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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Missão Botânica, Angola 1927-1936

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COLECTIVA

Missão Botânica - Angola 1927-1937




CENTRO PORTUGUÊS DE FOTOGRAFIA
Ex. Cadeia da Relação Campo Mártires da Pátria
4050-368 Porto

01 ABR - 11 JUN 2006

Missão Botânica – Angola 1927-1937

Todos nós vivemos do passado e vamos para o abismo do passado.
Goethe (Máxima 167)

Paradoxo: o mesmo século inventou a História e a Fotografia.
Roland Barthes

A exposição “Missão Botânica – Angola 1927-1937”, patente no CPF, é uma recapitulação do confronto entre a estetização – decorrente da transposição dos cânones pictóricos das belas-artes – e o “dizer da verdade” – adaptação dos modelos literários “realistas”, do século XIX –, imperativos que parecem enformar a história da fotografia (na sua relação com a História da Arte) e que determinaram o comissariado de Paulo Amaral e Alexandre Ramires. Se uma das realizações da fotografia é o estabelecimento de pontes entre a arte e a ciência, aspecto que as imagens da “Missão Botânica” confirmam, como studium barthesiano, formando um “campo de interesse cultural” que dá a conhecer a natureza das expedições e missões científicas (já com longa tradição no início do século), o que se revela como punctum, como “fora-de-campo subtil”, é, no entanto, não apenas a discussão das demarcações entre campos epistemológicos (Botânica / Antropologia / Etnologia / Estética) mas, sobretudo, a preparação de uma política de propaganda colonial de que resultariam, já em pleno Estado Novo, a Exposição Colonial Portuguesa (1934) ou a Exposição do Mundo Português (1940).

O fotógrafo é um inventor do passado e é a História que nos separa destas imagens. A demonstração, dotada de prova fotográfica, do atraso civilizacional dos povos indígenas é a justificação moral do colonialismo, razão suficiente para sobrepor ao fotografado uma regularidade ideológica, para neutralizar as diferenças entre o mesmo e a mesmidade, para corrigir os processos sociais com poses legisladas, para classificar, medir e confirmar, através da conversão da experiência em imagem, uma determinada ideia de africanidade – pensemos numa espécie de “taxinomia africana” que identifica “a mulher quioco”, “o caçador”, “o agricultor indígena” (mas também o explorador) como categorias sistemáticas –, em vista de um possível conhecimento e, sobretudo, da domesticação do objecto: “No Huambo, uma filarmónica de pretos deliciou-nos desafinando como se fossem brancos”.

A aproximação do fotógrafo ao mundo é pois tão assistemática como a do coleccionador e tão opugnante como a do salteador. Mais do que uma notável semelhança mecânica, o que aproxima a câmara fotográfica e a pistola é o facto de uma e outra serem instrumentos de predação: como refere Susan Sontag, fotografar pessoas é violá-las, vendo-as como elas nunca se vêem, tendo delas um conhecimento que elas nunca poderão ter; isto é, transformando as pessoas em objectos que podem ser simbolicamente possuídos ou mesmo cientificamente analisados. Por outro lado, também o imenso território angolano – onde se começam a rasgar estradas e caminhos-de-ferro – é submetido aos requisitos do olhar fotográfico, votado a detectar a beleza e a criar interesses: as vistas, certamente exóticas, são disciplinadas em paisagem. Com efeito, entre um quixotismo romântico atido à salvação de um mundo em desaparecimento, através do registo da sua emanação, e uma nostalgia curiosa de turista que quer fixar-se na paisagem e no meio das suas ruínas e gentes, a câmara fotográfica tem, como um buldózer, o poder de tudo terraplanar, de tudo modificar e redimensionar numa mesma composição pois, reforçando uma visão nominalista da realidade social, tudo cabe no enquadramento: “aquilo a que posso dar um nome não pode realmente ferir-me”, diz Barthes e, como é sabido, conhecimento é poder.

Constituída por cerca de 70 fotografias (na sua grande maioria de 1927, referentes à primeira das três viagens de exploração da paisagem e da flora africanas realizadas pelo Prof. Luiz Carriço) e pelo filme “Missão Académica a Angola – Alguns Aspectos Cinematográficos da Viagem” (reportagem da segunda expedição, realizada em 1929), a exposição “Missão Botânica – Angola 1927-1937” corresponde à remontagem de parte de uma exposição mais abrangente, apresentada em 2005 no Museu Botânico da Universidade de Coimbra. Nessa altura, além dos elementos fotográficos, foram ainda expostos outros materiais documentais produzidos pela missão – nomeadamente objectos etnográficos e colecções de herbário – que, sem qualquer dúvida, deveriam fundamentar uma reflexão mais problematizante acerca destas fotografias (afinal, apenas uma das dimensões de um discurso mais abrangente: um meta-discurso sobre o real valor e alcance científico-museológico dessas imagens). Mas a vocação do CPF é clara e mais clarividentes ainda as suas determinações programáticas: falamos de fotografia em sentido estrito e, como observa Barthes, “a fotografia diz-me a morte no futuro”, isto é: “Está morto e vai morrer”.



António Preto