata-se de uma confluência entre os vários tempos como aquela que, a um outro nível, se reúne nos espelhos de Fernando Brito, na obra Sem Título (1996/2017), que reflete a nossa imagem, as obras em frente e as que se encontram atrás. Assim, a exposição anuncia a possibilidade de uma "nova Europa" perante a queda da nossa "velha Europa", visível em Untitled (European Union), de 2012, de Fernando J. Ribeiro, onde as estrelas da bandeira caem, frágeis, em forma de batatas fritas.

Entre as opiniões díspares que surgem sobre a atualidade, verifica-se, contudo, um receio comum perante o conceito do invasor territorial. Este, como o curador clarifica, pode ser compreendido de diversas formas, desde o terrorista ao refugiado, ao turista ou até a um vírus, bactéria ou qualquer tipo de mutação derivada de experiências científicas. Por isto, e devido à vasta dimensão da problemática, para além da política, de cultura e da sociedade, Paulo Mendes explora também os parâmetros da ciência, da arquitetura, do arquivo/documento e até da ficção científica.

Contam-se cerca de vinte obras realizadas propositadamente para a ocasião e, as restantes pertencem a coleções privadas, algumas já anteriormente expostas mas que, nesta nova envolvência, são apreendidas de um modo totalmente distinto, como é o caso da Alheava_o Leão que Ri (2017) de Manuel dos Santos Maia. Apesar da pluralidade e da enorme dimensão expositiva, é possível destacar algumas peças, a começar pelas fotografias de André Cepeda que, de modo inovador, são apresentadas sem qualquer ordem e intercaladas com peças de outros artistas. Um outro trabalho que contribui para o dinamismo da exposição, literalmente elevando a sua temperatura, é o Quarto Sentido (2003) de Pedro Tudela, destacando-se visualmente pelo seu grafismo e cores fortes e, como é característico do artista, por apelar aos vários sentidos do público. O som que se expande da obra evoca um sofrimento e um esgotamento agora cada vez mais atual. Na parede em frente, bem relacionada com o tema, encontra-se uma obra que, embora de 1992, é intemporal, a Réserve (Fête de Pourim) do incontornável Christian Boltansky. Também particularmente interessante, no piso superior, está uma tenda militar com a projeção de cerca de doze vídeos, dos quais pode destacar-se o Bombe à retardement (after), deste ano, de Cristina Mateus. No ecrã, presenciamos um campo aberto, vazio, com uma bateria que toca sem público, ou seja, como a artista explica, que contrasta com a habitual ideia de um concerto. Surge, ainda, uma outra paisagem de uma floresta, esta, por sua vez, densa. Ainda se acrescenta um discurso que proclama várias vontades e que, no particular contexto da tenda militar, poderá ser associado aos soldados. É, assim, uma obra plural, que permite e convida a múltiplas interpretações e cujo conceito se cruza com o espaço e a curadoria.

Them or Us apresenta-se, assim, tão forte quanto o discurso que proclama e detém a capacidade de permanecer surpreendente quando revisitada. Para tal, está patente até dia 13 de agosto e dela surgirá a publicação de um livro com ensaios sobre tudo o que esta ocasião engloba. Esta segunda exposição do presente ano de 2017 da Galeria Municipal é um notável exemplo de como a Câmara do Porto encara a cultura como plataforma para suscitar o pensamento crítico sobre a atualidade. Esse é, precisamente, um dos grandes intuitos dos artistas contemporâneos e que, pela mão de Paulo Mendes, é transportado para um nível de ilustre complexidade e mestria.



CONSTANÇA BABO