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O CODEX ATLANTICUS DE LEONARDO DA VINCI ESTÁ COMPLETO PELA PRIMEIRA VEZ EM 400 ANOS

2026-06-09




Um acto de vandalismo editorial com 400 anos foi finalmente desfeito online. O Museu Galileu de Florença reuniu o “Codex Atlanticus” de Leonardo da Vinci com mais de 500 páginas que tinham sido posteriormente cortadas, restaurando pela primeira vez a totalidade do maior caderno de notas sobrevivente do mestre.

Hoje, o museu lançou a Leonardotheka 2.0, acrescentando as cerca de 550 páginas que o escultor italiano Pompeo Leoni retirou do “Codex Atlanticus” no final do século XVI — agora pertencente ao Royal Collection Trust do Reino Unido — ao volume de 1.119 páginas mantido pela Veneranda Biblioteca Ambrosiana de Milão.

O “Codex Atlanticus” de Leonardo é o maior de mais de uma dezena de códices que contêm milhares de páginas de notas por ele tomadas. O seu conteúdo, produzido entre a década de 1470 e a morte de Leonardo, em 1519, inclui algumas das invenções mais conhecidas do artista-engenheiro, como a sua máquina voadora e o seu cravo-viola.

“A Leonardotheka é uma ferramenta que oferece aos estudiosos de todo o mundo oportunidades sem precedentes para explorar a vasta e inestimável riqueza de informação contida nos manuscritos de Leonardo da
Vinci”, disse o professor Paolo Galluzzi, presidente emérito do Museu Galileu. Os manuscritos de Leonardo passaram primeiro para o seu último aluno, Francesco Melzi, e depois para Leoni, que desmontou e cortou os fólios em dois álbuns de acordo com o seu gosto pessoal, separando as experiências artísticas de Leonardo das suas experiências técnicas e científicas. Esta divisão contrariava um princípio fundamental do Renascimento: o de que a arte e a ciência eram uma só.

Quando o genro de Leoni, Polidoro Calchi, tomou posse de ambos os volumes, no início do século XVII, vendeu a parte técnica — mais tarde denominada “Codex Atlanticus” — ao Conde Galeazzo Arconati, que a doou à Veranda Biblioteca Ambrosiana. O segmento artístico mais pequeno, por sua vez, chegou a Inglaterra na década de 1620 e entrou para a Royal Collection 50 anos depois, possivelmente como presente para Carlos II.

A ferramenta Leonardotheka do Museu Galileo, que disponibiliza digitalmente partes do “Codex Atlanticus” desde 2023, reconstruiu 50 novas páginas, combinando dimensões, métodos de preparação, materiais e marcas de água. Entre os reencontros mais impressionantes: um desenho de um cavalo que regressou às notas de Leonardo sobre o monumento equestre de Regisole, em Pavia, e que se acredita captar o momento em que definiu o projeto final para o monumento nunca concluído a Francesco Sforza.

O diretor executivo do Museu Galileo, Roberto Ferrari, afirmou que a Leonardotheka “estabelece um precedente convincente sobre a forma como as instituições culturais podem e devem manter a propriedade intelectual dos seus empreendimentos digitais, resistindo à tentação de delegar tais responsabilidades nas plataformas comerciais”. Acredita que o projeto em curso desafia simultaneamente “a proliferação de bibliotecas digitais genéricas”, bem como “o crescente esforço para transformar o legado de Leonardo num ativo comercial”.

O acervo digital permite aos utilizadores navegar por estes extensos documentos de forma integrada, filtrando por características como conteúdo, técnica e muito mais, além de oferecer fácil acesso a material académico relacionado.


Fonte: ArtnetNews