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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição, Daniel Blaufuks (Ainda) À espera de Godot, 2026, Galeria Vera Cortês.© Bruno Lopes / Cortesia Galeria Vera Cortês


Vista da exposição, Daniel Blaufuks (Ainda) À espera de Godot, 2026, Galeria Vera Cortês.© Bruno Lopes / Cortesia Galeria Vera Cortês


Vista da exposição, Daniel Blaufuks (Ainda) À espera de Godot, 2026, Galeria Vera Cortês.© Bruno Lopes / Cortesia Galeria Vera Cortês


Vista da exposição, Daniel Blaufuks (Ainda) À espera de Godot, 2026, Galeria Vera Cortês.© Bruno Lopes / Cortesia Galeria Vera Cortês


Daniel Blaufuks, À espera de Godot. © Daniel Blaufuks / Cortesia do Artista e Galeria Vera Cortês


Daniel Blaufuks, A Enumeração dos Elementos I (Do jardim de Ana Viera). © Daniel Blaufuks / Cortesia do Artista e Galeria Vera Cortês


Daniel Blaufuks, A sala de Espera I. © Daniel Blaufuks / Cortesia do Artista e Galeria Vera Cortês


Daniel Blaufuks, A sala de Espera II. © Daniel Blaufuks / Cortesia do Artista e Galeria Vera Cortês


Daniel Blaufuks, O Fim do Capitalismo ou da Civilização . © Daniel Blaufuks / Cortesia do Artista e Galeria Vera Cortês

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ARQUIVO:


DANIEL BLAUFUKS

(AINDA) À ESPERA DE GODOT




GALERIA VERA CORTÊS (ALVALADE)
Rua João Saraiva 16, 1st
1700-250 Lisboa

26 MAR - 16 MAI 2026

Daniel Blaufuks e a fotografia da Espera

 

 

Depois de André Romão e Susanne Themlitz em duas impecáveis exposições, a Galeria Vera Cortês recebe entre 26 de março e 16 de maio a exposição (Ainda) À Espera de Godot, de Daniel Blaufuks. Nomeada a partir da peça emblemática do dramaturgo irlandês Samuel Beckett, a exposição do fotógrafo português sublinha a maestria da Galeria não só na escolha dos artistas, mas na sua poética e precisa abordagem temática, o que confere à exibição uma experiência estética relevante. Como um passeio que faz cócegas ao nosso interior, pousamos os olhos sobre o tema da Espera, tal como se dedicou a fotografar e reunir Daniel Blaufuks (1963), fotógrafo e cineasta português.

Com um trabalho vasto e maduro no campo da fotografia, tendo-se dedicado à memória, ao exílio, à cidade de Lisboa, ao quotidiano — e tendo usado largamente sequências narrativas nas suas exposições – pode-se dizer que a exposição de Blaufuks na Vera Cortês é uma continuidade e uma abertura poética no seu trabalho. Se as suas fotografias distinguem-se, de maneira geral, por uma qualidade silenciosa e introspectiva, fortemente influenciado pela literatura e pelo cinema, Blaufuks, na exposição (Ainda) À espera de Godot, mantém a memória de soslaio, como tecitura da própria fotografia, abrindo um campo fértil de esperas naturais.

Que é preciso jogar o telemóvel fora, talvez todos o saibamos bem. O tempo da vida tem nos sido de facto capturado, acelerado, e não é à toa que estejamos todos mortos de ansiedade. Nesse contexto, retomar o tema da espera, do tempo, do vagar, da lentidão, é não só um importante afinar de cordas, mas também, e sobretudo, uma reivindicação existencial. Se chegar parece ser, de tudo, o mais importante, não o são menos os obstáculos e os entremeios. Nesse desenrolar lento dos fios da vida, o caule, a raiz, a espinha e os acontecimentos se apresentam como passagens de um oráculo para aquele que os sabe ler.

A vida é lenta. Lentíssima. E os tempos se misturam, como na foz se misturam os vários cursos dos rios. Quem estiver atento, com os olhos e ouvidos abertos, saberá perceber que estranho e maravilhoso é o caminho até aquilo que queremos. Os situacionistas sabiam disto. Guy Debord, na sua proposta da deriva, rejeitando o caminho funcional, o caminho objetivo, reivindicava o desvio, reivindicava perder-se. O caminho pode ser eventualmente monótono e arrastado; entretanto, é também, possivelmente, cheio de maravilhas. A espera, nesse contexto não é nada mais do que o não brigar com o tempo - aceitar, impassível, os limites que nos são impostos, ou pela geografia, ou pelo curso dos acontecimentos. Para forjar um espírito menos dedicado à destruição dos obstáculos e mais próximo do seu entendimento e do seu contorno - importa cultivar a espera. Para aproximar-nos do encontro e afastar-nos da guerra, é preciso cultivar a espera.

Daniel Blaufuks apresenta-nos, portanto, uma exposição dedicada a esse cultivo e a essa expressão. Uma exposição voltada ao tema do tempo, na sua mais particular expressão da espera, que aceita-não-aceita-aceita o tempo. E fica, a meio, entremeio, no desenrolar de um caminho que muitas vezes se revela em uma longa pausa. A espera é uma condição daquele que reclama aquilo que não chega. Ou daquilo que não chega, mas já chegou dentro de nós. É um descompasso de cheganças. Aquilo pelo que aguardamos, que está presente, mas não nos toca. Aquilo que queremos aproximar, mas não se move. Em Heidegger, a espera pertence à natureza e à poesia. O forjar o tempo, acelerá-lo, pertence à técnica.

Há uma profunda ligação entre a natureza, a poesia e o tempo. Se, por um lado, a técnica permite a aceleração e a criação, a poesia permite o cruzar dos tempos dos elementos, o deixar surgir. Não forçar um acontecimento: deixar que ele mesmo se desenrole. É uma técnica delicada, a da espera. O que pode parecer um exercício de humildade perante à nossa incapacidade, é também um exercício de reconhecimento do tempo dos outros corpos, dos outros elementos, das outras naturezas. Um ajustamento de tempos. Um deslocar-se.

Tantas vezes, por isso, a espera é um exercício de aceitação de impotência. Um reconhecimento dos limites. Muitas vezes geográficos, físicos, emocionais. É um exercício cosmopolítico. A geografia também é íntima: há distâncias imensas que percorremos na ponta dos dedos, ao lado de alguém que vive connosco. O reconhecimento do tempo alheio, dos outros materiais, das outras vivências, acaba por parecer-nos esperar. Quando no fundo, talvez se trate de uma parte importante do encontro.

Estamos diante da Espera, portanto. Desse tempo de entremeio — dessa espécie de suspensão em que ausência e presença se enlaçam. Em que chegamos e não chegamos. Desta condição, Samuel Beckett fez a peça emblemática À espera de Godot, que nomeia a exposição do fotógrafo Blaufuks. No caso de Beckett, há qualquer coisa de absurdo no exercício da espera. A espera, no caso do dramaturgo irlandês, é uma condição ao mesmo tempo elementar e ridícula da vida humana. Sobretudo porque Vladimir e Estragon esperam sem saber o que esperam; nem têm certeza se devem esperar. Ainda assim, esperam. Há qualquer obediência cega nesta espera; há qualquer abrir mão da sua própria capacidade de avançar. E é nessa insistência sem fundamento claro que a peça encontra sua força mais inquietante.

Godot, que nunca aparece, acaba sendo menos uma figura do que uma função. Pode ser lido como Deus, como o futuro, como a salvação, como qualquer promessa que organiza a espera humana. Mas a peça não confirma nenhuma dessas interpretações. O que ela mostra, com uma espécie de paciência implacável, é que a espera continua mesmo sem garantia, mesmo sem evidência, mesmo sem sentido claro. Esperar, nesse universo, não depende da chegada de nada.

A exposição de Blaufuks aproxima-se dessa inquietante condição. Mas leva-nos, arrisco dizer, para mais próximo da experiência da contemplação, da melancolia, do longe – da inevitável temporalidade que atravessa a nossa vida. Muitas vezes, é a geografia que expressa a experiência da espera; outras, os templos gregos, que ainda hoje permanecem conosco; outras ainda, encontra-se revelada por meio das mutações naturais. O atravessamento das condições naturais junto temperamento humano na exposição sublinha essa experiência, que é a experiência humana como uma experiência existencialmente sazonal, de comunidade com outros corpos de temporalidades múltiplas.


E que talvez a saudade, esta palavra intraduzível do português, seja uma boa forma de aproximar-nos enquanto experiência. O que é a saudade, senão um pequeno-grande abismo temporal e geográfico? Uma mulher que olha o horizonte – e não é só o horizonte físico; é um horizonte temporal. Algo fica para trás. As montanhas e as flores se misturam com a passagem das estações e da memória. E a sazonalidade é, também ela, uma geografia. Acostumados com o avançar do tempo, com o avançar da técnica, acostumados com esse ímpeto prometeico, expansivo, esse ímpeto de dominação externa, de máquinas e tanques de guerra, de aviões e drones, por vezes esquecemos que o tecido da nossa vida é o tempo. E que a saudade é uma das mais basilares condições que vivemos.

Blaufuks reatualiza a natureza morta — a maçã mordida em um chiaro-escuro bem construído, as flores secas ou em água — em meio a um conjunto de temas fotográficos mais vasto, construindo uma exposição ao mesmo tempo contemporânea e dotada de certa atemporalidade. Isto seja pelo seu diálogo com a história da arte, seja pelo tema que trabalha. Abriga, no seu guarda-sol, a espera em cadeiras e janelas; em montanhas e horizontes; em faces contorcidas; em árvores esquecidas, em amantes que esperam, em ausências preenchidas. Com um trabalho de maestria com as cores, as sombras e as luzes, Blaufuks permite que o tempo passe pelos nossos olhos continuamente, umas vezes mais largo, outras vezes mais curto, fazendo aquilo que é comum que façamos em uma exposição: esperar que surja, diante da imagem que se apresenta à nossa frente, na sua potência de novidade ou lembrança, de estranhamento ou familiaridade, possivelmente, as linhas que nos enlaçam a nós mesmos e ao que está ao nosso redor. Lentamente.

 

 

Mariana Varela
É escritora e poeta. Publicou Enigmas de Jaguar e Jasmim (2019) e Rotativa (2022) ambos pela editora Urutau. Editou a mini-revista literária Frente! e edita atualmente a revista literária Letra Lenta. Mestre em Sociologia, faz doutoramento em Filosofia e escreve artigos na Intersecção da Filosofia e da Estética. Está publicada em revistas e antologias.

 



MARIANA VARELA