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O seguinte guia de exposições é uma perspectiva prévia compilada pela ARTECAPITAL, antecipando as mostras. Envie-nos informação (Press-Release e imagem) das próximas inaugurações. Seleccionamos três exposições periodicamente, divulgando-as junto dos nossos leitores.

 


ALBUQUERQUE MENDES

O frio da casa permanece no meu corpo




MUSEU DA GUARDA
R. Alves Roçadas 30
6300-663

12 JUN - 13 OUT 2024


INAUGURAÇÃO: 12 de Junho às 18h00 no Museu da Guarda

Curadoria: Paula Parente Pinto



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Albuquerque Mendes nasceu em Trancoso, a 17 de Março de 1953. Artista autodidata, daqui saiu ainda adolescente, para ir estudar em Coimbra. Crescido num país rural, patriarcal e maioritariamente analfabeto, onde só Lisboa e Porto tinham Escolas de Belas-Artes, foram pequenas viagens, alguns encontros, raros livros e episódios marginais que lhe outorgaram a condição de artista, a partir da qual se identifica. As artes tornaram-se o lugar de inscrição onde abarcou tudo o que não cabia dentro da linha de horizonte do planalto da sua terra natal, no concelho da Guarda. As figuras, as árvores e as paisagens que inventou, não deixando de refletir o seu lugar de pertença e fala, transportaram-no e surpreenderam-no noutros contextos, simultaneamente possíveis e imaginados. Mesmo longe, que frio é esse que permanece no corpo?
Sendo esta a segunda exposição de Albuquerque Mendes na Guarda (depois de ter inaugurado no Teatro Municipal da Guarda em 2011), que significado tem este retorno ao lugar de origem, aos setenta anos de idade, com uma exposição no Museu da Guarda? Nascemos num sítio, morremos noutro, a vida fica entre ambos. O que dita a nossa origem? Que importância tem a biografia de um autor na leitura ou no entendimento da sua obra? Que narrativas se podem impor às obras de arte? Albuquerque Mendes não é escritor, mas em 2022 assina “O Homem que vê aviões debaixo da terra”, um monólogo de teatro em um só ato. Para ser lido, originalmente, no espaço expositivo, por um ator, o texto sugere a possibilidade de escuta dos seus pensamentos, permitindo alguma permeabilidade entre o que sugere ser a sua biografia e a procura do que nos propomos interpretar com ela, na leitura da obra. Acreditando que esse texto, mesmo sem ser explicativo, funciona simbioticamente com as obras de Albuquerque Mendes, apresentamo-lo como uma espécie de jornal de parede da exposição.
Sem se tratar de uma apresentação cronológica ou sequer retrospetiva, a presente exposição no Museu da Guarda funciona todavia, mais que outras, como um ponto de situação, entre as coordenadas da sua vida e da sua obra. O texto escrito por Albuquerque Mendes e parcialmente transposto para as paredes desta exposição, reenvia-nos para os anos cinquenta e sessenta em Trancoso, como se desde aí as vivências ainda lhe informassem o corpo; contudo, essas mesmas vivências, escritas por si, resultam de leituras do seu percurso de artista. Albuquerque Mendes usa referências da sua aprendizagem, e do seu percurso artístico, para construir uma memória biográfica. Nada é mentira, tudo é uma construção mental. É neste caminho bidirecional, confundindo espaço e tempo, matéria e ideia, que a experiência escrita toma forma e pensamento. É possível que o tempo arranje explicações para chegar à memória? Esta confusa “coexistência de sentidos opostos”, faz-nos sentir frente a um sinal de trânsito, que aponta caminhos diversos para um mesmo destino; ou talvez uma seta indique o regresso e a outra a saída, sem uma ordem precisa. Assumidamente, Albuquerque cultiva o sentido da deslocação, da desorientação e da estranheza, sinónimo da grande liberdade com que cria as suas obras.
Colmatando fronteiras entre o passado e o futuro, o início e o fim, a vida e a obra, a terra e o ar, “o homem que vê aviões debaixo da terra” confirma a coexistência de possibilidades improváveis, para lá dos sincronismos com que procuramos regular a vida. O texto funciona como um labirinto, em que o pintor vagueia entre mundos à procura de imagens e experiências para transpor para a tela, superfície onde inscreve o seu percurso, de forma assumidamente atemporal e sem uma topografia precisa. As experiências transformam-se em imagens e vice-versa, as imagens inscrevem-se nas experiências.
Sentado à lareira da cozinha em Trancoso, José Bernardo lia bandas desenhadas brasileiras, vindas do lugar onde as colagens que compôs ao longo da vida, com recortes de diferentes referências e origens, serão expostas. Não basta ser ou coexistir, não basta a vocação, é preciso que o mundo e as coisas se desloquem e se cruzem. Albuquerque Mendes cultiva o cruzamento e o hibridismo tanto nas suas criações visuais – as personagens das suas pinturas há muito que habitam num mundo não binário, para o qual ainda caminhamos –, como nas próprias representações artísticas: precursor da performance arte em Portugal nos anos 70, tem privilegiado o cruzamento entre práticas disciplinares como a pintura, a colagem, o teatro e a encenação, expandindo as suas aço?es para o espaço público, e abrindo-as a um meio social arredado da cultura arti?stica.
Cruzando biografias, mas também referências, desejos e vontades, o texto “O homem que vê aviões debaixo da terra” é revelador da sua capacidade de transcender corpo e mente que, embora presos a um tempo e a um espaço, não são obrigatória e exclusivamente definidores de um determinado destino. Albuquerque Mendes revela uma liberdade sinestésica e transformadora: transforma datas em pinturas, cores em palavras, paisagens em atos de censura, ultrapassa fronteiras. O artista transporta para a sua obra marcas biográficas, como a data “23 dezembro 1888”, o dia em que o pintor holandês Vincent Van Gogh, cortou uma das orelhas. Tendo vivido o estigma do fracasso como pintor, Van Gogh seria “o pintor daqueles que ainda não tinham nascido”, e apesar dos seus quadros serem dos mais célebres do mundo, a história de Van Gogh continua a ser contada pela via das suas frustrações. É como recetáculo destas escuras histórias de vida, que nos continuam a chegar, apesar da colorida e luminosa obra de Van Gogh, que também deparamos com algumas das orelhas que vão surgindo em lugares improváveis nas obras de Albuquerque Mendes. E o artista marca as suas pinturas com datas descaradamente improváveis, conferindo-lhes uma improvável oportunidade passada, ou deixando-lhes margem de futuro. Afinal, também nós associamos referentes visuais a factos que só dizem respeito a episódios biográficos, dos quais nem temos, sequer, qualquer conhecimento concreto.
Como escreve Albuquerque Mendes, “só a vocação não chega”. Como passamos da aprendizagem ao conhecimento? Albuquerque quis expor em Roma, como todos os grandes pintores da Renascença e do Barroco, reviu a aproximação aos animais da aldeia na descrição das performances de Joseph Beyus, e sentiu o tempo escoar como numa velatura de Turner. Utiliza referências artísticas como recursos líricos para revelar o seu olhar sobre o mundo. Mas só as ideias, também não chegam. Vida e obra têm de coexistir, num contínuo processo de transformação.
Quando olhamos para um objecto artístico, a vida do autor pode não interferir na forma como experienciamos a obra. Em contrapartida, foi o movimento de trazer a pintura para a vida que me surpreendeu neste texto de Albuquerque Mendes. Afinal, só aos artistas é permitido tocar nas obras de arte. Porventura é essa a função da arte, a de filtrar as experiências da vida, a que de outra forma, não chegamos a tocar:

“Francisco de Goya y Lucientes, nasceu em Trancoso em 17 de março de 1746. Morreu nessa cidade a 15 de abril de 1828.
Joseph Mallord William Turner, nasceu em Trancoso em 17 de março de 1775. Morreu nessa cidade a 19 de dezembro de 1851.
Mark Rothko, nasceu em Trancoso em 17 de março de 1903. Suicidou-se nessa cidade a 25 de fevereiro de 1970.
Pablo Picasso, nasceu em Trancoso em 17 de março de 1881. Morreu nessa cidade a 8 de abril de 1973.
Amadeo de Souza-Cardoso, nasceu em Trancoso em 17 de março de 1887. Morreu nessa cidade a 25 de outubro de 1918.
Michelangelo Merisi da Caravaggio, nasceu em Trancoso em 17 de março de 1571. Morreu nessa cidade a 18 de julho de 1610.
Joseph Beuys, nasceu em Trancoso a 17 de março de 1921. Morreu nessa cidade a 23 de janeiro de 1986.”


Paula Pinto, Maio 2024