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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição Wrong Answers de Jenny Holzer, Museu de Serralves. © nvstudio / Cortesia Serralves


Vista da exposição Wrong Answers de Jenny Holzer, Museu de Serralves. © nvstudio / Cortesia Serralves


Vista da exposição Wrong Answers de Jenny Holzer, Museu de Serralves. © nvstudio / Cortesia Serralves


Vista da exposição Wrong Answers de Jenny Holzer, Museu de Serralves. © nvstudio / Cortesia Serralves


Vista da exposição Wrong Answers de Jenny Holzer, Museu de Serralves. © nvstudio / Cortesia Serralves

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18 JUN - 01 NOV 2026

Jenny Holzer cruza estética, poética e política no Museu De Serralves

 

 

A obra de Jenny Holzer é brilhante, pertinente e urgente. É política e social, expondo a pluralidade e a contradição das ideologias. A atual exposição da artista, inaugurada no passado dia 18 de junho no Museu de Serralves, reflete a atualidade e o estado do mundo. Transporta o universo exterior para dentro do espaço expositivo de um modo inteligente, direto e provocador. Nela, identifica-se uma profunda consciência da história, não somente por relação ao passado, mas também ao presente, pois Holzer identifica o peso histórico da atualidade e dos seus eventos. É, justamente, a partir de um claro discernimento do que a rodeia que a artista trabalha e explora aquilo que determina e interfere com a realidade e com a sociedade. Aliás, como nos revela Philippe Vergne, nesta sua última curadoria enquanto diretor do Museu de Serralves, ao longo da conceção e da montagem da exposição, alguns elementos foram alterados e adaptados de acordo com o desenrolar de diferentes acontecimentos.

Resultando de um exímio domínio do texto e da palavra, a obra de Holzer é poesia visual e o texto nela contido deve ser tanto lido, quanto visto. Convoquemos Mallarmé, para o qual a escrita existia, justamente, para ser lida e contemplada. E se em Mallarmé a página em branco funcionava enquanto elemento visual, ativo e significante do poema, em Holzer o texto transfere-se da página e é inserido ora na arquitetura e na paisagem urbana, ora no espaço institucional do museu. Ruas, edifícios, painéis e galerias tornam-se as suas páginas. E a partir desse cruzamento, entre imagem e palavra, materializam-se ideias e representações.

Holzer destaca-se dos demais artistas norte-americanos, desde o final da década de 70, sendo uma das mais importantes figuras e vozes da arte contemporânea. Compreende o poder da imagem e o do discurso público na transmissão de mensagens, na afirmação de pontos de vista e na disseminação de ideias. Relembre-se a série "Truisms", criada em 77, que consiste em centenas de máximas, asserções lógicas e enunciados que condensam teorias filosóficas, crenças populares e ideologias. As frases apresentam pontos de vista contraditórios, pois não se trata de verdades ou dogmas, mas de desafios ao pensamento crítico, a convicções e a preconceitos que pautam a nossa sociedade.

A primeira sala é invadida pelos “Inflammatory Essays” (1979-1982), que consistem em diversas declarações provocatórias, algumas delas agora traduzidas para português. Nesta exposição, fazem-se acompanhar de uma imagem e gravações sonoras que convocam o presidente dos Estados Unidos da América. Assinale-se, a partir desta obra, uma das ideias basilares da exposição: a humanidade encontra-se, hoje, desafiada e corrompida pelo absurdo e pela brutalidade. A este insólito início seguem-se sarcófagos, da série “Laments” (1987-1989) que é descrita enquanto uma “crónica de mortes evitáveis” e nos recorda da finitude de todas as coisas. Nessas peças, encontram-se registados os mais diversos lamentos, tão explícitos quanto sarcásticos. Com outras inscrições, de excertos de diferentes textos da artista, surgem bancos de mármore, os “Memorial Bench” (1996). Ainda relativamente à efemeridade da vida, há uma instalação com ossos humanos, “Lustmord” (2026).

 

Vista da exposição Wrong Answers de Jenny Holzer, Museu de Serralves. © nvstudio / Cortesia Serralves

 

A atual exposição distribui-se numa larga extensão do museu de Serralves, das galerias 0 a 5 e na biblioteca. Nesta última, expressa-se o apreço da artista pela street art e são apresentados arquivos, tais como os seus primeiros rascunhos de escritos, fotografias dos “Truisms” em Nova Iorque (1978) e o seu “Livro de aforismos” (1977). Em toda a mostra, a arquitetura de Álvaro Siza foi tida em conta, até porque o espaço tem um papel central para Holzer, cujas obras são site-specific, i.e., adequadas ao lugar onde são inseridas. Porém, apesar de enquadrado no museu, o seu trabalho traz-nos a paisagem urbana, definida pela saturação imagética e textual, com informações na forma de slogans, cartazes, publicidade e propaganda. Também as visualidades da sinalética e da tecnologia das cidades são exploradas pela artista, sendo exemplo disso uma extensa instalação de LEDS intitulada “Broken” (2026).

Deste modo, Jenny Holzer articula as dimensões estética, poética e política, numa obra pertinente e urgente que nos confronta e desafia. Como se indica no início da exposição, a partir de uma anotação da Casa Branca entregue a Donald Trump, antes do seu discurso no comício que antecedeu a invasão do Capitólio, “They are ready when you are”. A exposição está pronta para o receber, até 1 de novembro.

 

 

Constança Babo


(Porto, 1992) é crítica de arte e membro da AICA Portugal. É doutorada em Arte dos Media e Comunicação pela Universidade Lusófona, mestre em Estudos Artísticos - Teoria e Crítica de Arte, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, e licenciada em Artes Visuais - Fotografia, pela Escola Superior Artística do Porto. Realizou, igualmente, os cursos Curating New Media Art e Redefining Museums: Curatorial Theory and Practice for a New Era, no Node Center – Curatorial Studies Online, e Questions of Judgement, na Universitat der Kunst Berlin. Foi research fellow no projeto internacional BEYOND MATTER, no Zentrum fur Kunst und Medien Karlsruhe, e colaborou como investigadora no projeto MODINA, na Tallinn University. Também publica artigos científicos.

 



CONSTANÇA BABO