Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


André Guedes, "Olimpo"

Outras exposições actuais:

SILVESTRE PESTANA

COLAPSO


Galeria Municipal do Porto, Porto
ANA CAROLINA ESTEVES

TARRAH KRAJNAK

REPOSE EXPOSE COUNTERPOSE


Fondation A Stichting, Bruxelas
ISABEL STEIN

COLECTIVA

O PODER DE MINHAS MÃOS


Sesc Pompeia, São Paulo
CATARINA REAL

HELENA VALSECCHI

VAMPATA


Galeria Pedro Oliveira, Porto
SANDRA SILVA

ANNA MARIA MAIOLINO

TERRA POÉTICA


MAAT, Lisboa
MARIANA VARELA

SILVESTRE PESTANA

COLAPSO


Galeria Municipal do Porto, Porto
LEONOR GUERREIRO QUEIROZ

DANIEL BLAUFUKS

(AINDA) À ESPERA DE GODOT


Galeria Vera Cortês (Alvalade), Lisboa
MARIANA VARELA

AGNES ESSONTI LUQUE

HOTEL DEL ARTEFACTO EXPOLIADO


Museo Nacional de Antropología - Madrid, Madrid
FILIPA BOSSUET

ABEL RODRÍGUEZ

MOGAJE GUIHU: A ÁRVORE DA VIDA E DA ABUNDÂNCIA


MASP - Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, São Paulo
CATARINA REAL

JESSE WINE

AMOR E OUTROS ESTRANHOS


Fortes D'Aloia & Gabriel - Barra Funda, São Paulo
CATARINA REAL

ARQUIVO:


ANDRÉ GUEDES

Olimpo




MAD WOMAN IN THE ATTIC
Rua Alves Redol, 407, 5º Dto
4050-043 Porto

13 MAI - 04 JUN 2006

Olimpo in the Attic?

O alto e o baixo. O alto, segundo a configuração religiosa, foi definido na pintura como o lugar das citações transcendentais e, o baixo, como o lugar da performance humana. No alto está o céu, no baixo a terra, as vísceras, a realidade próxima. A idealidade, como entidade de controlo, habitava num lugar inacessível ao homem-comum e editava uma matriz que o sobrepunha. O sótão é o sítio no alto de um edifício, no entanto, é um sítio subversivo: não é lugar de eminência, mas antes lugar do resíduo, esconderijo moderno, cave num alto. O espaço “Mad Woman in the Attic”, comissariado pelo artista André Sousa, é mesmo um sótão/arrecadação de um prédio habitacional que enclausura temporariamente uma entidade artística. O último convidado foi André Guedes, que apresenta “Olimpo” até 4 de Junho.

É referência deste espaço a expectativa, a convocação ao alto, no convite antecipado ao topo do prédio onde se guardam amálgamas. Os visitantes esperam na confraternização habitual do apartamento: come-se, bebe-se, ri-se, conversa-se, perto dos prazeres terrenos antes de se experienciar esse outro espaço. É também aqui que se inicia o trabalho de André Guedes confrontando-nos com um texto e um cartaz/desenho pouco elucidativos, que conscientemente silenciam o episódio. Desta vez subimos de elevador até ao sétimo piso e foi-nos entregue as chaves da arrecadação: uma para abrir a porta conjunta, a outra para abrir os arrumos restritos ao 5º D. Mais uma vez o trabalho do artista pede a participação do espectador, pede o olhar ampliado ao corpo: “Ver é abertura, é estar atento e receptivo com o corpo todo ao mais ínfimo e/ou evidente elemento ou acontecimento”, escreveu Nuno Faria sobre a “amplitude semântica do ver” na obra de André Guedes. Este projecto exige desde logo atenção estética no reiterado lugar de convívio. Dirige-se ao pormenor, às “pontas que se deixam soltas” que perpetuam a expectativa: a transposição de árvores e plantas esquecidas, no caso da intervenção do artista no Museu de Serralves, de naturezas mortas, e referências que se entendem de arrecadação, neste caso, déjà vu, sobretudo, por manterem ainda a memória do seu desígnio inicial. O domínio é o da re-criação, sublinhando uma expressão do autor.

Não vou contar o que se passa naquele sótão, não podemos retirar da obra o que lhe pertence em exclusivo, o acontecimento. André Guedes ironiza o espaço do Olimpo e aproveitando a configuração do sótão, devolve a medida humana à transcendência, sendo que, o acontecimento se actualiza no corpo, no vivido. Receber o Olimpo como deve ser, num alto, mas no exacto sítio onde o “lixo”, o indesejável, as memórias residem. E isso é o mesmo que dizer: hoje o alto não confere referências, pode bem ser um lugar convertido em albergue de um outro abstracto. Para Sísifo, o alto era o eterno esforço, o alto não era nada e, por mais que entregasse a pedra, ela cairia no baixo para de novo ser trazida ao alto. Motivo de uma profunda decepção com as referências e os modelos — religiosos, modernos- —, aquele espaço foi de certo habitado, não por uma divindade, mas por uma espécie de plano virtual que prolonga a realidade, isto se pensarmos o virtual como um pano impresso que coincide com cada ponto da realidade. O abstracto é isto: o banal, o depósito de coisas, o medo do outro, a violência, etc. Mais do que sótão mental necessariamente composto, este trabalho é um virtual consciente.

Assim como fez o autor, deixo as chaves como pistas, o acontecimento como obra.



Fontes:
FARIA, Nuno, “O óbvio e o obtuso — ideias quase soltas sobre o apagamento”in “Outras árvores, outro interruptor, outro fumador e uma peça preparada”: Catálogo da exposição de André Guedes no Museu de Arte Contemporânea de Serralves.










Aida Castro