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TIAGO MADALENONO PESCOÇO DO CISNEMAIS SILVA GALLERY Rua do Duque de Saldanha, 424 4300-462 Porto 13 JUN - 01 AGO 2026 Um Atlas para o Maculado
Apenas o título: Ex-votos nas piras do Santuário de Fátima, carne proibida, iguaria de luxo, o algarismo dois, a outra metade, mulheres que esticam o pescoço, Leda, Björk, Odette, patinho feio, WC Pato… Eis-me em modo de obsessivo, iconoclasta, já ao encontro desta exposição, a remexer a calmaria das águas mentais [1], por onde este branco e imaculado cisne poderia ousar um gracioso travelling — Este qual? Este que passou a habitar o campo da minha percepção, entre o encontro com o título e a visita à Galeria Mais Silva no Porto. Mostrei as fotografias do telemóvel dos últimos dias ao Tiago (como quem inconscientemente pede explicações ao presumível culpado)…O cisne perseguia-me. E com ele, o viés de confirmação da IA, à qual tantas vezes damos permissão para aceder à galeria…Espelho meu, espelho meu…"Art must be beautiful, artist must be beautiful”. Depois desta exposição, estaremos porventura aptos a — sem neuroses de maior — contemplar flutuantes cisnes nos lagos das nossas reflexões profundas…Gracefully — Still waters, run deep. Isto digo eu, o Tiago não está minimamente pré-ocupado com as reflexões alheias. Está auto convocado para o seu jogo, o que é cada vez mais raro. Desde logo uma textura, a vontade de avançar a contrapelo pelo pescoço. Disse-nos o artista no entanto, que primeiro foi a visão e não o tacto; a visão do branco — o branco, branco, branco. Antes ainda de entrar, a montra: A árvore no exterior investe a sua sombra sobre o que está exposto, tornando-o (ainda mais) imagem em movimento. O que está exposto já não é, assim, branco, branco, branco. O que está exposto não se fixa na moldura da vitrine. Uma vez mais: Uma imagem não é o que se vê, mas aquilo que permite ver. E é aí que começa o ataque ao cisne — ao seu fechamento em toda e qualquer imagem. O que vemos na montra é, precisamente, um arremesso vindo do seu interior; o próprio tempo explodido — “TICK TOCK”. Entramos enfim. O desejo de avançar a contrapelo desloca-se para os pés: Um tapete, a mesma textura densa da penugem do pescoço; o mesmo material da peça exposta na montra. Um tapete branco…Ou nem tanto: O evitamento de o pisar alternado pelas três passagens protocolares; duas com o pé direito, uma com o esquerdo. Aqui se constitui a nossa relação com o imaculado; a obra de arte é o tapete branco, um díptico intitulado “WELCOME” — Há outro, noutra entrada da Galeria, no outro limiar da morada deste cisne que não se deixa domesticar em imagens fechadas, pensando agora uma famosa e demorada reflexão em torno do habitar, enquanto sinónimo do Ser, na qual um limite não é onde algo termina, mas onde alguma coisa dá início à essência [2], tornada aqui presença, e portanto incapturável. A entrada da visitante foi trapalhona…Imprópria (ou não) de um gracioso cisne branco. Diz-nos o Tiago que o espaço da Galeria Mais Silva tem um traço de espaço doméstico que o interessou, por relação a uma história de um seu interlocutor antigo: Kurt Schwitters. Conta-nos que no seu exílio no Reino Unido, o artista de vanguarda alemão teve de “negociar a sua presença” no edifício onde morava juntamente com a sua senhoria, devido a um tapete branco, sobre o qual teria de passar para aceder ao sótão que esta lhe arrendava. As suas passagens foram então tiranicamente reguladas de modo a sujá-lo o menos possível: Três vezes por dia. O significante de “WELCOME” — a imagem da palavra — foi destabilizado pelo Tiago em ambos os tapetes do díptico, numa espécie de twist da fita de Möbius, ou puxão do tapete do interior para o exterior e vice-versa. Afinal, a minha trapalhona entrada (e segundo soube de muitos outros que ali passaram) aproxima-me afetivamente do artista que passed away há muito. Um afeto não é uma experiência isolada da consciência de um sujeito; alguns de nós experimentam com muita clareza o seu agenciamento nos processos artísticos. Chegam-nos interlocutores de tempos-outros; figuras, nesse sentido que Maria Gabriela Llansol fixou, emergindo enquanto experiências de afetação fundadoras, em fluxo porque carregadas de um excesso de energia que não cabe no tempo, quase tocando perigosamente o cerne da Vida, da qual não se pode dispor, para lá do próprio sujeito. Kurt Schwitters não será propriamente um amigo imaginário do Tiago, pois não se trata aqui da sua aparição enquanto deriva ficcional; antes — arrisco-me — de uma disponibilidade afim em ambos artistas, para certas experiências de afetação, naquilo que uma experiência subjectiva permite tornar objetivo e vice-versa, sem prejuízo de um sentido de mistério, que não é sinónimo de irracionalismo. A leitura das histórias de Kurt Schwitters é assim Curso de Vida; ação criadora co-incidente — Um raio de foco partilhado anacronicamente. Nada importa a sua veracidade, mas sim o traço, a mancha…A sujidade que deixaram no espaço em que a criação toma Lugar, podendo coincidir, como aqui acontece, com o espaço pictórico. A visitante desta exposição é agora tomada por uma enorme vontade de passar energicamente os pés pelo tapete; com o mesmo vigor com que Marina Abramović escovou o cabelo; bem mais do que três…Tantas quanto Kurt Schwitters precisar para se libertar da tirânica-britânica senhoria. A Vida é perigosa; podemos morrer a cada instante de tão vivos — tamanha incidência de carga energética faz explodir o tempo, em constelação, i. e., enquanto acontecimento figurativo do Ser, isso mesmo que nos coloca em relação com outros, por vezes até não humanos, anacronicamente. Foi o que aconteceu em “TICK TOCK”; conta-nos o Tiago, que enquanto pintava paisagem, no exterior, um cisne roubou e engoliu o relógio de bolso de Kurt Schwitters. Nada pôde fazer pois o cisne-mudo é uma espécie protegida e que pertence à Coroa Britânica desde o século XII. Retomando o traço doméstico da Galeria — a saber, comercial, e para a qual lhe foi proposto um projecto de raiz — traço esse que tanto interessou o artista, pensemos agora em habitar enquanto um traço do Ser [3] — sem violinos e/ou habitações com design minimalista para promoção imobiliária em mente. Ser como essa incompletude que nos coloca à escuta de outros que não eu (redundância consciente), acolhendo e sendo acolhidos; experiência essa, por princípio, sem necessidade de documentação, podendo acontecer em pleno exílio. É o Tiago ainda quem nos abastece de imagens — em caso algum de explicações, pois o seu trabalho não se inscreve no lugar da eficácia pela comunicabilidade —, por conseguinte, incita a reflexão: Em exílio, o artista alemão é forçado a abdicar do seu estatuto de artista de vanguarda; ali, a sua obra não é vista. Para sobreviver, chega mesmo a criar outras identidades, passando a assinar pintura com temáticas mais comerciais, como flores ou naturezas mortas; inclusive a ganhar o primeiro e segundo prémio de um concurso de pintura. É este delicado gancho de “naturezas mortas” que tanto me intriga, por relação à experiência que Maria Gabriela Llansol designa por Restante Vida; ou seja, o excesso de energia vital que esta exposição continua: O que Kurt Schwitters em exílio não pôde afirmar enquanto vanguarda artística torna-se agora aquilo que permite ver, sem representar o quer que seja. O Tiago inventariou as pinturas comerciais do artista alemão, tornando-as a matriz invisível contemporizada do corpo de trabalho desenvolvido especificamente para este espaço, onde também tem Lugar a sua primeira exposição individual numa galeria comercial — Como veremos de imediato, tudo aqui se torna silenciosamente cúmplice. A hostilidade da senhoria e do exílio transfigura-se: É acontecimento figurativo do Ser, onde é possível habitar o inacabado de cada um e o do mundo. As imagens permanecem abertas…A elegância é sempre sinónimo de acolhimento: “WELCOME”. O continuum de imagens que é a Arte não se dissipa, procura novos interlocutores; pois a memória pode vir ter connosco: As tais figuras para as quais é preciso criar um Lugar sem tempo cronológico; o que já passou, pode assim voltar a passar através de metamorfoses sucessivas, em espaço seguro, sem a angustia das oportunidades perdidas — É também neste sentido que habitar é um traço do Ser. As figuras não são personagens com quem se cria identificação, são antes qualidades expressivas das experiências que afetam — inclusive as histórias — em permanente jogo, atualizando a nossa percepção. Temos vindo a esquecer que uma imagem é um ser; está em devir e para o Tiago não há nada de empático; há apenas jogo, jogado com rigor. Fala-nos de um gesto sinestésico: Pelo branco (branco, branco) silenciar o som do ponteiro do relógio engolido; podemos encontrar nas várias peças e pinturas traços do significante dessa imagem sonora, não fosse este um cisne-mudo. Por outro, como também refere, é-lhe necessário destabilizar quaisquer associações entre o espaço da Galeria Mais Silva e a White Cube Gallery, essa referência enquanto receptáculo esterilizado (clean) para obras de arte; interessa-lhe a intrusividade, o diálogo entre quem recebe e quem é recebido, i.e., uma vez mais, “negociar presença(s)” indesejáveis sobre o branco: Começa com o fumo — a pintura com fumo de vela — até ganhar contorno de bolor, graffiti, mosca, fissura, remendo, esgoto, doença…Toda uma vida bacteriana e/ou marginal invisível tornada espaço pictórico, testemunhada secretamente pela pintura de Kurt Schwitters — Quem? O artista alemão que há muito que se foi enquanto referente. A pesquisa dos materiais e técnicas e o próprio espaço da Galeria apontam agora novos caminhos — o Aberto das imagens…Das imagens que não aprisionam, pois claro. Veja-se o verso negro pontilhado do modelo de tapete branco encontrado em fábrica (o mesmo material usado em “TICK TOCK”, “WELCOME”, “Respiração visível”, “O bule e a paisagem” ou “A dim bulb”: O cisne ausente torna-se presença emprestando-lhe aspetos da sua pele e penas negras; as que as grandes e brancas escondem. Esse padrão encontrado por co-indidência significativa é também reproduzido na pintura e perdido o referente. Pintura essa, apresentada sem moldura, sugerindo a desintegração das paredes da Galeria, como se de tinta escalavrada se tratasse. Em “Respiração visível” apropria-se da mancha pré-existente do pavimento do mosaico hidráulico; uma "quebra na homogeneidade" do pavimento reparada pelo artista, tornada molde para a própria peça. A matriz como nas restantes obras desaparece; foi reparada pelo técnico de manutenção da galeria — os puristas mais obsessivos podem respirar fundo. Já em “O bule e a paisagem” o cisne-mudo empresta a elegante curvatura do pescoço ao bule na eminência de manchar a carpete no desencontro neurótico com a chávena. Nesta paisagem perigosa de curvas e contracurvas, acidentalmente, também o pescoço se torna (c)asa. Um acidente anatómico e um ato falho do Tiago, que trocou bule por chávena nas indicações para o título da peça na folha de sala — Confidenciou-nos que a chávena é uma persistência escondida, pouco evidente, porém de outro trabalho. Há porém que reflectir fenomenológicamente; i.e., rigorosamente, sobre os conteúdos da consciência. Toda a exposição é um Atlas para o Maculado. Agora o que me ‘dá nervos’ é mesmo esta peça, sítio-especificamente posicionada junto das escadas…Mas como ainda estou afetada pela obsessão neurótica da senhoria tirânica-britânica…Descubro o mais temível: Temos algo em comum. Um certo grau de intolerância emerge quando alguém pisa pela primeira vez os meus mais recentes ténis brancos. Como um real cisne-mudo, e portanto pouco vocal, grito, sem no entanto imprimir caracteres. Com requintes de malvadez, o Tiago expõe a minha fragilidade em gradientes de pisadelas, chamando(me) “A dim bulb” à peça — a saber, na gíria, lerda. A Arte que a mim me interessa é a que revela algo que não sei sobre mim própria. Tenho uns ténis calçados neste dia, quase brancos, quase novos… "Este choro terá de ser limpo com a mesma prontidão animalesca com que se acorre a uma criança recém-nascida" ou "Com o mesmo desvario com que se persegue a felicidade num mundo insensível" são alguns dos títulos das obras, que podemos ler na folha de sala. São pequenos (com)textos que "não permitem que o que revela[m] fique velado no nada que revela, conduzindo a linguagem à própria linguagem". [4] Nada de cisne, o cisne nada.
Ver as obras individualmente aqui (no final da página). A autora agradece a generosidade do Tiago Madaleno; a partilha imagética presencial na exposição.
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Madalena Folgado é formada em arquitetura, mas a sua abordagem de investigação fenomenólogica — o contrário do controlar e prever da prática de projeto em arquitetura — fê-la organicamente deslocar-se para contextos artísticos passíveis de acolher processualidades híbridas, constelares/ anacrónicas. Neste sentido, interessa-lhe a construção pela montagem — e também montagem em tempo real —, de espaços para reme-morar e re-membrar Corpos de Imagens enquanto Corpos de Afetos, na charneira entre o individual e o coletivo, de modo íntegro e intrincado — Do com-texto ao espaço físico; o Lugar enquanto combinação de memória e espaço, com potencial performativo emergente. O acaso como elemento por excelência da arte é o grande catalisador da sua prática híbrida. >>>
Notas: [1] Expressão utilizada em vários textos de autores como Roberto Calasso, Giorgio Agamben, Georges Didi-Huberman, para se referirem à experiência da aparição da ninfa, enquanto fonte das imagens artísticas, bem como ao painel 46 do Mnemosyne Atlas de Aby Warburg. [2] Martin Heidegger, “Construir, habitar, pensar” in Ensaios e conferências, Petrópolis, Vozes, 2001. [3] Idem. [4] Giorgio Agamben, “Shekhina”, in a comunidade que vem, Lisboa, Editorial Presença, 1993.
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