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TIAGO BAPTISTAUMA VOZ NA PEDRACLUBE DE DESENHO Rua da Alegria 970 4000-040 Porto 02 MAI - 20 JUN 2026
Ao longo das várias paredes acinzentadas do Clube de Desenho, no Porto, vão surgindo pequenos quadros que intercalam manchas de cor vibrantes e desenhos misteriosos de um mundo não totalmente conhecido. São as obras de Tiago Baptista, reunidas no conjunto intitulado “Uma Voz na Pedra”. Seguindo uma sequência ritmada de quadros expostos na vertical e na horizontal, alternam-se composições de tons escuros com outras mais claras e vibrantes. Numa delas, surge uma forma ondulante, semelhante a uma aranha amarela ou a um sol espiralado, que irrompe pela escuridão de uma névoa densa. Ao lado, um quadro de fundo claro revela uma forma cuja natureza não se percebe exatamente. Parece tratar-se do bico gigante de um pássaro que abre a boca para apanhar qualquer coisa de um chão que não existe.
Tiago Baptista, Sem-tiÌtulo, 2025. Pastel seco sobre papel. © Tiago Baptista
Ao fundo, uma mancha de um azul vibrante ocupa o espaço. Ao aproximarmo-nos dela, percebemos uma forma singular e familiar, uma orelha. Branca e delineada a lápis preto, sobressaem dela pelos que interrompem a serenidade com que observávamos a imagem. Deixa de ser abstrata, ou então, adquire uma abstração ainda maior, pelo simples facto de pairar ali, sozinha, a parte de um todo, sem ligação ao corpo que lhe daria origem. A acompanhá-la estão outras imagens de tons pastel, serenas e claras, que evocam matérias sólidas e rochosas, contrastando com fundos delicados e difusos, quase como se convidassem o espectador a mergulhar nelas.
Tiago Baptista, Sem-tiÌtulo, 2025. Pastel seco sobre papel. © Tiago Baptista
Uma mão com dedos tubulares e grosseiramente desenhados, onde a anatomia parece não ser condição fundamental, remete para a materialidade das coisas. Um símbolo é mesmo isso, a sugestão de algo que, não sendo explicitamente desenhado, é perfeitamente identificado por quem o reconhece e observa. Talvez seja esse o universo de Tiago Baptista, onde a figuração encontra um nível de abstração que quebra a barreira do óbvio, que derruba a nossa perceção de realidade e questiona aquilo que acreditamos ser verdade. Percebemos essa fusão da realidade com a imaginação através da exploração de mundos oníricos inventados pelo próprio artista. É prova disso uma pintura escura de fundo enevoado, de onde surge uma pequena aranha que não se sabe precisar se sobe ou desce por uma parede, a qual, por sua vez, parece pertencer ao interior de um corpo. Um corpo visto do interior, de onde brotam dois pelos, como numa ilustração de um manual de biologia. Que interior misterioso esse, em que habitam seres exteriores a nós e de onde emana uma luz acolhedora. A seu lado, uma paisagem que evoca uma praia, de areal vasto e mar curto, ou o seu inverso, pela utilização de cores que não se assemelham à realidade. Ou talvez pudesse ser ainda a vista do mar captada num dia em que as poeiras do deserto vêm cobrir o ar com o seu manto dourado. Este conjunto de pequenas obras tanto maravilha o olhar, como o intriga. Seres microscópicos ampliados, de tons azuis e vermelhos luminosos, ou flores com pirilampos brancos povoam ambientes escuros, e presenteiam-nos com luz e vida. Formas estranhas, leves como nuvens, flutuam por cima de rios magenta e rosa-pálido, criando a sensação de que se movem connosco, na mesma medida em que permanecem estáticas. Um mundo sem tempo, onde tudo coexiste em harmonia e sem seguir uma lógica cronológica. Dentro dele tudo nasce, nada morre; tudo existe sem fim nem princípio. Como refere Paula Ferreira na folha de sala da exposição, as “visões [de Tiago Baptista], por vezes próximas a devaneios oníricos, são afetas a uma ideia de infância do mundo em que origem e destino tornam-se paradoxalmente indissociáveis.”
Leonor Guerreiro Queiroz


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