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O seguinte guia de exposições é uma perspectiva prévia compilada pela ARTECAPITAL, antecipando as mostras. Envie-nos informação (Press-Release e imagem) das próximas inaugurações. Seleccionamos três exposições periodicamente, divulgando-as junto dos nossos leitores.

 


JOãO QUEIROZ, JOSé LOURENçO, CATARINA BRANCO E ISABEL MADUREIRA ANDRADE

o instante do mundo




GALERIA FONSECA MACEDO
Rua Dr. Guilherme Poças Falcão, 21
9500-057 PONTA DELGADA

16 JAN - 28 FEV 2025


INAUGURAÇÃO: 16 de Janeiro às 18h30 na Galeria Fonseca Macedo, Ponta Delgada


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O instante do mundo

“Pensar é experimentar (...)”[1] afirma Merleau-Ponty numa das primeiras páginas da sua reflexão acerca da implicação inegável, justa e consequente do corpo do pintor no processo de produção da pintura. Numa tentativa de desconstrução do fenómeno da observação e da sua tradução para o plano da pintura, o filósofo sublinha a importância do processo perceptivo como algo que extravasa a dimensão visual para se aliar a uma dimensão de presença. O corpo presente do pintor no lugar permite-lhe conquistar simultaneamente uma condição de observador e de actor. Estar é participar, portanto estar é construir. Construir pensamento, pensar pintura.

Numa reflexão em torno da prática paisagística de Cézanne (e portanto, do seu pensamento em pintura, da sua construção), Merleau-Ponty afirma “o mundo é feito do mesmo estofo do corpo. (...) a visão parte ou faz-se do meio das coisas, aí onde um visível se põe a ver (...)”[2] e mais adiante afirma “O olho vê o mundo, e aquilo que falta ao mundo para ser quadro, e o que falta ao quadro para ser ele próprio (...)”.[3]
Diríamos, à luz da reflexão de Merleau-Ponty, que pensar pintura é, por isso, produzir realidade. Mais do que construir ou registar, através dos códigos da representação, uma determinada visão da realidade, diríamos que o pintor extravasa a sua condição de veículo perceptivo para assumir uma condição geradora de novas camadas de realidade. É também neste sentido que gostamos de pensar na paisagem enquanto modelo de representação, abraçando-a como um conceito polissémico que resulta do entendimento social, filosófico e cultural produzido a partir (e com) o real. Mais do que captar o instante do mundo, a pintura de paisagem parece-nos constituir-se como um novo instante no mundo.
A exposição que agora se apresenta, marcando o terceiro momento do ciclo comemorativo dos vinte e cinco anos da Galeria Fonseca Macedo, parece-nos resultar de um feliz encontro entre obras de quatro pintores portugueses que partilham entre si esta consciência do seu lugar. Concebendo pinturas que assentam numa matriz relacional com a natureza ou com o mundo natural exterior (chamemos-lhe, abrangentemente, paisagens), procuram a partir desse seu lugar de implicação um posicionamento idiossincrático, e apresentam-se-nos como portadores da responsabilidade de partilha desses seus novos instantes no mundo.

Com um trabalho que desafia as fronteiras disciplinares, assumindo a pintura (e os seus desenvolvimentos tridimensionais) como o seu campo alargado de exploração, Catarina Branco (Ponta Delgada, 1974) apresenta um conjunto de pinturas produzidas a partir da relação viva e presente que estabelece com o seu próprio jardim, na ilha de São Miguel. Mantendo o seu interesse pela botânica e pelo carácter decorativo e simbólico, mas também cromático e ecológico, das plantas, e particularmente das flores (já desde há muito presentes no seu trabalho), a artista reafirma a presença do corpo nessa relação com a natureza, transportando-a de forma lúdica para a relação com as próprias matérias plásticas.

Mantendo o registo que lhe reconhecemos, José Lourenço (Lisboa, 1975) apresenta um conjunto de novas pinturas sobre papel assentes numa linguagem eminentemente gráfica, rigorosa, de cores planas e contornos precisos. A relação impressiva que estabeleceu com a natureza muito presente dos Açores, aquando da sua mais recente deslocação ao arquipélago, permitiu-lhe a concepção de um conjunto de pinturas fortemente atmosféricas, mas estranhamente silenciosas. Parece haver uma quietude implícita nestas imagens que contrasta precisamente com aquilo que é a nossa memória acerca da natureza viva e fulgurante destes territórios, conferindo-lhes uma estranheza e uma artificialidade desconcertantes.
Herdeira de uma tradição próxima da abstração e das suas várias declinações, Isabel Madureira Andrade (Ponta Delgada, 1991) tem desenvolvido uma pintura que assenta sobretudo numa matriz geométrica, construindo pinturas complexas que desafiam o olhar do espectador. O recurso a processos menos convencionais de aplicação, de ampliação, de repetição e de elisão na produção das suas pinturas conferem ao seu trabalho uma aparência próxima da impressão gráfica ou fotográfica, valorizando o momento revelatório no encontro com a imagem e entendendo o campo disciplinar da pintura como um território de permanente exploração.

O conjunto de obras de pequena e média dimensão, reunidas na exposição, reafirma o seu interesse em torno da abstracção, mas sinaliza uma tentativa de aproximação mais intuitiva e mais directa ao território dessas imagens. Aproximando-nos de um pensamento de relação com a natureza, parecem funcionar como convites para mergulharmos no interior das grutas, nas profundezas da terra ou no mais denso nocturno dos céus.

A vasta investigação que João Queiroz (Lisboa, 1957) tem vindo, persistentemente, a desenvolver prende-se com aquilo a que poderíamos chamar de acontecimento pictórico. Esse território especial onde, “emprestando o seu corpo ao mundo, o pintor transmuta o mundo em pintura”.[4] Ao mesmo tempo que nos apresenta pequenos fragmentos da natureza com a aparente segurança de quem domina todos os seus segredos, o artista torna visíveis os mecanismos próprios do seu pensamento e do seu projecto conceptual.

O conjunto de sete pinturas a aguarela concebidas para a exposição constituem-se como riquíssimos exercícios de exploração visual e funcionam como enormes desafios à nossa acuidade e atenção. Tratando-se não de retratos de lugares, mas de paisagens – construções, ficções, imagens, ou seja, o resultado do pensamento a fazer-se pintura – parecem testemunhar o enigma de que fala Merleau-Ponty quando afirma que no processo de criação da pintura esta “não procura o exterior do movimento (das coisas) mas as suas cifras secretas.”[5]

Ana Anacleto
Dezembro 2024

[1] Merleau-Ponty, Maurice, in “O Olho e o Espírito”, Nova Veja, Pontinha, 2023, p. 14.
[2] Idem, p.21.
[3] Idem, p.25.
[4] Idem, p.19.
[5] Idem, p.64.

Por vontade expressa da autora, este texto não segue as regras do Acordo Ortográfico de 1990, atualmente em vigor.


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João Queiroz nasceu em Lisboa, em 1957, onde vive e trabalha. Começou a expor obras de pintura e desenho no início dos anos 80, enquanto estudava Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Estes dois interesses convergem na sua obra, que se dedica a uma reflexão informada sobre o papel da imagem na idade contemporânea. Os métodos experimentais que tem explorado para abordar velhos problemas da linguagem da arte envolvem tanto o potencial das palavras escritas em composições quanto, a partir de 1998, a possibilidade de uma representação sensorial e não descritiva da natureza. João Queiroz ensinou Desenho, Pintura e Teoria da Arte no Ar.Co (1989-2001), em Lisboa, onde atualmente vive e trabalha.

José Lourenço nasceu em Lisboa, em 1975. É licenciado em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Durante o seu percurso artístico contam-se já exposições um pouco por todo o mundo, tanto a título individual bem como exposições coletivas. Em 2008, foi premiado com o 2.º Prémio da X Mostra Internacional Union Fenosa – Museu de Arte Contemporânea Union Fenosa e está representado em várias coleções públicas e privadas. Seja através das suas peças de arte ou do seu trabalho comercial, José Lourenço consegue transmitir a sua atenção ao detalhe, uma imensa curiosidade e o infinito divertimento que nutre pelo que faz.

Catarina Branco nasceu em Ponta Delgada, em 1974. É licenciada em Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. É uma artista plástica que trabalha com papel recortado à mão, resgatando as tradições culturais e religiosas das ilhas dos Açores, cruzando-as com influências de culturas tão diversas como a cultura africana ou brasileira, numa linguagem contemporânea. No seu percurso, destacam-se as exposições na Fonseca Macedo - Arte Contemporânea, na Galeria Belo-Galsterer, Galeria Astarté, no Museu Carlos Machado, no Centro Cultural CEEE Érico Verissimo e no Museu Aloísio Magalhães, Brasil, na Fundação Calouste Gulbenkian - Próximo Futuro, no Carpe Diem Arte e Pesquisa, no Museu Soares dos Reis e no Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas.

Isabel Madureira Andrade nasceu em Ponta Delgada, em 1991. A sua formação foi feita na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e desde 2014 tem vindo a participar regularmente em diversas exposições coletivas como Escalas Desejantes no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, Lisboa (2017), Campanha Casa – Museu Medeiros e Almeida, Lisboa (2016) ou Arte Hoje, Sociedade Nacional de Belas-Artes, Lisboa (2014); e exposições individuais como Indícios, Fundação Portuguesa das Comunicações & Galeria Bessa Pereira, Lisboa (2017). Está representada na coleção da Fundação Portuguesa das Comunicações, na coleção da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e em coleções privadas. Fez parte dos seis finalistas do Prémio EDP Novos Artistas, 2019, e foi distinguida com uma Menção Honrosa pelo Júri Internacional do Prémio. Em 2021, na feira Drawing Room Lisboa, Isabel Madureira Andrade foi distinguida com o Prémio Aquisição Fundação Millennium bcp – Talento Emergente. Recentemente, expôs Vasto Universo, uma exposição individual, no Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas.