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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição Um Silabário por Reconstruir, Culturgest Porto. Vista de Vadios (2018) de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira. © Renato Cruz Santos / Cortesia Culturgest


Vista da exposição Um Silabário por Reconstruir, Culturgest Porto: Luisa Cunha, Drop the bomb! (1994). © Renato Cruz Santos / Cortesia Culturgest


Vista da exposição Um Silabário por Reconstruir, Culturgest Porto: vista da obra O Povo reunido jamais será (2009-2010), de Carla Filipe. © Renato Cruz Santos / Cortesia Culturgest


Vista da exposição Um Silabário por Reconstruir, Culturgest Porto: vista de O Povo reunido jamais será (2009-2010), de Carla Filipe. © Renato Cruz Santos / Cortesia Culturgest


Vista da exposição Um Silabário por Reconstruir, Culturgest Porto: vista de The Goddess Nut (1989) Nancy Spero. © Renato Cruz Santos / Cortesia Culturgest


Vista da exposição Um Silabário por Reconstruir, Culturgest Porto: vista de The Goddess Nut (1989) Nancy Spero. © Renato Cruz Santos / Cortesia Culturgest


Vista da exposição Um Silabário por Reconstruir, Culturgest Porto: vista de Humano Jarra (2021) de Pedro Huet. © Renato Cruz Santos / Cortesia Culturgest


Vista da exposição Um Silabário por Reconstruir, Culturgest Porto: vista de Estante e Coleção... (2000) de Fernanda Fragateira. © Renato Cruz Santos / Cortesia Culturgest


Vista da exposição Um Silabário por Reconstruir, Culturgest Porto: vista de Estante e Coleção... (2000) de Fernanda Fragateira. © Renato Cruz Santos / Cortesia Culturgest


Vista da exposição Um Silabário por Reconstruir, Culturgest Porto: ao fundo, Sem título (2003) de Matt Mullican. © Renato Cruz Santos / Cortesia Culturgest


Vista da exposição Um Silabário por Reconstruir, Culturgest Porto: vista de Rombordados(2020) de Von Calhau!. © Renato Cruz Santos / Cortesia Culturgest


Vista da exposição Um Silabário por Reconstruir, Culturgest Porto: vista de Rombordados(2020) de Von Calhau!. © Renato Cruz Santos / Cortesia Culturgest


Vista da exposição Um Silabário por Reconstruir, Culturgest Porto: vista de Untitled (N’en Finit Plus) (2010-2011), de João Onofre. © Renato Cruz Santos / Cortesia Culturgest


Still do vídeo Untitled (N’en Finit Plus) (2010-2011), de João Onofre. © João Onofre / Cortesia do Artista

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UM SILABÁRIO POR RECONSTRUIR IV




CULTURGEST (PORTO)
Edifício Caixa Geral de Depósitos Avenida dos Aliados, 104
4000-065 Porto

07 MAR - 28 JUN 2026


 

 

Com curadoria de José Maçãs de Carvalho e Filipa Valente, é na Culturgest Porto que se apresenta o último momento do projecto curatorial e expositivo Um Silabário por Reconstruir.

Integrado numa política de descentralização nacional para a arte, no âmbito de uma candidatura à Rede Portuguesa de Arte Contemporânea-RPAC, o projeto expositivo da autoria de José Maçãs de Carvalho promove a investigação e circulação de obras de artistas nacionais e estrangeiros pertencentes à Coleção de Arte Contemporânea do Estado, Coleção Caixa Geral de Depósitos e Coleção António Cachola. Em parceria com os Municípios de Coimbra, Óbidos, Elvas e a Culturgest, projetando-se em quatro lugares e momentos distintos - CACC e Sala da Cidade de Coimbra; Museu de Arte Contemporânea de Elvas; Galeria NovaOgiva, em Óbidos e Culturgest Porto – colocando em relação obras que convocam uma ideia narrativa, acresce-se o convite a jovens curadores na investigação e seleção das peças de cada polo, assim como diversidade arquitetónica de cada espaço que acolheu o projeto e influenciou o desenho expositivo.

Submetida a uma temática especifica, José Maçãs de Carvalho elegeu como mote de Um Silabário por Reconstruir considerar a obra de arte visual por analogia à obra literária, numa relação entre a palavra e a imagem – o dizível e o visível – apresentando como leitmotiv a existência de um potencial narrativo em todas as obras. A partir dos universos artístico e literário – incluindo elementos paratextuais – observamos a diversidade de peças que compõem a exposição que entre pintura, desenho, bordado, escultura, vídeo e instalação, sugerem uma leitura narrativa.

Na antecâmara da Culturgest Porto, misturando-se com os sons da rua, a voz de Luisa Cunha (1949) repete num loop constante a frase Drop the bomb! A atualidade do texto sonoro de 1994 na sua relação com os acontecimentos mais recentes no mundo, surpreende-nos e serve de preâmbulo à mostra enquanto fragmento de uma narrativa em potência.

Som que reencontramos, no interior do edifício, na instalação de Carla Filipe (1973), O Povo reunido jamais será (2009-2010) em que quinze canções de trabalho recolhidas por Giacometti e Lopes-Graça ativam o espaço. Acompanhados por músicas regionais [1] que remetem para atividades agrícolas, marítimas e práticas religiosas, observamos os coloridos cartazes dispostos na parede e o conjunto de cadeiras, empilhadas ao centro, de uma assembleia que parece ter sido adiada. Entre a promessa de uma ação coletiva – presente no som da instalação – e o seu apagamento – pela ausência de palavras nos cartazes de propaganda política – a instalação, cujo título suspende uma máxima da revolução de 1974 em Portugal, conserva a partir da sua dimensão estética, a memória de momentos políticos em potência, ao mesmo tempo que nos permite projetar novas narrativas e palavras nos cartazes-manifestos.

Num outro ponto da exposição, deparamo-nos com as obras de dois artistas de diferentes gerações e geografias: a americana Nancy Spero (1926-2019) e o português Pedro Huet (1993). De um lado, a colagem impressa sobre papel The Goddess Nut (1989) de Spero convoca a centralidade da figura feminina, em particular da deusa egípcia do céu e dos astros, em imagens que se repetem como a do exército de mulheres que caminhando com confiança, deitam a língua de fora, numa representação figurada da voz e da palavra enquanto armas. Do lado oposto, Pedro Huet apresenta Humano Jarra (2021), um exército de figuras que se vão metamorfoseando e cujas sombras projetadas na parede criam uma dramaturgia, potenciando a relação teatral e performativa no encontro das obras dos dois artistas.

Da dramaturgia seguimos para a tragédia em Estante e Coleção de livros de autores que se suicidaram (2000) de Fernanda Fragateira que, instalada na parede, convida o espetador a aproximar-se da estante serpenteante tornando-se num leitor, não só dos títulos das obras e seus autores, mas também um leitor de si mesmo, ao confrontar-se com a fragilidade da existência. Para além do gesto da escrita, Fernanda Fragateiro apresenta, num equilíbrio entre forma e função, composições meticulosas que nos convidam a aproximar e quase a sentar nas almofadas cujos padrões, que evocam o modernismo e a pintura de Mondrian, dialogam, por sua vez, com o amarelo de Mullican (1951) em Sem título (2003) cor que no universo imaginário e iconografia cromática do artista se associa ao mundo da arte (Mundo emoldurado). De destacar nesta obra, a presença de uma linguagem primitiva, entre o técnico e o semântico, na qual descobrimos rodas, automóveis, máquinas e representações de caras, entre outras.

 

Vista da exposição Um Silabário por Reconstruir, Culturgest Porto. Em primeiro plano, Cruz (2006) de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira; Ao fundo, Rombordados (2020) de Von Calhau!© Renato Cruz Santos / Cortesia Culturgest

 

A história portuguesa e a sua relação com o mar, é-nos revelada em Cruz (2006) de João Pedro Vale (1978) e Nuno Alexandre Ferreira (1973), obra de cariz irónico que adquire novas leituras e significados à medida que a observamos: inicialmente uma escultura em forma de âncora que, posteriormente percebemos estar revestida a caricas de água Luso e cujo título – Cruz – volta a conferir-lhe um novo sentido, problematizando a construção ideológica da memória coletiva, aludindo de modo humorístico à construção de uma identidade nacional e explorando a ideia de monumento histórico. Próxima, a obra de leitura caleidoscópica de Von Calhau! Rombordados (2020), revela-nos figuras ambíguas a amarelo que sobre um fundo negro se vão transformando, mediante um jogo de desenhos e de palavras bordadas que fazem referências a várias temáticas da exposição, desde a morte à questão escatológica. Bastante gráfico, o conjunto possui relações de proximidade com outras obras na exposição, nomeadamente um dos bordados que numa mise en abyme, revela um rosto dentro de uma boca, remetendo para a questão da voz e da palavra, também presente nas obras de Luisa Cunha e Nancy Spero. À manualidade do conjunto que, inicialmente entendemos como desenhos, acresce-se o engano e o duplo sentido das figuras bordadas, estabelecendo-se uma relação com a peça central, Vadios (2018) de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira.

 

Vista da exposição Um Silabário por Reconstruir, Culturgest Porto. Em primeiro plano, obra Vadios (2018) de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira. © Renato Cruz Santos / Cortesia Culturgest

 

No átrio octogonal do edifício, iluminada pela claraboia envidraçada e perfeitamente integrada na arquitetura do espaço, a escultura apresenta-se como estrutura de oito lados, parcialmente tapada por meia parede circular, que convida à participação do espectador. O desenho da peça é uma homenagem à teoria de Foucault sobre o Panótico: ideia de que nos autorregulamos e nos autocensuramos porque não sabemos quem nos está a observar. Num convite ao espetador para se libertar da censura e experienciar o desejo, encontramos no seu interior, cabinas privadas com pequenos buracos à altura da virilha, num incentivo à liberdade sexual dentro de um espaço público. Revestidas a graffiti, nas paredes da escultura lêem-se frases de poetas portugueses – Judith Teixeira, António Botto e Raul Leal – que ousaram escrever livros com subtexto gay; palavras de código como tea room, termo usado no séc. XIX para se referir a casas de banho públicas e criar um convite a uma relação sexual; e o próprio título da obra – Vadios – termo usado nos relatórios policiais para descrever pessoas que tinham relações homossexuais numa altura em que era proibido.

É no último piso da Culturgest, mais concretamente no espaço da caixa-forte, que se apresenta a obra que encerra a exposição: Untitled (N’en Finit Plus) (2010-2011), de João Onofre. Num exercício tautológico, observamos uma rapariga a cantar, no interior de uma vala, sobre a sua própria solidão. Num loop constante, à semelhança da obra de Luisa Cunha – como se a exposição estivesse num contínuo – a narrativa mantem-se em aberto, não sendo inocente a sua exibição no espaço do cofre, reforçando-se a ideia de descer à terra. Cantando para si mesma, num exercício de autorrepresentação, ouvimos a melodia de Needles and Pins (1963), com a adaptação da letra original numa reflexão existencial. Neste momento final de Um Silabário por reconstruir IV, regressamos ao registo semântico da presença da palavra, mas se no início com Drop the bomb, eramos confrontados com uma visão fatalista da existência humana, agora encontramos a possibilidade do amor.

 

 

 

 

Mafalda Teixeira

Mestre em História de Arte, Património e Cultura Visual pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, estagiou e trabalhou no departamento de Exposições Temporárias do Museu d’Art Contemporani de Barcelona. Durante o mestrado realiza um estágio curricular na área de produção da Galeria Municipal do Porto. Atualmente dedica-se à investigação no âmbito da História da Arte Moderna e Contemporânea, e à publicação de artigos científicos.

 

 

 


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Notas

[1] De destacar a importância do som na exposição, nomeadamente os cânticos de trabalho da obra de Carla Filipe cuja presença nos acompanha ao longo da mostra, trazendo uma outra camada e ligação com a arquitetura do espaço, ao serem entoados num local de trabalho de um edifício estatal.

 

 



MAFALDA TEIXEIRA