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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Gordon Matta-Clark


Gordon Matta-Clark, "Opening The doors for FOOD", 1971


Gordon Matta-Clark, "Anarchitecture", 1974


Gordon Matta-Clark, "Conical Intersect", 1975


Gordon Matta-Clark, "Day´s End", 1975

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ARQUIVO:


GORDON MATTA-CLARK

Gordon Matta-Clark




MUSEO NACIONAL CENTRO DE ARTE REINA SOFÃA
Santa Isabel 52
28012 Madrid

04 JUL - 16 OUT 2006

Gordon Matta-Clark. Extração da pedra da loucura.

Actualmente, está em exibição no MNCARS uma das exposições mais interessantes e pertinentes dos últimos tempos, não apenas por estar dedicada a Gordon Matta-Clark (1943-1978), representante daquele movimento surgido durante os finais dos anos 60 chamado Anarchitecture, mas porque nela podemos presenciar a mudança decisiva na orientação conceptual e técnica da arte actual. Se a sua obra se viu atravessada pela morte do próprio autor, também está relacionada com o carácter destrutivo, niilista e poético das suas próprias acções. Esta exposição, dedicada à fase final do seu trabalho, entre os anos 1971-78, é composta por um percurso através das suas fotografias, colagens, dos seus desenhos e dezanove filmes, onde podemos ver o artista a procurar espaços aparentemente inúteis, inóspitos, despejados. É precisamente esta intromissão no espaço da cidade que situa Matta-Clark no limite, não apenas da recuperação de fábricas abandonadas, mas no umbral onde a destruição se converte numa ordem meditada. Neste sentido, podemos ver o artista procurando espaços baldios que foram vendidos em hasta pública pelas entidades camarárias de Nova Iorque, pintando linhas brancas que atravessam cercas e rodeiam as casas, falando da verdadeira apropriação do espaço urbano por parte do cidadão.

Como poderemos entender que a destruição possa ser poética? No trabalho puramente técnico de Matta-Clark podemos intuir uma paixão por desgastar pacientemente os espaços, abrindo-os para encontrar o que os sustém. É assim no modo como entrava nos edifícios que estavam prestes a ser demolidos para praticar neles estranhos círculos abertos para o exterior com uma intenção claramente simbólica. É assim no modo como divide literalmente uma casa com uma serra eléctrica ou decide levantar uma casa sobre uma barca e fá-la navegar através de um lago. Ao abrir estes espaços, Gordon Matta-Clark não está apenas a procurar os alicerces de uma cultura em retrocesso, mas a denunciar os valores sobre os quais vai crescendo a cidade. Chegar a um cemitério subterrâneo, incidir pacientemente na perfuração do solo de uma galeria de arte durante um mês inteiro, abrir un círculo na parede de um edifício que vai ser demolido traduz uma prática poética que converte a acção num labor trágico. Também, aparece a comédia como acontece nesse vídeo realizado na companhia de outros amigos, no qual pode ver-se Matta-Clark a realizar acções quotidianas e higiénicas como barbear-se, tomar duche ou o pequeno-almoço, empoleirado no relógio de um edifício. Esta intervenção irónica do artista, qual Harold Lloyd ressuscitado, mostra que o papel actual do artista não deve limitar-se à exposição de um trabalho pictórico, escultórico ou objectual. Apesar de as galerias com que trabalhava terem querido expor os restos das paredes e solos que ia extraindo, na realidade, as suas acções estão vinculadas a uma zona da loucura, no sentido de abrir um lugar na nossa experiência da realidade para deixar intacto o limite. Esta documentação era a prova de que algo se tinha passado, tinha acontecido, não somente o tempo, mas a consciência crítica com a própria tradição da arte, quando se entende o artístico como algo objectual, vendível, sofisticado. Se Matta-Clark se afasta desta consideração do artista, isso deve-se à estreita vinculação entre os sucessos de uma vida em que a presença do drama e a morte ficam inevitavelmente ligadas a uma concepção da arte enquanto catarse. Essa demolição radical é o resultado de uma destruição aberta, paciente, perseverante.

É deste modo que o percurso por esta magnífica exposição dirige paulatinamente o espectador até uma metafísica da arquitectura que não se deixa assombrar pelo poder elevador dos edifícios. Pelo contrário, no trabalho de Matta-Clark podemos encontrar sempre uma ironia e uma consciência do perigo a ponto de irromper: a abertura de novos canais que exteriorizam o que somos e o que seremos no seio de uma sociedade verdadeiramente aberta. Como avisava Heidegger, ao chegar à origem da obra de arte, se pretender alcançar a terra é chegar ao seu própio ocultamento, chegar à obra de arte é procurar na sua própria origem rasgada: “A ruptura deve retrair-se no peso da pedra, na muda dureza da madeira, no ardor obscuro das coresâ€.


José Luis Corazón Ardura