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EXPOSIÇÕES ATUAIS


José Loureiro, Sem título, 1992. Crayon conté sobre papel.


José Loureiro, Sem título, 1991.


José Loureiro, Sem título, 1990.


José Loureiro, Boca, 1990. Guache sobre papel.


José Loureiro, Sem título, 1994. Grafite e caneta de feltro sobre papel.


José Loureiro, Sem título, 1995. Grafite e guache sobre papel.

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CATARINA REAL

ARQUIVO:


JOSÉ LOUREIRO

As piores flores: Desenho 1990 – 1996




CULTURGEST
Edifício Sede da Caixa Geral de Depósitos, Rua Arco do Cego
1000-300 Lisboa

22 OUT - 22 JAN 2012



podem chamar-lhe um esboço, se quiserem,
mas um esboço perfeito.

Baudelaire





As piores flores dá título à retrospectiva de José Loureiro actualmente em exposição na Culturgest. Com um carácter antológico e, pretendendo evidenciar uma rigorosa cronologia evolutiva, a exposição conta com mais de 300 desenhos criados pelo artista nos primeiros seis anos da década de 90. As mutações técnicas e conceptuais vividas ao longo destes seis anos do percurso artístico de José Loureiro estão manifestas numa descontinuidade não desprovida de sentido, pois que sentimos que é um caminho trilhado numa busca por algo de que nos vamos aproximando ao contemplar os seus desenhos, numa partilha da inquietação do artista em lá chegar.


I. Desenho

O título da exposição parece ser uma alusão ao estatuto que o desenho geralmente evoca, tendo sido quase sempre encarado pelos artistas como uma ferramenta de trabalho: mero ensaio, tentativa, rascunho, esquiço de algo maior e tecnicamente mais complexo. “Os desenhos atingem um zénite de auto-derisão temática ainda mais agressiva, e é patente a urgência com que são feitos. Eles não são conclusivos, passo imediatamente de um desenho para outro, e essa rapidez torna-se predadora. Parece-me que queria abrir várias frentes, mesmo conflituantes entre si, e isso não me incomodava” (1), afirma o artista. A pungência do desenho está então no seu carácter de experimentação frenética. Deste modo, a exposição ganha a forma de um laboratório onde podemos penetrar nas oscilações criativas do artista.


II. Sinfonia de Cores

Nas primeiras séries, nomeadamente Boca, Nariz e Orelha, todas de 1990, partes do corpo são retratadas em guache sobre papel, desincorporadas e colocadas em isolamento sobre fundos de cores fortes que conferem ao objecto central determinada expressão e atmosfera. Deformação e fragmentação parecem ser aqui palavras de ordem. Também em Naturezas Mortas (1990), os objectos são dificilmente identificáveis, no entanto, a mesa, sobre a qual são dispostos os objectos, é um elemento constante. Por vezes vislumbramos um pássaro, uma garrafa, uma jarra, um copo: objectos arrancados à realidade para serem posteriormente deformados em cores e sombras. A série Sem Título, ainda de 1990, é onde vislumbramos representações da figura humana na mesma linha de deformação, sendo que aqui as cores do fundo exercem um importante papel, conferindo expressões e mesmo sentimentos às personagens que se vão apresentando. Detectamos uma posição, uma estatura, por vezes o sexo, mas é sempre algo de figurativamente vago mas sensorialmente intenso, como se apenas tivéssemos acesso a um espírito, nunca a um corpo.

Em A Bandeira (1990), numa série de desenhos a bandeira nacional é representada, moldada pelo vento. Os desenhos, dispostos em sequência, descrevem um movimento que as deforma. Também aqui os diferentes fundos contaminam o objecto central com diferentes atmosferas. Segue-se uma série de desenhos pornográficos nos quais a sexualidade é explorada num misto de erotismo e animalidade. Os corpos nus adquirem uma plasticidade maleável e os seus rostos evocam uma depravação libertina, quase cómica.

Caderno de Desenho (1991) é um espólio variado de retratos de objectos e animais. O facto de, nos próprios desenhos, estar um quadro onde são representadas as figuras remete para uma pré-existência desses mesmos quadros, como se tivessem sido copiados.


III. O Duplicado

José Loureiro segue então para uma outra trama conceptual na qual a simetria é o epicentro. A exploração figurativa da duplicação, através do simples traço negro, está na origem de um conjunto de obras onde tudo existe em duplicado, como se para cada objecto existisse um espelho que o reflectisse meticulosamente. Estamos ainda no plano do figurativo, a realidade expõem-se com simplicidade e precisão: rostos humanos, animais, símbolos, objectos variados.
A repetição torna-se aqui uma problemática, pois esta parece ser a re-exploração de uma figura e não uma mera duplicação da mesma: o efeito espelho coloca o mesmo objecto frente a frente, como se estivéssemos perante duas perspectivas opostas de um mesmo objecto.


IV. Da figuração à Abstracção

É com Palavras Cruzadas (1994) que se torna manifesta a travessia de José Loureiro para a abstracção pictórica. A grelha que enquadra as palavras cruzadas é repetidamente trabalhada, a grafite e guache sobre papel, como se ao invés de usar as letras que compõem as palavras, pudéssemos comunicar através de manchas, formas, traços de diferentes tonalidades e tamanhos. Uma nova linguagem invade o espaço do jogo das palavras que se cruzam, dando-lhe uma atmosfera quase musical, um ritmo, um estado de espírito. Partindo da grelha, o artista permanece no domínio da abstracção geométrica, recorrendo mesmo à folha de papel milimétrico, para posteriormente invadir o espaço da folha, infimamente ordenado pelas pequenas quadrículas, com cores, círculos, manchas, evidenciando um conflito extremo entre as formas. Do quadrado, passamos para o círculo como forma de eleição. Os padrões sobrepõem-se: a dualidade forma-cor na sua infinita fertilidade invade-nos. Transborda.

Saímos da sala mais ricos em cor e luz, com o sentimento apaziguador de termos chegado exactamente onde devíamos.




Notas
(1) José Loureiro entrevistado por Miguel Wandschneider, Culturgest, As Piores Flores, Lisboa, 2011, p. 4.


Maria Beatriz Marquilhas