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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição.


Aparelho que viaja à mesma velocidade que uma corrente submarina, 1993 e 1994 (2014).


Pó doméstico (1991).


Vista da exposição.


Vista da exposição.

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ARQUIVO:


FRANCISCO TROPA

PROTÓTIPOS




GALERIA QUADRADO AZUL (NOVO ESPAÇO EM LISBOA)
Rua Reinaldo Ferreira, nº 20-A, em Alvalade.
1700-323 Lisboa

13 FEV - 18 ABR 2015



Que outra tarefa para a arte, hoje,
senão confrontar-se com as questões primeira e última?

Federico Ferrari [1]

 


Quando entramos no universo artístico de Francisco Tropa, temos a vaga sensação de entrar no gabinete de um alquimista. O seu trabalho nasce da estupefacção que nos leva a colocar as mesmas questões vezes sem conta, cientes da impossibilidade da resposta. Poder-se-ia falar de uma estranheza perante o mundo, se essa não fosse de imediato substituída pelo deslumbramento. E, com Tropa, somos relembrados de que o artista é aquele que se deslumbra, perante o que se cria, o que se perde, o que se transforma.

“Protótipos” dá nome à exposição que Francisco Tropa apresenta na galeria Quadrado Azul, em Lisboa, com curadoria de Simone Menegoi. A exposição reúne uma diversidade de obras do artista, realizadas entre 1991 e 2015, desvelando uma ideia que de imediato compreendemos como ponto convergente do seu percurso. O objecto enquanto jogo, o objecto que falha a sua funcionalidade, o objecto enquanto presença partilhada com a nossa. Talvez estejamos perante a busca por uma fórmula, no entanto, o que importa aqui é a existência pueril desses objectos antes do nosso entendimento as resgatar e lhes impor uma ordem demasiado humana para os deixar intactos. A relação do Homem com os objectos foi sempre ditada pela imposição de uma métrica ou de uma funcionalidade tendencialmente aperfeiçoada. No entanto, ao evidenciar a falha – ou a inutilidade – dessa categorização, Tropa não incorre numa crítica mas sim num desvio que culmina na ligação primordial e derradeira que estabelecemos com o mundo e com os seus objectos: a contemplação.

Algumas das obras de “Protótipos” parecem questionar a própria funcionalidade do objecto, não ao averiguar se esta é falhada ou bem-sucedida, mas construindo uma caricatura do próprio uso que damos a esse mesmo objecto. “Placas Solares” (1992), “Filtro” (1991) e “Pó Doméstico” (1991) são exemplos desse questionamento, ao abrigar a falha ou a inutilidade como parte integrante do mecanismo desses objectos. O milenar problema da mimesis marca também a sua presença, numa abordagem que torna manifesto o eco de Marcel Duchamp no percurso artístico de Tropa. “Tomada” (2015), “Interruptor” (2015) e “Enxada” (2007) são réplicas desses objectos, primariamente ligados a gestos repetidos no quotidiano ou ao labor, e cuja natureza estética parece ser aqui sublinhada – não sem uma certa ironia – pela escolha do bronze como matéria para lhes dar forma.

“Na Natureza nada é inútil, nem mesmo a inutilidade.” É Montaigne que o afirma, mas a mesma ideia está contida em cada uma das peças de Tropa. A exploração das diversas relações que podemos estabelecer com um objecto parece anunciar já a puramente estética como o único modo de estar entre esses objectos. “Não há nem imitação nem figuração na natureza, pois a natureza é – como nos mostra a arte – figurativa e abstracta ao mesmo tempo” [2]. Só a contemplação abriga o erro, o desvio, o disfuncional, a desmesura que falha a qualquer tentativa de medição ou quantificação.

“Protótipos” apresenta-nos “um conjunto de instrumentos-obras que condizem com o que Vladimir Nabokov apontava como a suprema ambição do escritor: a de combinar “a precisão do poeta com a imaginação do cientista”.” [3] Em “Templo das Alegorias” (2004), observamos uma lata de salsichas suspensa no centro de uma estrutura metálica triangular; é-nos indicado que, para que o “instrumento de comunicação” funcione, o relógio de um familiar falecido deve ser colocado na lata. Um misticismo poético que, aliado ao rigor do inventor de laboratório, parece servir um propósito um tanto obscuro: o de encontrar as respostas erradas para as perguntas que nos ensinaram a calar. Falhando a equação, a fertilidade do equívoco – e o espanto que com ele nos assola – torna-se alicerce de toda a criação.

 


Maria Beatriz Marquilhas

 

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Notas


[1] Federico Ferrari, De Rerum Natura – O materialismo estático de Francisco Tropa, tradução de Ana Pedro, editado por ocasião da exposição Scripta, Galeria Quadrdo Azul, Lisboa, 2010.
[2] Ibid.
[3] Simone Menegoi, Protótipos, texto de sala, Galeria Quadrado Azul, Lisboa, 2015.

 

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[a autora escreve de acordo com a antiga ortografia]



Maria Beatriz Marquilhas