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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição Sound Field, 2026, 3+1 Arte Contemporânea. © Bruno Lopes / Cortesia 3+1 Arte Contemporânea


Pedro Paiva, Assobio, 2026. Cerâmica vidrada e ferro, 141 x 45 x 45 cm. © Bruno Lopes / Cortesia 3+1 Arte Contemporânea


Pedro Paiva, Epicurista a Escutar o Interior do Plinto, 2026. Cerâmica vidrada e ferro, 124 x 45 x 45 cm. © Bruno Lopes / Cortesia 3+1 Arte Contemporânea


Vista da exposição Sound Field, 2026, 3+1 Arte Contemporânea. © Bruno Lopes / Cortesia 3+1 Arte Contemporânea


Laurent Montaron, Plate reverb, 2026 Carvalho, aço, componentes eletroÌnicos, pirite, som, 134 x 109 x 10 cm. © Bruno Lopes / Cortesia 3+1 Arte Contemporânea


Luisa Cunha, Alda, 2025. Instalação de som, 01'37''. © Bruno Lopes / Cortesia 3+1 Arte Contemporânea


Helena Almeida, Ouve-me, 1980. Fotografia preto e branco (poliÌptico), 75 x 51 cm. © Bruno Lopes / Cortesia 3+1 Arte Contemporânea


Vista da exposição Sound Field, 2026, 3+1 Arte Contemporânea. © Bruno Lopes / Cortesia 3+1 Arte Contemporânea


Vista da exposição Sound Field, 2026, 3+1 Arte Contemporânea. © Bruno Lopes / Cortesia 3+1 Arte Contemporânea


Vista da exposição Sound Field, 2026, 3+1 Arte Contemporânea. © Bruno Lopes / Cortesia 3+1 Arte Contemporânea


João Ferro Martins, Soundscape #1, 2007. BuÌzio, prateleira, microfone, amplificador, cabo aÌudio, leitor de mp3, som. Dimensões variaÌveis. © Bruno Lopes / Cortesia 3+1 Arte Contemporânea


Chelpa Ferro, Cacho II, 2018. Altifalantes, corda e cabos de aÌudio, 100 x 37 x 20 cm. © Bruno Lopes / Cortesia 3+1 Arte Contemporânea

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COLECTIVA

SOUND FIELD




3 + 1 ARTE CONTEMPORÂNEA
Largo Hintze Ribeiro 2E-F
1250 – 122 Lisboa, Portugal

20 MAR - 09 MAI 2026


 

Artistas
Helena Almeida, Jacopo Benassi, Luisa Cunha, Chelpa Ferro, João Ferro Martins, Lea Managil, Laurent Montaron, Pedro Paiva

 

 

Deslocamo-nos à Galeria 3+1 Arte Contemporânea. Ainda no seu exterior, entrevemos, na transparência dos vidros da galeria, obras evocadoras de arte sonora. As longas vitrinas anunciam-nos peças de Pedro Paiva, em cerâmica vidrada e ferro, caracterizadas por um grande colorido e plasticidade. Podemos ver, no início da exposição Sound Field, um conjunto de cabeças, de uma evidente expressividade, realizadas pelo artista e posicionadas em plintos, ou fixadas sobre a parede. Uma cabeça, de rosto expressionista, solta um trejeito de assobio. Outra peça, também em forma de cabeça, surge pousada sobre um outro plinto. Encontra-se deitada, e pela sua posição, sugere uma ideia de escuta, uma escuta ao próprio interior do plinto.

Estas primeiras peças, realizadas entre 2025 e 2026, anunciam um critério de selecção e uma escolha curatorial bastante heterogénea. A exposição propõe uma viagem a diferentes formas de os artistas invocarem o som, seja por meio da instalação, do áudio, da fotografia, da performance, da escultura, entre outros.

Nas imediações das peças de Pedro Paiva, na mesma sala, surge a obra do italiano Jacobo Benassi, Embryo al Btomic, 2012-2026. O artista alia a fotografia a uma actividade escultórica particular, com a aplicação de molduras personalizadas sobre imagens a preto e branco. Nesta primeira obra, que se descobre no início da exposição, apresenta-se uma fotografia de um palco vazio ocupado por uma bateria. A fotografia aparece condicionada por uma armadura em madeira. Uma outra imagem, mais pequena, também emoldurada, sobrepõe-se à primeira, e exibe um grupo de espectadores atentos a um espectáculo musical. Benassi é adepto de subculturas e um artista multidisciplinar. Faz-se representar, de modo performativo, e provocador, nas suas obras fotográficas. As imagens que utiliza apresentam frequentemente uma aparência crua e marcante da realidade. Flirtam com o mundo da música e a cultura Punk rock e underground.

 

Jacopo Benassi, Embryo al Btomic, 2012-2026. Impressão Fine art, moldura de artista, vidro, fita 114 × 144 × 10 cm. Cortesia 3+1 Arte Contemporânea

 

Nestas primeiras duas instalações observamos uma abordagem ao som, de forma implícita, encarnada na peça escultórica e na imagética fotográfica. Não há som propriamente dito, mas uma ideia, uma sugestão de som.

Num lugar já mais esconso da galeria, que dá entrada para a sala ampla do piso inferior, surge a instalação Plate Reverb, 2026, de Laurent Montaron. Uma vitrina em forma de quadro exibe uma estrutura metálica ligada a piezos eléctricos, ou microfones de contacto. A peça, interligada por uma dança de fios e cabos, que se estendem até ao solo da galeria e se unem a uma delgada pedra de pirite fúlgida, produz, por fim, um som granular e reverberante sempre que se aproxima o visitante.

Alda, a tocante instalação de Luísa Cunha, de 2025, envolve o visitante. Uma fileira de pequenos microfones, neutros, fixados à parede e à altura dos nossos corpos, emitem sons de vozes, em que cada uma anuncia um nome de mulher distinto. A voz reconhece-se, é da artista, mas a entoação, ou o modo como o nome é proferido, confere a cada voz, uma identidade, uma individualidade, uma personalidade. De modo mecânico, fios partem das pequenas colunas, onde a cor, sobretudo vermelha, alude a uma possível ligação com o orgânico e com a fragilidade da vida.

A artista usa a gravação de voz e o suporte áudio num esforço consciente de ausência de visualidade. O que fica é a presença do som e o reconhecimento do uso do aparelho, num modo sobretudo funcional e neutral, que o emite e propaga.

Numa última sala, habitualmente usada para expor obras do acervo da galeria, foi ocupada, desta vez, com uma boa amostra das peças que compõem a exposição Sound Field, agora patente.

Nesta sala podemos ver obras de Lea Managil, de João Ferro Martins, de Benassi, este último de uma irreverência roqueira, e o impressionante políptico de Helena Almeida de título Ouve-me, 1980. Compreende uma sequência de fotografias a preto e branco, em que a artista se encontra retratada de perfil. Um balão de fala enegrecido desponta da boca da artista e ilustra a impossibilidade de comunicar.

Uma cadeira, Fat Chair, 2008, de João Ferro Martins, evoca a cadeira com o mesmo nome, Fat Chair, 1964-1985, de Joseph Beuys, e talvez, em certa medida, uma ideia de cura? Mas agora atribuída à música, assente na convicção de que muitas vezes a música é remédio e tratamento para maleitas físicas e espirituais.

 

João Ferro Martins, Fat chair, 2008. Cadeira, monitor de aÌudio, leitor de CDs, ficha tripla, cabo eleÌtrico, cabo audio, som (loop). 85 x 40 x 40 cm. © Bruno Lopes / Cortesia 3+1 Arte Contemporânea

 

A coluna, colocada por João Ferro Martins numa cadeira antiga, com uma configuração semelhante à que Beuys utilizou, como é óbvio desperta várias interpretações. Não se esgota em impressões, ou suposições de um mero visitante isolado, mas não deixa de ser verdade que Beuys enalteceu a espiritualidade, a criatividade, e procurou distanciar-se do determinismo, do racionalismo e autodomínio alemão. Bem como do legado ideológico que deixaram e que a muitos fez sofrer.

Também é verdade que a mesma coluna, que amplia o som, é também evocadora da sociedade do espectáculo, na medida em que foi propagadora de ideologia, ferramenta de opressão e domínio sobre as massas. Marshall McLuhan (1911-1980) já alertava, nos anos 60, – em plena era da informação, e da comunicação – para o impacto das tecnologias de informação na sociedade e os seus efeitos globais. É célebre a sua frase “The medium is the message”.

Outras invocações possíveis, presentes na peça Fat Chair, 2008, são as relações prováveis que que se estabelecem com o conceito de intertextualidade, de superação dos meios. O som encarado como ideia, como linguagem. Afeto à arte conceptual, ao campo duchampiano e ao ready-made.

Quando nos posicionamos sobre uma obra de arte sonora, importa debruçarmo-nos sobre as questões de ordem sistémica da arte, bem como o seu domínio relacional. A obra de arte como interstício social, segundo Nicolas Bourriaud: A possibilidade de uma arte relacional (uma arte que toma como horizonte teórico a esfera das interacções humanas e o seu contexto social mais do que a afirmação de um espaço simbólico autónomo). Assiste-se, por isso, também, a uma crescente urbanização da experiencia artística.

A arte sonora compreende, como disciplina artística, uma componente multissensorial e interdisciplinar. Com a preocupação na experiência do ouvinte, sobretudo no intento de desafiar a novas escutas e descobertas, articula tecnologia, instalação, escultura, artes visuais, música experimental, composições sónicas abstractas. Começou com Russolo e as suas máquinas intonarumori (1913), e perdurou com as incursões dadaístas, prosseguiu com Marcel Duchamp, Pierre Schaeffer, e ainda as composições de John Cage, como a partitura 4’33’’.

Num modo silencioso de evocar o som, articulado com a memória e as sensações que daí ressoam e perduram na mente, encontramos a peça de João Ferro Martins, Compêndio #3, uma cassete áudio, protegida numa moldura. Outra obra, presente na exposição, representativa da conceptualização do som, e reverberante na memória, é a peça Compêndio #27. Consiste num prato de bateria pintado a acrílico, denunciando uma conexão de João Ferro Martins com a obra pictórica.

Ou a peça de Chelpa Ferro, exemplificativa da ideia de som, Cacho II, 2018, que envolve uma profusão ou emaranhado de cabos, reunidos em molhos, e pendurados sobre a parede.

 

Lea Managil, Corpo pede fio, 2026. Silicone, pigmento, folhas de amoreira preservadas em glicerina, mini motor. 19 x 7 x 7 cm. © Bruno Lopes / Cortesia 3+1 Arte Contemporânea

 

As peças de Lea Managil, Roca, Corpo Pede Fio, de 2026, demonstram uma abordagem sonora interdisciplinar. Pequenas esculturas orgânicas, cobertas de folhas de amoreira, preservadas em glicerina, manifestam sons ruminantes, e evidenciam pequenos movimentos circulares (pequenas lagartas).

 

 

 

 

Carla Carbone

Estudou Desenho no Ar.Co e Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Completou o Mestrado em Ensino das Artes Visuais. Escreve sobre Design desde 1999, primeiro no Semanário O Independente, depois em edições como o Anuário de Design, revista arq.aDIFParq. Algumas participações em edições como a FRAMEDiário DigitalWrongwrong, e na coleção de designers portugueses, editada pelo jornal Público. Colaborou com ilustrações para o Fanzine Flanzine e revista Gerador.

 



CARLA CARBONE