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JOÃO PENALVAPavlina e o Dr. ErlenmeyerFIDELIDADE ARTE Largo do Chiado, 8 1249-125 Lisboa 16 ABR - 25 JUN 2010 João Penalva tem trabalhado ao longo da sua carreira muitas vezes sobre os ambientes e sobre a memória de uma forma que poderíamos considerar quase antropológica ou arqueológica nas sua pulsão primeira. Mas há muito pouco de pulsão e muito de trabalho árduo, pensamento aprofundado e investigação na sua obra. Em “Pavlina e o Dr. Erlenmeyer”, apresentada na Chiado 8, Penalva fá-lo novamente conseguindo um ambiente sensorial extraordinariamente envolvente e perturbador. Nesta exposição, Penalva consegue uma coerência formal e de significado brilhante, através de uma associação de ideias entre todos os objectos expostos e o filme apresentado, partindo da personagem do Dr. Erlenmeyer. É quase um jogo. O Dr. Erlenmeyer foi um químico nascido em 1825 que entre outras coisas, estudou o conceito de valência que é a base do naftaleno. O naftaleno ou naftalina, é a base daquelas bolas que podemos encontrar nos armários dos nossos pais cujo cheiro afasta as traças. Traças de que fala o filme “Pavlina” e que come os tecidos. A partir daí todos os objectos existentes no espaço expositivo se relacionam entre si sob este tema. Pode parecer um dispositivo simples mas não é, porque o que apreendemos do conjunto de obras é muito mais sensitivo que racional. No entanto, este dispositivo demonstra um profundo trabalho de pensar uma exposição não apenas como um colectivo de obras de arte, mas sim como um todo. Neste caso, a obra de arte maior é mesmo a própria exposição que se torna toda ela numa instalação única, que passa pela recriação de um ambiente profundamente encenado e onírico. Inevitavelmente “Pavlina” (o filme) é a peça central da exposição. É também a única peça que já existia e que serviu de mote à construção da instalação. Vemos a imagem de um insecto (aparentemente uma traça), enquanto ouvimos o relato de “Pavlina K.” entomologista, feito no decurso de um estudo efectuado em 1977 sobre os sonhos na população reformada. O relato é sobre um sonho com traças que eram também o objecto das experiências da Dra. Pavlina. Enquanto ouvimos o relato e vemos o grande plano da traça, as legendas do relato são projectadas num ecrã por um projector de slides. Ouvimos o ruído dos slides a passar ao mesmo tempo que do filme nos chega um som perturbador que se assemelha ao barulho que faz a turbina de um avião. Este som de fundo acompanha-nos enquanto vemos as obras na primeira sala, sem que saibamos ainda de onde vem. É profundamente cinematográfico. É-o pela antecipação, como se estivéssemos no foyer de um grande cinema como os que foram destruídos em Lisboa nos últimos 20 anos e é-o da mesma forma que o silêncio nos filmes de David Lynch, que nunca é a ausência de som, mas sim um som surdo que nos perturba e alimenta a imaginação. Para Walter Benjamim “Aquele que se recolhe perante a obra de arte, mergulha nela, entra nesta obra” (1). Aqui, é fácil recolhermo-nos perante este ambiente quase assustador e assim mergulhar nele. Nesta primeira sala, forrada a pesadas cortinas de veludo onde quase sentimos o cheiro da naftalina, podemos ver vários objectos, que à laia de espólio arqueológico, nos contam a história que Penalva aqui evoca e encena. O ambiente é de tal forma envolvente que o visitante se sente um personagem da narrativa, quase um Poirot ou um Maigret, tentando adivinhar o significado daqueles despojos. João Penalva estudou e reside em Londres desde 1976. E embora a sua primeira exposição individual se tenha realizado em 1983 no Porto, não é sequer anual a frequência expositiva de João Penalva em Portugal. É por isso pena que lhe seja reservado um espaço menos conhecido do grande público, impedindo-o por ventura de tomar conhecimento com o trabalho de um artista tão consistente. Em “Pavlina e o Dr. Erlenmeyer”, João Penalva consegue um cruzamento equilibrado entre um trabalho que é inegavelmente conceptual, mas que tem uma abordagem formal objectiva e sólida permitindo uma comunicação directa com o visitante. NOTAS (1) Benjamin, Walter, Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Relógio D’Água, Lisboa, 1992.
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