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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vasco Araújo, "O que eu fui"

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ARQUIVO:


VASCO ARAÚJO

O Que Eu Fui




GALERIA FILOMENA SOARES
Rua da Manutenção, 80
1900-321 Lisboa

09 MAR - 28 ABR 2006

A Voz e a Individualidade

A voz é um dos elementos mais misteriosos das forças humanas expressivas: um sopro que se transforma em palavra, em sentido, em melodia e que é sempre a apresentação de um determinado limite compreensivo. Por mais que nos esforcemos nunca se conseguirá compreender inteiramente a natureza – expressiva, plástica e linguística – daquilo que é uma voz. A exposição que Vasco Araújo agora apresenta na Galeria Filomena Soares assume a voz como um problema ou, melhor, como perplexidade.

As duas obras apresentadas – o vídeo “Far de donna” e a instalação de fotografias e voz “O que eu fui” que dá nome à exposição –, ainda que formal e materialmente muito distantes, encontram-se na mudez que pressupõem. No vídeo, uma mãe narra, gestualmente, a sua perda de voz no momento em que o seu filho começa a cantar, assumindo a plenitude da sua voz. Nas fotografias, as diferentes imagens de esculturas em pedra, naturalmente sem voz, falam dos momentos que antecedem a morte, do momento em que, em vida, se está a ver a própria morte e a tentar criar um sentido para o passado, e a projectar a possibilidade de habitar o território desconhecido em que se está prestes a entrar. A estas imagens junta-se um dispositivo sonoro através do qual uma voz feminina diz: “Estou cansada, há algo que não me deixa respirar, cansada de tantos impedimentos, cansada de não me deixarem fazer o que quero, a vida não me deixou fazer tudo o que quis, trazer as cadeiras, dizer o que queria, não sei… sei, sim, que estou cansada e que preciso de descansar…”
A categoria onde integrar qualquer uma destas peças é dispensável. Quer as histórias contadas sejam realidade ou ficção, o pertinente é o núcleo de experiências humanas para que apontam. E aquelas que aqui estão em causa dizem respeito à perda dos elementos que, claramente, marcam e constroem a individualidade e a consciência da vida que, nos dois casos, são vistas como impedimento e perda. As duas peças estabelecem um paralelismo entre a perda da voz e a perda de si próprio, o desvanescimento do corpo e da identidade, e parecem apresentar a voz como critério de individuação. Diz o personagem do vídeo: “num ritual de amor alucinado, / arranco de mim para lhe dar, / na mais generosa / forma de o amar, / mais do que a alma, / a voz, / o sentido que em nós, / fala mais perto, / e liberto, / enfim, / vazia de mim / e de tudo, / um profundo grito, / MUDO / AHHHHHHHHHHHHHHH.” Parece que a voz é caracterizada como o veículo privilegiado da alma e da intimidade. Também para os hindus antigos, a alma era concebida como uma espécie de sopro – atman – e a morte era a perda desse mesmo sopro. O coração desta nova exposição de Vasco Araújo é a percepção da qualidade informe e imaterial, inominável e originária daquilo que constitui a singularidade de cada um de nós.


Nuno Crespo