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EXPOSIÇÕES ATUAIS


"The Lost Soul #1", 2005 l Lambda s/dibond, 70x100 cm


"The Lost Soul", 2006 l Cor, Som, 7'35'' (loop)


"Dark Forces", 2004 l Cor e P&B, Som (editado), 7'23'' (loop)


"The Prora Complex", 2005 l Cor, Som, 6'42'' (loop)


"Unité d' Habitation", 2006 l Cor, Som, 8'27'' (loop)


"Untitled #1", 2005 l Lambda s/dibond, 110x145 cm

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ARQUIVO:


NUNO CERA

Fantasmas




MUSEU COLEÇÃO BERARDO
Praça do Império
1499-003 Lisboa

24 NOV - 25 FEV 2007

O caminho inevitável para a morte

A Galeria 2 do 1º Piso do Centro de Exposições do CCB transformou-se numa espécie de black box especialmente concebida para a mostra; um design expositivo que potencia muito a exibição dos vídeos, das fotografias e dos desenhos que compõem a exposição “Fantasmas†de Nuno Cera (comissariada por Nuno Crespo). O primeiro confronto com o vídeo “Untitled (Iris with Tropicamide)†- que projecta o olho do artista com 2 metros de diâmetro – cria um efeito colossal e intimidatório que sugere que o espectador está a ser observado e que, simultaneamente, lhe é permitido mergulhar dentro do gigantesco globo ocular de modo a contactar com os mecanismos de captação e projecção que caracterizam os projectos de Nuno Cera. Em frente ao vídeo a fotografia “Being Anywhere #9†exibe uma câmara de filmar e alude à metáfora de que, mecânicos ou fisiológicos, os processos de percepção são sempre manipuláveis. Se os olhos são o espelho da alma, então o artista despe-se e pede ao espectador uma entrega semelhante - a disposição de abandonar o voyeurismo e olhar para dentro de si próprio.

Os projectos de Nuno Cera centram-se na matéria que compõe as cidades: nos edifícios que as habitam e no frenesim solitário dos seus residentes. Muito concretamente na degradação da vida urbana. Frisam também a nossa condição de mortais, eternamente a deambular por um caminho determinado (incapacitados que somos para a quietude), mas irrelevante face ao inevitável peso da morte. Foca o que faz de nós eternos nómadas errantes e quase inevitavelmente potenciais fantasmas (almas que recusam reconhecer a própria morte).

A arquitectura tem sempre um papel preponderante nos seus trabalhos, o que se reflecte no comum surgimento de edifícios abandonados e com ar decadente, esventrados - de morte anunciada e lenta. Muitos dos seus vídeos, que têm edifícios como cenários, recriam atmosferas de suspense e chegam a tocar o terror. Espaços em ruínas em que a tinta das paredes se desfaz, à semelhança da pele que cai depois de uma queimadura forte. A metáfora da degradação dos edifícios encontra eco na decomposição dos corpos, simbolizada, por exemplo, pela presença de sangue (“Lost Soulâ€). “The Prora Complex†ilustra algumas destas características. “Bad Prova†- um dos mais imponentes símbolos arquitectónicos do Terceiro Reich - foi concebido para funcionar como campo de férias para 20,000 pessoas; a sua construção foi interrompida pelo eclodir da II Guerra Mundial, sendo, actualmente, um edifício em ruínas. Cera filma a sua decadência, a sua imensidão abandonada, os sinais de degradação num género com reminiscências de documentário que deixa, no entanto, espaço para a encenação. Infinitos corredores que o espectador percorre atrás da câmara numa angustiante, mas paradoxalmente poética, caminhada pela desolação.

A generalidade da pesquisa de Nuno Cera assenta num conjunto de dicotomias. As dicotomias Fotografia v/s Vídeo e Arquitectura v/s Natureza exemplificam-no. Relativamente à primeira, os seus projectos encontram sempre complementaridade entre os dois suportes, entre o movimento ritmado (vídeo) e a imagem estática e contemplativa (fotografia). Curioso e ilustrativo o facto do seu primeiro filme “Berlin – a Super 8 Movie†ter sido construído a partir de cerca de 4200 fotografias em alucinante movimento. O binómio Arquitectura v/s Natureza assenta na concepção da primeira enquanto espaço de conflito, de aniquilação; a natureza, contrariamente, encarna a serenidade e a inevitabilidade. Mas também neste caso a linearidade é questionada. O filme “Dark Forcesâ€, rodado nos arredores de Viseu depois de uma época de fogos devastadora, exibe a natureza morta; imagens a preto e branco de árvores despidas mas ainda de pé, remetem para um cenário desolador de destruição; uma sinfonia de Góreckui como banda sonora transforma-o numa experiência comovente. Vislumbra-se uma teia de aranha, vestígio de vida que resiste e se reergue, metáfora de esperança com enfoque no carácter cíclico da natureza.

Em “Fantasmas†não se sustenta um discurso em jeito de lamento, existem constatações que o artista quis simplesmente partilhar recordando que o “sentido do caminho é o próprio caminho, não onde conduzâ€.


Cristina Campos