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EXPOSIÇÕES ATUAIS


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ARQUIVO:


NUNO CERA

Dérive Noire




GALERIA PEDRO CERA
Rua do Patrocínio, 67 E
1350-229 Lisboa

28 FEV - 06 ABR 2013


“O elemento nostálgico que cada imagem e fotografia têm agarrado à sua pele e do qual não se podem libertar, deve-se à consciência que o contacto só acontece à superfície daquilo que há, nunca toca o fundo, a origem. (...) Para além de serem janelas sobre o mundo, as imagens, as imagens devolvem a sua própria condição de possibilidade, o ponto de vista. O que nos faz ficar imersos e perdidos em imagens de imagens, em reflexos de reflexos: ambicionamos o todo, mas só alcançamos o fragmento, a parte, o incompleto.” [1]

Nuno Cera apresenta, na Galeria Pedro Cera, o seu mais recente trabalho, Dérive Noire, um projeto descrito entre Lisboa e Berlim, uma série de imagens onde ressurgem alguns elementos recorrentes do seu trabalho. Lembro, recuando a 2005 e 2006, as propostas de LOST, LOST, LOST #9 ou Unité d’habitation #5, que agora se vêem repensadas através de novos dispositivos e de outras “narrativas”.

Dérive Noire é o resultado de deambulações, de um vaguear noctívago. Nuno Cera assume-se como flâneur noturno, entre cidades, espaços, onde se encontra, se perde e cria. Através de Nuno Cera, os espaços criam imagens, que por sua vez, criam novos espaços.

Fragmentos, assimetrias, texturas, densidades e profundidades que limitam e abrem o tempo que o artista escolhe marcar. As fachadas apresentadas por Cera são a imagem da superfície que demarca a arquitetura. No entanto, não é de arquitetura que se está a falar. Fala-se do vazio, das sombras, da vida escondida pela fachada. Já conhecemos os Fantasmas de Nuno Cera [2], aqui fugimos deles: os momentos suspensos que aqui nos são dados são fruto de uma relação corpórea, habitada, com o tempo, com a noite e com a cidade.

Será a fachada um muro intransponível ou antes um espelho? Será pele ou couraça? Sítio ou lugar?

Nuno Crespo refere, no seu texto, que este trabalho de Cera explora “o modo como os dispositivos materiais são sistemas primitivos de relação humana com o espaço e como evocam as memórias humanas mais primordiais.“ [3]

Aqui fala-se de memória, de tempo, de espaço, de psicogeografias, de deriva.

O vaguear de Nuno Cera é materializado numa escala de cinzentos, através do ruído do grão que se reúne, visível, à medida que nos aproximamos das imagens, intensificando-as. Por outro lado, estas imagens, pelo seu contexto, olhar e composição sugerem stills, narrativas perdidas no tempo, tornando-nos voyeurs.

A forma e a escala com que Nuno Cera imprime as imagens confere à imagem um peso e uma densidade inusitada, sobretudo quando a câmara se desloca enquanto a imagem é captada, alimentando uma sensação de incerteza, de um gesto desviante.

Na galeria, estas imagens repousam, assépticas, mas deixam sinais de vida através das suas luzes, sempre presentes.



NOTAS

[1] Nuno Crespo, “Fragmento e Totalidade” in Fantasmas/Phantoms. Lisboa: Centro Cultural de Belém, 2006, p. 33.

[2] Fantasmas/Phantoms com textos de Teresa Macrì, Nuno Crespo, Wolf Guenter Thiel. Lisboa: Centro Cultural de Belém, 2006.

[3]Texto de sala da exposição Dérive Noire na Galeria Pedro Cera, Fevereiro 2013.

Patrícia Trindade