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O seguinte guia de exposições é uma perspectiva prévia compilada pela ARTECAPITAL, antecipando as mostras. Envie-nos informação (Press-Release e imagem) das próximas inaugurações. Seleccionamos três exposições periodicamente, divulgando-as junto dos nossos leitores.

 


VERA MOTA

Ventriloquismo




GALERIA BRUNO MÚRIAS
Rua Capitão Leitão 16
1950-051 LISBOA

13 JAN - 27 FEV 2021


Ventriloquismo
de Vera Mota


O trabalho da Vera Mota usa a performance como meio de produção e de encenação. Há um corpo operativo, evidente na forma e estrutura das peças, que inscreve processos concretos de materialidade e de construção. Há um corpo actuante, cujas agitações e trânsitos se registam nas esculturas, nos desenhos ou nas fotografias. Esse corpo dual interage com matérias cujas propriedades – peso, rigidez, cor, maleabilidade, composição química – são determinantes para definir a expressão que os objectos assumem. Neste sentido, existe na obra de Vera Mota um animismo escultórico partilhado entre corpos agentes. A política do corpo, tema constante no trabalho da artista, é aqui mais uma vez inscrita, mas estendendo-se mais conscientemente, de uma perspectiva pós-humana, a outros corpos, outras materialidades.

Em trabalhos anteriores, Vera Mota desloca o elemento primordial da cabeça, lembrando talvez que a mente é descentrada, corpórea, fisiológica. Por vezes a cabeça aparece no chão, separada do resto do corpo, decapitada e multiplicada, como acontece em Multiple Heads (2019). A exposição Ventriloquismo dá continuidade a essa exploração. Em Head Hand a cabeça aparece inscrita na mão, a tinta preta, de forma definitiva. O conhecimento, tal como o sentimento, é uma interação fisiológica entre várias partes de um corpo. Transferir uma função – pensar ou sentir – da cabeça para as mãos, da cabeça para os pés – é, portanto, reconhecer a ciência dos eixos de interdependência corporal. Levar as mãos à cabeça. Meter os pés pelas mãos. Ter estômago. Fazer das tripas coração Em obras como Fold IV, a artista apresenta objectos reminiscentes de inter-corporalidades. Uma expressão ou movimento com origem num corpo biológico é transferido para um outro, geológico e inanimado. Mas no gesto de deslocação alteram-se subjectividades. Coração de pedra, ou, Coragem de ferro. A realidade perde o seu contorno preciso. Em Real feel o interlaçar de dedos em mármore apresenta-se numa escala colossal. A cor rosa do sangue que se vê através da pele, é gelada pela matéria do mármore, fixada na rigidez da pedra, e desumanizada. Hold são duas pernas de metal que flutuam no espaço, numa deslocação gravitacional. São pernas optimizadas, que invocam um desempenho sobre-humano. Juntas, as peças compõem um circuito performativo, ao mesmo tempo clássico e ciborgue.

O binário que distingue a matéria orgânica da inorgânica estabelece uma distinção subjectiva entre corpos biológicos e geológicos. Há códigos de linguagem inerentes a esta distinção, que atribuem à matéria qualidades de possessão, propriedade e valor, e por isso a rendem inerte, desagarrada de relações sociais e ecológicas, desprovida de agência. Muito embora a matéria seja moldada de acordo com a forma que se idealiza, a própria forma é determinada pelas qualidades intrínsecas à matéria, que a artista deixa propositadamente falar. E portanto, pode dizer-se que a ordem anterior se inverte, porque quando a matéria dá forma a uma imagem de corpo biológico ela mineraliza-o: impõe-lhe qualidades minerais. As peças metalizam pernas, petrificam dedos, e por isso transformam o corpo nessa formalização. O reconhecimento consciente e a deferência com que as propriedades minerais se deixam impor, sugerem uma revisão do modelo extractivista e antropocêntrico que divide o mundo em binários, coisas com vida e sem vida.

Na exposição Ventriloquismo, as peças falam de transacções intra e inter corpos, de transmissões e deslocações de partes num mesmo corpo ou entre corpos que interagem. O que se perde, ganha ou transforma no movimento de transferência? Quando o ventriloquista transfere uma função humana (voz) para um objecto inanimado (boneco), oferece vida àquele objecto. Há uma qualidade de estranheza no ventriloquismo, porque o corpo mecânico rouba ao corpo biológico (humano) uma função específica. É familiar a imagem do ventríloquo surpreso, agarrado à garganta, por ter perdido a função da fala. O ventríloquo que olha com espanto para o boneco que, roubando a voz, ganha vida. Mas neste processo há ainda outro pormenor que contribui para a estranheza da cena. É que no movimento de transferência a função vocal altera-se e comporta-se de um modo autónomo. Sofre uma mutação – timbre – quando atravessa de um corpo para outro. É como se a voz ganhasse vida própria.

Há́ mais de cem anos, Violet Paget escreveu sobre a empatia como “emprestar a vida a uma coisa”. Traduzida do original alemão Einfühlung (“feeling into /sentir em”), a empatia era para Paget uma transferência de sentimentos entre uma coisa e um corpo. Usando o pseudónimo masculino Vernon Lee, Paget anotou as sensações que determinadas coisas provocavam no seu corpo e no da sua companheira, a artista Anstruther-Thompson. As sensações eram, por exemplo, o aperto da garganta, a variação de ritmo da respiração ou do batimento cardíaco. As coisas sentidas eram pinturas, esculturas, montanhas, e até uma cadeira. Todas as observações requeriam uma sintonia profunda: com o momento, o lugar, o corpo. Hoje em dia a empatia é geralmente entendida como a capacidade de captar, entender ou simular os sentimentos de outra pessoa. Mas na sua origem, a empatia era entendida como prática relacional entre pessoas e objectos ou paisagens “naturais”. Agora, num tempo em que reconhecemos amplamente a agência e os direitos de entidades mais-que-humanas – sejam elas plantas, animais, micróbios, fungos, minerais, florestas ou corpos de água –a empatia serve-nos, talvez, para especular sobre como o sentir atravessa corpos. A obra de Vera Mota expressa um convite neste sentido, ao registar a transferência de funções, impulsos, expressões, e potencialmente sentimentos, dentro e entre corpos orgânicos e inorgânicos, geológicos e biológicos, humanos e não.



Mariana Pestana