Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da instalação Inifity Mirror Room – Phalli’s Field (or Floor Show), apresentada a primeira vez em 1965.


Vista da instalação I’m Here, but Nothing (2000-2014)


Ascension of Polkadots on the Trees (2006), Bienal de Singapura.


Imagem da instalação Infinity Morrored Room – Filled with the Brilliane of Life, das instalações mais recentes da artista datada de 2011. Cortesia da galeria Victoria Miro, Londres.


Yayoi Kusama, 2011.

Outras exposições actuais:

COLECTIVA

1º CICLO EXPOSITIVO 2026


Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva, Lisboa
CATARINA REAL

SUSANA PILAR

NOT ALONE


Galleria Continua (Paris - Marais), Paris
FILIPA BOSSUET

JOSÉ MAÇÃS DE CARVALHO

21 MINUTES POUR UNE IMAGE


CAPC - Círculo de Artes Plásticas - Sede, Coimbra
CONSTANÇA BABO

WILFRID ALMENDRA

HARVEST


Galeria Municipal de Arte de Almada, Almada
CARLA CARBONE

RITA MAGALHÃES

FACE A FACE – RITA MAGALHÃES E A NATUREZA-MORTA NA COLEÇÃO DO MNSR


Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto
MARC LENOT

SUSANA ROCHA

LEAKING BODIES


Plato (Porto), Porto
SANDRA SILVA

ANDRÉ ROMÃO

INVERNO


Galeria Vera Cortês (Alvalade), Lisboa
MARIANA VARELA

PEDRO CASQUEIRO

DETOUR


MAAT, Lisboa
CARLA CARBONE

HUGO LEITE, ED FREITAS E THALES LUZ

EU SOU AQUELE QUE ESTÁ LONGE


Espaço MIRA, Porto
LEONOR GUERREIRO QUEIROZ

ANNE IMHOF

FUN IST EIN STAHLBAD


Museu de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto
MAFALDA TEIXEIRA

ARQUIVO:


YAYOI KUSAMA

Obsessão Infinita




INSTITUTO TOMIE OHTAKE
Rua Coropés, 88 - Pinheiros
São Paulo - SP, 05426-010

22 MAI - 27 JUL 2014

O paradoxo da obra de Yayoi Kusama. Ela almeja auto-obliteração e conquista recorde de público



Um milhão e meio de visitas, sem contar os visitantes da cidade de São Paulo ou da Cidade do México. Esse é o público que a exposição Obsessão infinita, de Yayoi Kusama, acumulou nos primeiros 10 meses de itinerância pela América Latina, onde passou por Buenos Aires, Rio de Janeiro e Brasília. No momento, a exposição está aberta ao público no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, e ainda irá para o Museu Tamayo na Cidade do México. A mostra reúne, cronologicamente, mais de 100 obras da renomada artista japonesa apresentando claramente três fases de sua dedicação à arte: pinturas e esculturas dos anos 1950/1960, sua produção em Nova York durante os anos de 1970 e o seu trabalho mais recente, a partir dos anos 1990. Entre telas, esculturas flexíveis e instalações que assumem de forma mais direta o desejo de incorporar o espectador, as questões apresentadas ou, se preferirem, o drama psicológico de Kusama é diluído pela exposição. Obsessão infinita é um convite a refletir sobre algo constante, interminável, pessoal e sempre tocante.

A obsessão de Kusama está não somente na temática fálica ou no uso dos pontos que a fizeram ser conhecida como Princess of Polka-dots, mas também na percepção do ritmo acelerado de trabalho criativo. No decorrer da exposição, ao cruzar as datas e obras expostas, percebemos que a insistência de Kusama em seus dramas é cotidiana, diária, muito provavelmente por eles serem realmente cotidianos. Yayoi Kusama foi diagnosticada no final de 1961 com transtorno obsessivo compulsivo e este acaba por ser seu ambiente de exploração artística de então até a atualidade. “Artistas não costumam expressar seus próprios complexos psicológicos diretamente, mas eu adoto meus complexos e medos como temas”, frase da artista expressa logo na primeira página do catálogo da exposição Obsessão infinita. A adoção dos medos e traumas como motivo para obra artística é reforçada a todo tempo por Kusama. Quando remonta suas memórias de infância, a artista que nasceu em uma família burguesa de um Japão rural, em guerra e muito tradicional, conta que era “convidada” por sua mãe para espionar os casos extra-conjugais amorosos de seu pai. Um anti impulso voyeur parece ter se estabelecido como trauma apontando um caminho para compreensão da compulsão de Kusama por formas fálicas e também para os happenings das chamadas orgias organizadas por ela na década de 1960.

O caráter traumático presente na obra de Kusama apresenta diversas questões de ordem narcisística mas não é de todo apenas isso. Sua fixação por estar imersa em suas próprias obras, percebida pelas inúmeras fotografias nas quais ela parece desaparecer e ao mesmo tempo ser o centro de tudo, evidencia não só um desejo de reconhecimento, como também uma luta política: apesar de “fazer parte” da geração de jovens artistas extremamente atuantes em Nova York nos anos de 1960, sua exclusão das grandes galerias – muito provavelmente por questões de gênero e etnia – a fez colocar-se em uma posição de destaque em suas representações e a direcionou para um caminho no qual a auto-suficiência era necessária.

Luta política também evidente com ações como a carta aberta assinada por Kusama ao senador Richard Nixon oferecendo-se a ele sexualmente caso ele acabasse com a guerra no Vietnã, isso, muito antes de artistas serem levados a julgamento por enforcar bandeiras. Kusama carrega ainda em sua biografia uma participação informal na Bienal de Veneza de 1966 com a performance Narcisus Garden, na qual uma piscina de bolas de espelho rodeavam a artista. De forma extra-oficial, a artista colocou 1500 bolas em um gramado em meio aos pavilhões da Bienal e vendia cada uma das bolas por US$ 2. A performance acabou com intervenção policial. O reencontro da artista com a Bienal de Veneza aconteceu apenas em 1993, quando representou oficialmente o Japão.

A primeira retrospectiva da artista na America Latina, a exposição Obsessão infinita, não deixa a desejar em absolutamente nada. A montagem está incrível, a curadoria foi capaz de fazer o público se sentir imerso na obra e traumas de Kusama de forma delicada e sensível. Atualmente com 84 anos, dos quais os últimos 37 vividos em uma instituição psiquiátrica por opção, Kusama e a curadoria da mostra parecem diminuir o nervosismo transmitido em suas peças, plantando uma pequena semente de aparente aceitação, ou desmistificação, de psicopatologias. Pareceu-me difícil não sair da mostra questionando o contexto mundial da banalização dos distúrbios mentais e uma possível volta do conceito artista-gênio.

As exposições de Kusama na América Latina têm produção do Instituto Tomie Ohtake e curadoria de Philip Larratt-Smith (ex-curador do Malba - Fundación Constantini, Buenos Aires) e Frances Morris (curadora da retrospectiva de Kusama no Tate Modern, de Londres).


Isadora Hofstaetter Pitella