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O VIRTUAL NOS MUSEUS E NA ARTE CONTEMPORÂNEA EM DEBATE NA GULBENKIAN2014-11-02A Fundação Calouste Gulbenkian recebeu esta sexta, 30 de Outubro, e sábado, 1 de Novembro, a conferência internacional “Espaços Incertos: Configurações Virtuais nos Museus e na Arte Contemporânea”. Inseridas no projecto Unplace, as conferências pretenderam reflectir sobre o impacto dos novos media nas instituições museológicas e nas práticas artísticas contemporâneas, não apenas em termos criativos, mas também em questões relacionadas com a curadoria, exposições e colecções. Annet Dekker, curadora e investigadora do arquivo digital da Tate, foi responsável pela conferência de abertura. Partindo do carácter “processual” da arte digital, e dos conceitos de interacção, reutilização, recombinação e mutação, que lhe são característicos, Annet Dekker analisou a forma como os museus ainda podem constituir um espaço válido para apresentar este tipo de arte. Annet Dekker relembrou a necessidade dos museus se adaptarem a estes trabalhos e não o contrário. Na arte digital, o público tem uma função nova: fazem parte do processo e os museus precisam de estar conscientes disso. A apresentação de Annet Dekker foi seguida pela primeira sessão temática, sob o título “Online Collections, archives and databases”. A sessão contou com a participação de Andrew Brooks, que reflectiu sobre que tipo de conhecimento está a ser arquivado, Teresa Nobre, que esclareceu questões legais respeitantes aos direitos de autor, o Colectivo de Curadores, com a apresentação do Projecto MAP, e Soren Meschede, da associação madrilena hablarenarte, que lançou a plataforma online Curator’s Network. Tanto o MAP como o Curator’s Network são dinâmicas bases de dados online, organizando e divulgando informação sobre artistas em contextos específicos. O Curator’s Network é uma iniciativa que tenta dar a conhecer e aproximar a cena artística de contextos “periféricos”, através da constituição de uma base de dados online com informação sobre artistas e curadores desses países. Na mesma categoria, o Projecto MAP tenta dar uma imagem da arte contemporânea em Portugal, através da constituição de um mapa interactivo de artistas e suas conexões. Alexandra Bounia deu início à segunda sessão temática do dia, dedicada aos museus e às exposições virtuais, precisamente questionando o uso do termo virtual no contexto museológico. Segundo Alexandra Bounia, o termo virtual foi reduzido teoricamente a um apêndice técnico e é preciso devolver ao termo a sua capacidade criativa de nos fazer pensar diferentemente. Marialaura Ghidini e Ja-Mei Or completaram o painel com alguns exemplos de projectos comissariados para a internet. Todos as apresentações e painéis foram seguidos de debate aberto ao público, tendo-se discutido de que forma estas novas tecnologias e teorias se estão a reflectir nas práticas curatoriais e no mundo das instituições, como os museus. Questões sobre a “cooperativização da internet” e sobre o facto de que a autoridade actualmente se encontrar repartida por vários elementos (curadores, espaços e públicos), foram também levantadas pelos conferencistas. O primeiro dia terminou com a conferência da artista Giselle Beiguelman, que através da apresentação de vários projectos, discutiu o tema da memória na era digital. Arte, memória e arquivo foram questões de interesse para muitos artistas nos anos 1970, no entanto, na era digital as “estéticas da memória” estão enformadas por um processo de overdose documental, pela banalidade, pelo que a artista chamou de “obsolescência programada”, ou seja, os materiais são produzidos não a pensar na sua durabilidade, mas no seu desaparecimento. Muitos dos trabalhos de arte digital abordam criticamente estas questões, mostrando a instabilidade do digital. Juan Martín Prada, conhecido investigador do tema da net art, ligado ao Media Lab de Madrid, fez a conferência de abertura do segundo dia de trabalhos. Com o título “Curating net art today”, Prada fez um apanhado histórico passando pelos vários momentos da net art, desde os gifs animados e da baixa resolução, passando pelo surgimento do software Flash e pelo encaminhamento em direcção ao vídeo interactivo (“net-cinema trend”, “new web cinema”, “internet cinema”). O surgimento de plataformas de partilha de vídeo, como o Youtube, vieram transformar o público em actor. Prada mencionou também a “blog-art” e os “surfing clubs”, como formas de criar trabalhos a partir de dentro da internet, e enumerou as ideias que pairam neste segunda fase da internet: “artista como etnógrafo?”, “affective capitalism”, “hybrid environments”, “permanent connection” e “social participation”. A terceira sessão temática reuniu apresentações sobre projectos concretos de “internet art”, começando por János Tari, em representação do AVICOM, o comité do ICOM cujo objectivo é sensibilizar os museus para as potencialidades do uso de métodos audiovisuais e das novas tecnologias. Seguiu-se Marie Meixnerová, que traçou o estado actual da arte digital na República Checa, e Catarina Carneiro de Sousa & Luís Eustáquio, que mostraram projectos desenvolvidos para a plataforma Second Life, incluindo “Metabody”, um projecto de sua autoria e a partir do qual identificaram três tipos de criação nestes ambientes: “collective creation”, “collaborative creation” e “distributed creation”. A sessão terminou com Rita Sá, que apresentou como case study a animação em stop motion “Individually Collaborative”, resultante de um processo artístico baseado no “open access”. No último painel, Roberto Terracciano, da Universidade de Nápoles, apresentou “Border Memorial: Frontera de los Muertos”, um projecto artístico com base numa aplicação que utiliza o princípio de “Augmented Reality” para nos fazer tomar contacto com o movimento de emigração do México para os Estados Unidos nos anos mais recentes. Desenvolvido para dispositivos móveis, este projecto permite-nos visualizar o número de mortos no território fronteiriço, ao marcar a localização precisa onde foram encontrados restos mortais. Utilizam-se pontos GPS (Global Positioning System), mas neste caso estamos frente a uma outra forma de GPS: Geo Poetic Systems. Esta aplicação permite também marcar pontos de abastecimento de água para facilitar a passagem dos emigrantes pelo deserto. As fronteiras, outrora físicas, passam a ser virtuais. Transpondo os mapas fronteiriços para o espaço do museu, a equipa liderada por John Craig Freeman desenvolveu projectos na Esther Klein Gallery e no MoMA, permitindo aos visitantes caminhar pela fronteira sem sair do museu e tomar contacto com um pedaço da realidade da emigração. Para Terracciano, novas práticas devem ser pensadas ao repensar também o espaço do próprio museu. Na sua comunicação “Right to the City! Right to the Museum”, Luise Reitstätter falou do direito inalienável de todos à cultura. A austríaca focou a performance “Standing Man” de Erdem Gunduz, para mostrar que a fórmula que se utiliza para se exigir direitos à cidade pode ser utilizada para reivindicarmos o direito aos museus. Este direito não pode ser um trabalho teórico mas tem que ser uma prática curatorial e artística, colectiva, multidisciplinar e inclusiva. A este propósito apresentou performances de Valie Export, Erwin Wurm, Andrea Fraser e Ricardo Basbaum e terminou assinalando que os museus só são relevantes se o forem para a comunidade local e se abrirem a discussões comunitárias. Stefanie Kogler, da Universidade de Essex, debruçou-se sobre o trabalho de colaboração entre o Internacional Centre for the Arts of the Americas (ICAA) e o Museum of Fine Arts, de Houston (MFAH), abordando o projecto de tratamento digital e de arquivo da arte da américa latina e sublinhando o trabalho desenvolvido no Museo del Barrio, em Nova Iorque. Andrew Dewdney, da London South Bank University, apresentou “Modelling Cultural Value within New Media Cultures of Networked Participation”, um projecto de colaboração entre o Tate Research, o Royal College of Art e o Centre for Media and Culture Research da sua universidade. Susana Martins, da FCSH-UNL, encerrou o congresso sublinhando a diversidade dos pontos de vista apresentados e o impacto que poderão ter nas actividades curatoriais, artísticas e dos museus. O objectivo é assegurar a continuidade deste trabalho e o próximo passo será o lançamento de um ebook. Natália Vilarinho Liz Vahia [as autoras escrevem de acordo com a antiga ortografia] |













