Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


Sergio Santimano, Carlos Cardoso em frente ao Piri-Piri, Av. 24 de Julho, Maputo, 1995


Ângela Ferreira, mediaFAX 1, 2011. Aço inox, PVC e serigrafia sobre lamelado de faia. 90 x 266 x 175 cm.


Ângela Ferreira, mediaFAX 1, 2011. Aço inox, PVC e serigrafia sobre lamelado de faia. 90 x 266 x 175 cm.


Ângela Ferreira, mediaFAX 5, 2011. Aço inox, PVC e serigrafia sobre lamelado de faia. 210 x 145 x 91 cm.


Ângela Ferreira, Cena Aberta, 2011. Alumínio anodizado, cabos de aço, luz fluorescente, megafones, som 52 min loop. Cortesia Rádio Moçambique. 370 x 11, 5 x 11,5 cm.


Ângela Ferreira, In memory of Mozambique media legend, 2011. Impressão digital sobre papel mate. 100 x 100 cm. Cortesia: Julie Frederickse.

Outras exposições actuais:

SILVESTRE PESTANA

COLAPSO


Galeria Municipal do Porto, Porto
ANA CAROLINA ESTEVES

TARRAH KRAJNAK

REPOSE EXPOSE COUNTERPOSE


Fondation A Stichting, Bruxelas
ISABEL STEIN

COLECTIVA

O PODER DE MINHAS MÃOS


Sesc Pompeia, São Paulo
CATARINA REAL

HELENA VALSECCHI

VAMPATA


Galeria Pedro Oliveira, Porto
SANDRA SILVA

ANNA MARIA MAIOLINO

TERRA POÉTICA


MAAT, Lisboa
MARIANA VARELA

SILVESTRE PESTANA

COLAPSO


Galeria Municipal do Porto, Porto
LEONOR GUERREIRO QUEIROZ

DANIEL BLAUFUKS

(AINDA) À ESPERA DE GODOT


Galeria Vera Cortês (Alvalade), Lisboa
MARIANA VARELA

AGNES ESSONTI LUQUE

HOTEL DEL ARTEFACTO EXPOLIADO


Museo Nacional de Antropología - Madrid, Madrid
FILIPA BOSSUET

ABEL RODRÍGUEZ

MOGAJE GUIHU: A ÁRVORE DA VIDA E DA ABUNDÂNCIA


MASP - Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, São Paulo
CATARINA REAL

JESSE WINE

AMOR E OUTROS ESTRANHOS


Fortes D'Aloia & Gabriel - Barra Funda, São Paulo
CATARINA REAL

ARQUIVO:


ÂNGELA FERREIRA

Carlos Cardoso – Directo ao Assunto




GALERIA FILOMENA SOARES
Rua da Manutenção, 80
1900-321 Lisboa

24 MAR - 21 MAI 2011


“Art, a Thing of no Consequence” (1)
José Ortega y GASSET (1883 – 1955)


O trabalho de Ângela Ferreira (1958, Maputo, Moçambique) desenvolve-se a partir de linhas de raciocínio que surgem da prática de uma arqueologia do acontecimento relatado através da linguagem da arte para o abrir a uma outra evidência e meio de reflexão sobre a realidade, desenhando um discurso transversal entre o artístico e o político. São estas as premissas fundamentais que poderemos encontrar na exposição Carlos Cardoso – Directo ao Assunto, patente ao público na galeria Filomena Soares em Lisboa até dia 21 de Maio de 2011.


Num primeiro encontro, o espaço da galeria parece ter sido transformado num palco com um cenário teatral. As cinco esculturas e duas peças bidimensionais que compõem a exposição, obrigam o visitante a percorrer um circuito expositivo disperso e não linear, exigindo uma relação próxima com o espectador. O protagonista da peça é o jornalista Carlos Cardoso, cuja acutilância investigativa e escrita de combate político denunciava a corrupção e o favoritismo, resistindo às pressões de censura, mas acabando por ser assassinado em Novembro de 2000.
A série de cinco esculturas é colocada em sequência narrativa desde MediaFAX 1, que refere um caso inequívoco para o observador de despedimento forçado de um jornalista, até MediaFAX 5, com um discurso sobre a liberdade de imprensa, fechando o circuito expositivo. Referindo-se a um passado pouco recuado, este conjunto demonstra a fragilidade democrática e as condições de sobrevivência do direito de expressão em Moçambique. Se em três destas esculturas, o texto e visualidade surgem articulados, nas outras duas a obra assume-se aparentemente isolada da expressão verbal. No entanto, para o entendimento perceptivo do visitante, existe uma desarticulação entre o modo de representação e o sentido: a dimensão formal das obras é em si mesma uma linguagem autoreferencial e, detendo um discurso autónomo, reclama uma relação com o conteúdo político das mesmas.


Examinar a realidade através destes modelos do passado, largando o objecto à contemporaneidade, demonstra, segundo Jürgen Bock, a fragilidade do modernismo e expõe o anacronismo da utopia e da ideologia política uniformizadora (2). O referente formal utilizado nas esculturas de Carlos Cardoso – directo ao assunto que parte da geometria como matriz de um sistema de ordenação, propunha uma missão globalizante e uniformizadora contrastando com discurso activista e sentido de luta protagonizado por uma figura única da actualidade. Se por um lado, a obra, em contacto com a realidade, quer apresentar-se inerte para concentrar o conflito entre tempos e linguagens, esta também age e denuncia. Deste modo, a condição inerente do objecto artístico em comunicar, não está condensada apenas no choque entre fragmentos de tempo e entre discursos desarticulados, mas na capacidade do objecto artístico de potenciar, provocar e agir, contendo uma energia vital imanente. A dimensão, a cor e a forma gráfica dos cilindros que representam os rolamentos do fax, meio que Carlos Cardoso utilizava no jornal Metical, de menor alcance, mas efeito mais certeiro, mais consciente e mais seguro, referem o peso grave e importância da escrita como material de luta. A valorização da escala, a colocação no espaço e a inscrição numa grafia modernista de síntese formal, torna o significado das obras mais presente ao observador, e decorre de uma vontade de monumentalizar para preservar a memória, de querer tornar o objecto um arquivo visual imediato do que aconteceu.


Por último, In memory of Mozambican media legend, a reprodução de um cartaz do jornal The Guardian, e a escultura sonora Cena Aberta, atribuem à exposição características de identidade da figura de Carlos Cardoso − o revolucionário e artista que foi e a consternação unânime emitida por um jornal internacional. A peça escultórica emite peças radiofónicas de “O Ritual” de Carlos Coutinho e de “ O Negreiro” de Santana Afonso e sendo um suporte auditivo de largo alcance, dá voz à figura para fazer-se ouvir e afirmar o seu posicionamento político. E utilizando a voz de Carlos Cardoso num objecto artístico, a artista eterniza o seu discurso.

Tal como este jornalista, Ângela Ferreira, através deste conjunto de trabalhos, toma uma opção crítica, age e denuncia, imprimindo nesse agir o seu próprio modo de pensar a realidade.





NOTAS

(1) José Ortega y GASSET (1883 – 1955) “The Dehumanization of art” – Art in Theory, 1900 – 2000: an anthology of changing ideas (ed. Charles HARRISON, Paulo WOOD), Malden; Oxford; Victoria: Blackwell Publishers, 2003, p. 332.
(2) Jurgen BOCK, “Hard Rain Show – em situações diferentes” - Hard Rain Show: Ângela Ferreira, Lisboa: Museu Colecção Berardo Museu de Arte Contemporânea, 2008.


Patrícia Barreira