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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista parcial da Instalação Meia Pensão, Galeria do Sol, 2022.


Vista parcial da Instalação Meia Pensão, Galeria do Sol, 2022.


Anchors for restless minds, exposição individual 'Não era um coração a bater', Galeria do Sol, 2017.


Anchors for restless minds, exposição individual 'Não era um coração a bater', Galeria do Sol, 2017.


Guilty Souls, exposição colectiva ZebraStraat Art Center, 2010.

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Centro Cultural de Belém, Lisboa
RODRIGO FONSECA

ARQUIVO:


LEONOR PARDA

MEIA PENSÃO (PARTE 2)




GALERIA DO SOL / RUA DO SOL
Rua Duque Loulé 206
4000-324 Porto

24 FEV - 20 MAR 2022

Estes corpos que nos habitam

 

 

No primeiro andar da galeria do Sol encontra-se a outra parte do projecto Meia Pensão da autoria de Leonor Parda. [1] Deparamo-nos com um ambiente cru, meio abandonado ou simplesmente em suspenso. Uma suspensão entre acções, entre algo que aconteceu e um futuro incógnito, entre estruturas, esponjas, almofadas e panejamentos que também comungam desta interrupção. Este trabalho em processo vai sendo construído ao longo da residência/instalação em colaboração com outros artistas convidados e do público que acede ao espaço e o ocupa.

A artista recicla os materiais de trabalhos prévios, uma prática que utiliza desde o primeiro abrigo, ao mesmo tempo que vai respigando o que encontra nas ruas ou fábricas. Constrói estruturas que na sua maioria fogem aos padrões habituais daquilo que seria um sofá ou uma mesa, por exemplo, ou até mesmo um fraldário. O público vai nomeando e estabelecendo relações com o que conhece. A cama de metal faz lembrar uma prisão, mas a luz vermelha, confunde-nos. Parda pretende que as instalações sejam exploradas para além da visão. Não estamos numa exposição para ver, mas também para tocar, para fazer parte, ficar, para conversarmos e alterarmos o que tocamos; para nos tornarmos co-autores. A artista procura, assim, uma certa perda de controlo, pelo desconhecimento do que esse encontros possam ou não despoletar.

 

Vista parcial da Instalação Meia Pensão, Galeria do Sol, 2022.

 

Este quarto, que se pode transformar num espaço de descanso e de pernoita, transporta-nos a outros tantos abrigos que a artista criou com os quais o conceito de habitabilidade começou a ser explorado. A estética utilizada remete-nos, quase imediatamente, para os refúgios que os sem abrigo constroem com o que vão encontrando, para poderem passar o melhor possível, a noite. A frase de Antonin Artaud “Nous ne sommes pas libre et le ciel peut encore nous tomber sur la tête”, serve de título à instalação de 2011 apresentada em Ville de Tournai, com materiais encontrados dentro do edifício. Este trabalho é uma referência às células de isolamento dos hospitais psiquiátricos, do qual faz ainda parte um vídeo num ecrã de televisão. Este vídeo é um díptico composto de um lado por uma auto-mutilação, ou seja, pela inscrição de um coração na própria pele da artista através de uma lâmina, enquanto ao seu lado surge a letra da canção Little trouble girl de Sonic Youth que vai sendo escrita à mão. A relação com Lips of Thomas de 1975 de Marina Abramovic é inevitável, trata-se de uma peça auto-biográfica que nos devolve um passado comunista e ortodoxo da sua família, o controlo e a vigilância que conduziria às catarses performáticas. Parda traz-nos também o isolamento de estados emocionais e mentais à margem do que é considerado normal, a loucura sempre se manteve afastada dos olhares mais suspeitos e mais curiosos. O título recorda, ainda, a efemeridade da vida, tudo pode mudar num instante. Podemos pensar no acidente de carro que não acreditamos estar a acontecer no momento preciso que o estamos a vivenciar e não sabemos o que virá no segundo a seguir. Segundos antes o carro, que sobrevoa, rodava na estrada normalmente; o maior pavor é batermos numa árvore e lembramo-nos da infância por alguém próximo ter falecido dessa forma. Podemos pensar nos milhares de refugiados ao longo da existência humana, agora com o foco na Ucrânia, que viram e vêem o céu desabar sobre si, numa perda incomensurável e sob a qual as palavras são insuficientes.

 

"Nous ne sommes pas libre et le ciel peut encore nous tomber sur la tête”, Ville de Tournai, 2011.

 

Caribe, exposição colectiva no edifício Post Ford Palace, 2018.

 

O trabalho artístico de Parda, fortemente autobiográfico, permite-lhe focar e revisitar as obras de outros autores que lhe são caros, ao mesmo tempo que se trata de um terreno onde se constrói as condições necessárias para um auto-conhecimento e uma superação de si. Seguindo as palavras de Louise Bourgeois fazemos arte para não enlouquecermos. E no caso de Parda, para continuar a criar, foi necessária uma outra experiência de vida que se concretizou na viagem e trabalho por outros continentes para no regresso, com o corpo cheio de impressões poder traduzi-las em arte. As deambulações já não dentro da mesma cidade ou país, mas ampliando a pegada dos situacionistas para além da Europa. O mundo a ser compreendido em deriva.

Em 2017 e 2018 constrói outros dois abrigos com características diferentes, talvez pelo espaço e o tempo onde cada um foi apresentado, talvez pela influência das suas experiências em squats e espaços auto-geridos. Cama Comum construído para a exposição individual Não era um coração a bater na Galeria do Sol e Caribe na exposição colectiva no edifício Post Ford Palace. Este último, um espaço não artístico, ou melhor, um local abandonado que permitiu uma implicação diferente. A artista sabia que aí se recolhiam muitas vezes pessoas, sem abrigo e outras para passar a noite, por isso, deixou como parte do trabalho frutas, bebida, mantas, latas de grafitti sem saber se iriam ser utilizados. Soube mais tarde que o seu refúgio acabou por ser habitado. O dispositivo já não é um mediador para a interacção entre a artista e o público. A artista ausenta-se e o objecto vale por si mesmo num encontro de um ou mais indivíduos com a instalação; quem o utiliza possivelmente desconhece que se trata de um trabalho artístico. Consegue-se abranger um leque de pessoas completamente desconhecidas, anónimas e sem qualquer interacção física com a criadora. A exposição de 2017, Não era um coração a bater, é uma experiência prévia de residência/instalação na galeria do Sol já com características similares ao último trabalho na exposição Meia Pensão. Durante duas semanas a artista manteve o espaço aberto ao acontecimento. Cama Comum, era exatamente uma cama que se tornava comunidade, numa montra para a rua acessível aos transeuntes e não só ao público habitual do espaço expositivo. Tudo poderia acontecer, testando-se os limites entre o público e o privado, entre a obra e a vida que apareciam unidas. No piso superior encontrava-se a instalação Anchors for restless minds, duas peças de ferro e cimento, que são destruídas no final da exposição como parte integrante do trabalho. Uma instalação performática que inclui o rasto daquilo que deixou de ser, nascendo um novo corpo da ruína, cortando-se as amarras. O trabalho Rose is a rose and is not a rose - at the same time, que se encontrava no mesmo espaço de Cama Comum, era constituído por uma rosa e o registo em vídeo do seu sequestro. Como Parda afirma é “uma rosa cedida pela fundação de Serralves sem o seu consentimento”. O processo é meio cómico, porque não tinha levado consigo os apetrechos ideais para arrancar a rosa do jardim de Serralves, mas depois de algumas peripécias e sem ninguém se aperceber consegue transportar a rosa para fora desse espaço privado. O apoderamento desta rosa é um acto simbólico - com referência ao trabalho de Bruce Nauman, num jogo em que percebemos que a palavra nunca poderá ser a flor, nunca poderá ser uma pessoa. Podemos reflectir em torno do estatuto do artista e da sua relação com a instituição, podemos também reflectir no estatuto de dita instituição na cidade, no país e no mundo, após as controvérsias destes últimos anos. Reflectir ainda sobre a acessibilidade a esse espaço, quem pode e quem tem direito a; reflectir enfim sobre a transgressão, um desafio dos limites do que é razoável, do que é permitido, algo que lhe interessa trabalhar, a saber o balanço entre um possível crime e um acto poético. Traçam-se linhas que nos conduzem a Kathy Acker, pela exploração e exposição de si e do que está para além da norma, pela indissociação entre a vida e a obra.

 

Anchors for restless minds, exposição individual Não era um coração a bater, galeria do Sol, 2017.

Rose is a rose and is not a rose - at the same time.

 

Estes habitáculos já se encontram anunciados no trabalho Guilty Souls de 2010. Uma caixa de luz com a fotografia de Parda deitada num colchão no chão e com várias garrafas e latas ao lado, e por cima a frase pintada pela artista “All they ever did was lie to us but we’re the ones who are supposed to be sorry”. É uma obra que apresenta e se interliga directamente com o seu interesse e vivência da cultura underground, permitindo-lhe criar um corpo de trabalho desde esse momento que busca outras formas de se poder experienciar a arte, precisamente mais conectadas com o modo como Parda experiencia a própria vida. Característica presente não só nas suas instalações, como no seu trabalho performático e musical onde a escrita é um elemento importante. Parte novamente das suas experiências com poemas explícitos, sem filtros, utilizando o cut-up ou estados alterados de consciência para os produzir. Textos que ganham um ritmo próprio que se intensifica nas apresentações ao vivo, numa espécie de transe que nos transporta a um ambiente que ressuscita Diamanda Galás. A artista transforma-se, preenchendo com a voz esse espaço que vai da performer ao público, desde as entranhas penetrando na pele.

 

Vista geral da Instalação Meia Pensão, Galeria do Sol, 2022.

 

Num segundo olhar à instalação em Meia Pensão percebemos um esventramento dos objectos, um tentar ver por dentro, um ver por dentro dos corpos desvelando-se a matéria que os compõem. Objectos que nos rodeiam, nos quais nos sentamos, acomodamos ou simplesmente dormimos; são encobertos e abrilhantados, alisados, quase como um corpo com pele. Retiramos a pele e resta-nos um esfolado que os nossos olhos não querem ver. Esfolados que muitos artistas tentaram desenhar à margem da lei, para perceber o funcionamento do corpo e dos seus vários músculos. Da mesma forma que Parda tenta subverter o comum, a norma, mostrando e procurando o outro lado. O dentro, mas também uma separação dos vários elementos que compõem essa matéria. Algo se perde nesse desmantelamento, mas daí nascem novas unidades, novos modos de estar e socializar. Neste espaço podemos simplesmente estar sem pretensões, sem representações, deitamo-nos, descansamos, fumamos, bebemos e somos. Podemos descontrair neste refúgio para além dos códigos sociais estabelecidos. A artista inverte o passar dos olhos sobre os objectos (no seu sentido amplo), o passar e o passear dos espectadores pela exposição e envolvê-los de uma forma mais activa, tentando facilitar um encontro e uma troca. Os seus trabalhos não são por isso conclusivos, estão em constante transformação e muito do que acontece repercute-se para lá daquele espaço físico específico, trazendo algo de marginal para o seio da arte. Ressoa o marginalibidocannabianismo de Hélio Oiticia na obra de Parda, num regresso ao sensorial, ao saborear de outros corpos na sua magia essencial, o que provavelmente só será perceptível fazendo parte.

A arte “é uma forma poética de habitar o mundo”, para Leonor Parda. É necessária muita poesia para continuar a acreditar que a existência desse mundo seja possível.

 

 

Susana Chiocca
Artista e doutorada em arte contemporânea pela Facultad de Bellas Artes de la Universidad de Castilla-La Mancha (SP). Professora convidada na Universidade Lusófona do Porto e no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra.


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Notas

[1] Meia Pensão é uma residência/instalação que decorreu entre 20 de Fevereiro e 20 de Março criada em co-autoria por José Oliveira e Leonor Parda ocupando respectivamente o piso térreo e o primeiro andar da galeria do Sol. Para mais informação consultar Meia Pensão (Parte 1).



SUSANA CHIOCCA