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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Tacita Dean, “Human Treasure”, 2006. Filme a cores 16 mm, 15 minutos. Cortesia Galerie Marian Goodman, Paris/Nova Iorque e Frith Street Gallery, Londres

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ARQUIVO:


TACITA DEAN

Human Treasure




GALERIE MARIAN GOODMAN - PARIS
79, rue du Temple
75003 Paris

08 SET - 13 OUT 2007

Tesouros

Em 2006, a artista britânica radicada em Berlim Tacita Dean ganhava o prémio Hugo Boss e concluía, após uma curta residência no Centro de arte contemporânea de Kitakyushu no Japão, um filme de 15 minutos intitulado “Human Treasure”. Realizado, como é hábito de Dean, num formato de 16 mm, o filme concentra-se sobre um mestre octogenário de Kyogen - a comédia tradicional japonesa. O que distingue o actor é o facto de constituir um “tesouro humano”, segundo a designação oficial, atribuída apenas aos que tenham atingindo a excelência no domínio das artes tradicionais japonesas.

Decidida a filmar um destes “tesouros”, Dean encontrou o seu após vários meses de pesquisa e de negociações complexas: um actor de 87 anos especializado na arte de imitar os animais. Devido ao seu estatuto verdadeiramente “semi-divino”, a artista inglesa viu-se obrigada a conservar uma certa distância, confessando mesmo nunca lhe ter dirigido directamente a palavra e não conhecer o seu nome completo (a saber, Sensaku Shigeyama): para Tacita Dean, tratava-se, simplesmente, “do tesouro”. A reverência de Dean é evidente na primeira parte do filme, onde podemos ver Shigeyama, acompanhado pela sua mulher, no decorrer de um dos seus rituais diários: o pequeno almoço continental num hotel de Kyoto. A câmara de Dean detém-se sobre as mãos esclerosadas do mestre e sobre o seu rosto enrugado: paradoxalmente, são estes grandes planos, violando a distância imposta entre os dois, que revelam não só a dimensão humana do “tesouro”, mas também toda a sua preciosidade. A lentidão dos movimentos de Shigeyama e a dificuldade com a qual se entrega aos gestos do seu ritual diário transformam-se uma espécie de memento mori subtil e comovente.

Mas Sensaku Shigeyama não é o único tesouro da exposição. O outro é o filme ele próprio, na sua dimensão material. Fiel ao seu formato de eleição, Dean é uma das cada vez mais raras artistas contemporâneas a trabalhar exclusivamente com película, recusando-se a utilizar o formato digital. Na penumbra da sala de projecção, o ruído de fundo do projector e as cores estranhamente datadas e evocativas das imagens funcionam assim como um segundo memento mori. Espécie em vias de extinção, a película revela-se tão frágil e preciosa quanto o octogenário semi-divino do filme. Grande parte do famoso romantismo de Dean repousa, certamente, sobre a matéria hoje considerada obsoleta das suas imagens e a forma como esta se adequa, poeticamente, às suas meditações sobre a passagem inexorável do tempo, ou a magia fugaz de um instante. De certa forma, todos os filmes da artista são como pequenos tesouros, acumulados ao longo dos anos no suporte que durante largas décadas soube, melhor do que qualquer outro, dar corpo às memórias (e aos sonhos) de um século. É por isso que o trabalho de Tacita Dean nos diz mais sobre o cinema do que muitas outras produções contemporâneas, dominadas por estratégias de citação, repertório, homenagem, etc.

A exposição inclui ainda várias fotografias da artista, bem como uma escultura / instalação intitulada “Chalk Balls” (2006).




Teresa Castro