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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Carina Rafael, "Gaia hi-tech"


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ARQUIVO:


CARINA RAFAEL

Gaia hi-tech




GALERIA MCO



16 JUN - 20 JUL 2006

Alquimia do Entendimento

«And would it have been worth it, after all,
After the cups, the marmalade, the tea,
Among the porcelain, among some talk of you and me,
Would it have been worth while,
To have bitten off the matter with a smile,
To have squeezed the universe into a ball
To roll it towards some overwhelming question,
To say: “I am Lazarus, come from the dead,
Come back to tell you all, I shall tell you allâ€â€”
If one, settling a pillow by her head
Should say: “That is not what I meant at all;
That is not it, at all.â€Â»
T.S. Eliot
The Love Song of J. Alfred Prufrock


No espaço screenplay da galeria MCO, no Porto, está em exibição o vídeo de Carina Rafael: “Gaia hi-techâ€. Iniciando o seu percurso na escultura, a artista tem vindo ultimamente a dedicar-se ao vídeo, sendo esta a segunda exibição pública do seu trabalho neste meio (a primeira nos Maus Hábitos, com o vídeo “Esperança no destinoâ€). Passando por cima de uma afectação à escola em algumas escolhas de utilização da linguagem técnica, que redundam em falta de singularidade no seu estilo, o trabalho tende para o registo documental, mas afasta-se dele pela forma como a banda imagem e a banda som são tratadas, e também pela preparação do espaço para o acontecimento da exposição. Os dois registos (imagem e som) são independentes e trabalhados como elementos de produção de um discurso individual.

Sem deixar de ser pertinente, o tema não é novo. Com uma sucata como pano de fundo, uma personagem feminina tenta agarrar o discurso monocórdico e hipnótico de uma espírita. A imagem e o som confrontam-se na representação de dois extremos da nossa sociedade de consumo; de um lado, como cenário, a concentração dos resíduos e desperdícios das nossas necessidades materiais e do outro, como linha condutora de um pensamento abstracto e subjectivo, a alusão a um produto de consumo espiritual. A presença da artista vive o esforço nonsense e quase patético de conciliação entre dois discursos antinómicos, um sugerido pela paisagem árida e aberta e outro pela voz ressoante e protectora. A figura humana luta por participar, tentando colar a oração sobre a natureza e a justeza das suas forças (a esperança), ao habitat mecânico e apocalíptico do lixo que, metálico e corrosivo, anuncia o fim da vida.

A citação de Eliot que precede este artigo veio-nos à memória por expressar a impossibilidade de comunicação entre esferas distintas (no poema entre Prufrock e a sua amada) e que vemos aqui a acontecer entre a natureza e a civilização (ou entre os planos espiritual e material). Ambas “pensam†comportar tudo, logo dispensando o esforço de um movimento para o encontro. No trabalho em causa, a artista introduz-se entre estes dois espaços e, num esforço terapêutico, personificando a figura da sacerdotisa ou do xamã, faz-nos entender que vivemos em espaços e tempos quebrados, que o homem contemporâneo é estilhaçado pela progressivo afastamento de um topos que se pretendia universal e original. Sem fazer o elogio ou o ataque de nenhum dos campos, a artista tenta desenvolver uma neutralidade que possibilite a sua actuação como medium de comunicação, tomando uma posição performativa face ao espectador. Na linha de outros vídeos de Carina Rafael, o ponto focal de “Gaia hi-tech†coincide sobre os problemas da identidade (ou das ficções identitárias) colectivas ou individuais. Com referências como Marina Abramovic ou Patrick Keiller, o trabalho da autora reflecte uma preocupação com a progressiva urbanização das nossas sociedades e advoga para a arte um papel activo no contrabalançar da progressiva e desumana aceleração dos nossos ritmos quotidianos.


José Roseira