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BRIDGET RILEYBRIDGET RILEYHAYWARD GALLERY South Bank Centre Belvedere Road London SE1 8XZ 23 OUT - 26 JAN 2020
Talvez por conta desta forte ligação com a cultura local ou mesmo por ter me passado despercebido, foi essa a primeira em vez que vi o trabalho de Bridget Riley e atentei como as suas contribuições foram marcos para a história da arte. Uma discussão hoje tanto em voga sobre a percepção – meu repertório, conhecimento, idade, corpo e até sinapses nervosas determinam a maneira como eu percebo uma obra de arte que é totalmente diferente da sua experiência com ela – foi grandemente nutrida por Bridget Riley e seus estudos sobre a visão e a “percepção em ação”. Composta por pinturas em tela e outras pinturas feitas diretamente nas paredes da Hayward Gallery, a exposição não é pulsante e nem apaixonante como dizem os mesmos críticos britânicos. Ela é sóbria e racional e tem o objetivo atingido de reiterar a importância da artista para essa discussão sobre o olhar.
Bridget Riley, Cataract 3, 1967 © Bridget Riley 2019.
A primeira coisa que se deve ter em mente é que as pinturas de Riley são mesmo pinturas feitas à mão, e não composições digitais, adesivos ou serigrafias. As formas são tão perfeitas, as cores tão homogéneas e a superfície das pinturas tão lisas que esquecemos que aquilo não foi feito num programa de computador. O interesse maior de Riley é jogar com linhas retas e curvas e as mais diversas cores para incitar o nosso sistema nervoso de maneiras diferentes e, consequentemente, brincar com a percepção do que vemos como espectadores. O trabalho disciplinado e rigoroso faz com que muitas das pinturas se mexam perante os nossos olhos, por conta do ritmo que ela cria nas suas telas. É uma velocidade visual: os olhos não conseguem parar nas bolinhas ou nas linhas e ficam sendo estimulados a mexer o tempo todo, dando a sensação de que a pintura está em movimento. “É vendo que a pintura começa a viver”, disse lindamente a artista a Sir John Leighton.
Bridget Riley, Pause, 1964. © Bridget Riley 2019.
Uma das primeiras salas da exposição mostra as composições em preto e branco que ela começou a fazer nos anos 1960 e que se focavam na forma e no ritmo para deixar mais evidente a capacidade da pintura “se mexer”. Em “Kiss”, ela usa dois opostos – branco e preto, curva e reta – para romantizar as formas. Elas se tocam levemente, como se estivessem dando um beijinho. Em 1967, ela começou a usar cores já que também queria entender como enxergamos uma cor ou como vemos a luz como matéria. O que esta e aquela cor, colocadas lado-a-lado, nos fazem enxergar, ou como esta e aquela cores provocam um ritmo para o olhar. Essas composições estão espalhadas por diversas salas da exposição, pintadas sobre tela ou diretamente na parede, e feitas grande parte por assistentes com quem ela vem trabalhando desde os anos 1960. Num trabalho com quê de Sol Lewitt – que com as suas “Instruções” possibilita qualquer pessoa a pintar suas obras na parede – Riley mostra o distanciamento que tem com seu próprio trabalho, num estudo frio de forma, estrutura, cor, tom, tempo e escala.
Bridget Riley, Pink Landscape, 1960 © Bridget Riley 2019.
Ao mesmo tempo, também é interessante perceber num segundo momento da exposição, que algumas das suas experimentações mais antigas partem de pinturas de mestres como Georges Seurat e suas naturezas e paisagens pontilhadas. As referências da jovem artista não eram, então, estéticas do construtivismo russo como se poderia pensar, mas o uso da cor em paisagens impressionistas. Comedida e equilibrada, a exposição não traz grandes surpresas – seria adorável poder ver o seu processo de trabalho, por exemplo – mas presenteia Riley com uma merecida retrospectiva.
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