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YAYOI KUSAMAObsessão InfinitaINSTITUTO TOMIE OHTAKE Rua Coropés, 88 - Pinheiros São Paulo - SP, 05426-010 22 MAI - 27 JUL 2014 O paradoxo da obra de Yayoi Kusama. Ela almeja auto-obliteração e conquista recorde de públicoUm milhão e meio de visitas, sem contar os visitantes da cidade de São Paulo ou da Cidade do México. Esse é o público que a exposição Obsessão infinita, de Yayoi Kusama, acumulou nos primeiros 10 meses de itinerância pela América Latina, onde passou por Buenos Aires, Rio de Janeiro e Brasília. No momento, a exposição está aberta ao público no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, e ainda irá para o Museu Tamayo na Cidade do México. A mostra reúne, cronologicamente, mais de 100 obras da renomada artista japonesa apresentando claramente três fases de sua dedicação à arte: pinturas e esculturas dos anos 1950/1960, sua produção em Nova York durante os anos de 1970 e o seu trabalho mais recente, a partir dos anos 1990. Entre telas, esculturas flexíveis e instalações que assumem de forma mais direta o desejo de incorporar o espectador, as questões apresentadas ou, se preferirem, o drama psicológico de Kusama é diluído pela exposição. Obsessão infinita é um convite a refletir sobre algo constante, interminável, pessoal e sempre tocante. A obsessão de Kusama está não somente na temática fálica ou no uso dos pontos que a fizeram ser conhecida como Princess of Polka-dots, mas também na percepção do ritmo acelerado de trabalho criativo. No decorrer da exposição, ao cruzar as datas e obras expostas, percebemos que a insistência de Kusama em seus dramas é cotidiana, diária, muito provavelmente por eles serem realmente cotidianos. Yayoi Kusama foi diagnosticada no final de 1961 com transtorno obsessivo compulsivo e este acaba por ser seu ambiente de exploração artística de então até a atualidade. “Artistas não costumam expressar seus próprios complexos psicológicos diretamente, mas eu adoto meus complexos e medos como temas”, frase da artista expressa logo na primeira página do catálogo da exposição Obsessão infinita. A adoção dos medos e traumas como motivo para obra artística é reforçada a todo tempo por Kusama. Quando remonta suas memórias de infância, a artista que nasceu em uma família burguesa de um Japão rural, em guerra e muito tradicional, conta que era “convidada” por sua mãe para espionar os casos extra-conjugais amorosos de seu pai. Um anti impulso voyeur parece ter se estabelecido como trauma apontando um caminho para compreensão da compulsão de Kusama por formas fálicas e também para os happenings das chamadas orgias organizadas por ela na década de 1960. O caráter traumático presente na obra de Kusama apresenta diversas questões de ordem narcisística mas não é de todo apenas isso. Sua fixação por estar imersa em suas próprias obras, percebida pelas inúmeras fotografias nas quais ela parece desaparecer e ao mesmo tempo ser o centro de tudo, evidencia não só um desejo de reconhecimento, como também uma luta política: apesar de “fazer parte” da geração de jovens artistas extremamente atuantes em Nova York nos anos de 1960, sua exclusão das grandes galerias – muito provavelmente por questões de gênero e etnia – a fez colocar-se em uma posição de destaque em suas representações e a direcionou para um caminho no qual a auto-suficiência era necessária. Luta política também evidente com ações como a carta aberta assinada por Kusama ao senador Richard Nixon oferecendo-se a ele sexualmente caso ele acabasse com a guerra no Vietnã, isso, muito antes de artistas serem levados a julgamento por enforcar bandeiras. Kusama carrega ainda em sua biografia uma participação informal na Bienal de Veneza de 1966 com a performance Narcisus Garden, na qual uma piscina de bolas de espelho rodeavam a artista. De forma extra-oficial, a artista colocou 1500 bolas em um gramado em meio aos pavilhões da Bienal e vendia cada uma das bolas por US$ 2. A performance acabou com intervenção policial. O reencontro da artista com a Bienal de Veneza aconteceu apenas em 1993, quando representou oficialmente o Japão. A primeira retrospectiva da artista na America Latina, a exposição Obsessão infinita, não deixa a desejar em absolutamente nada. A montagem está incrível, a curadoria foi capaz de fazer o público se sentir imerso na obra e traumas de Kusama de forma delicada e sensível. Atualmente com 84 anos, dos quais os últimos 37 vividos em uma instituição psiquiátrica por opção, Kusama e a curadoria da mostra parecem diminuir o nervosismo transmitido em suas peças, plantando uma pequena semente de aparente aceitação, ou desmistificação, de psicopatologias. Pareceu-me difícil não sair da mostra questionando o contexto mundial da banalização dos distúrbios mentais e uma possível volta do conceito artista-gênio. As exposições de Kusama na América Latina têm produção do Instituto Tomie Ohtake e curadoria de Philip Larratt-Smith (ex-curador do Malba - Fundación Constantini, Buenos Aires) e Frances Morris (curadora da retrospectiva de Kusama no Tate Modern, de Londres).
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