Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


Créditos fotográficos: Bruno Lopes.


Créditos fotográficos: Bruno Lopes.


Créditos fotográficos: Bruno Lopes.


Créditos fotográficos: Bruno Lopes.


Créditos fotográficos: Bruno Lopes.


Créditos fotográficos: Bruno Lopes.


Créditos fotográficos: Bruno Lopes.


Créditos fotográficos: Bruno Lopes.

Outras exposições actuais:

SILVESTRE PESTANA

COLAPSO


Galeria Municipal do Porto, Porto
ANA CAROLINA ESTEVES

TARRAH KRAJNAK

REPOSE EXPOSE COUNTERPOSE


Fondation A Stichting, Bruxelas
ISABEL STEIN

COLECTIVA

O PODER DE MINHAS MÃOS


Sesc Pompeia, São Paulo
CATARINA REAL

HELENA VALSECCHI

VAMPATA


Galeria Pedro Oliveira, Porto
SANDRA SILVA

ANNA MARIA MAIOLINO

TERRA POÉTICA


MAAT, Lisboa
MARIANA VARELA

SILVESTRE PESTANA

COLAPSO


Galeria Municipal do Porto, Porto
LEONOR GUERREIRO QUEIROZ

DANIEL BLAUFUKS

(AINDA) À ESPERA DE GODOT


Galeria Vera Cortês (Alvalade), Lisboa
MARIANA VARELA

AGNES ESSONTI LUQUE

HOTEL DEL ARTEFACTO EXPOLIADO


Museo Nacional de Antropología - Madrid, Madrid
FILIPA BOSSUET

ABEL RODRÍGUEZ

MOGAJE GUIHU: A ÁRVORE DA VIDA E DA ABUNDÂNCIA


MASP - Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, São Paulo
CATARINA REAL

JESSE WINE

AMOR E OUTROS ESTRANHOS


Fortes D'Aloia & Gabriel - Barra Funda, São Paulo
CATARINA REAL

ARQUIVO:


PEDRO VALDEZ CARDOSO

O FILHO DO CAÇADOR




APPLETON [BOX]
Rua Acácio Paiva, nº27 r/c
1700-004 Lisboa - Portugal

02 JUN - 30 JUN 2020


 

 

“O Filho do Caçador” de Pedro Valdez Cardoso encena um exercício estético e narrativo, deliberadamente oculto e fantasmático, que procura refletir sobre a identidade sexual, as relações familiares, o poder, a perda de inocência e o segredo.

Este corpus artístico criado por Valdez Cardoso é constituído por três obras interdisciplinares - uma instalação ( expandida e fragmentada no espaço, onde predomina o azul e transforma o espaço expositivo da Box da Appleton numa enorme sombra tridimensional que se assemelha a uma floresta ) ; uma peça de teatro ( cuja ação se desenrola numa cabana de caça numa floresta do norte da Europa) ; e um livro de artista (onde se enumeram as distintas referências visuais que inspiraram este projeto) – que sugerem uma intenção narrativa semelhante, embora expressa e materializada de distintas formas. Deste modo, o artista retoma um discurso já conhecido do seu léxico temático, regressando a temas antigos do seu imaginário, como a caça, a sombra, o poder e a monocromia visual.

A ideia inicial para o “O Filho do Caçador” surgiu há alguns anos atrás a partir de uma notícia que narrava uma história macabra passada no norte da Europa: Um caçador acidentalmente teria morto o seu próprio filho durante uma caçada. Partindo desta história, o artista, em parceria com Nuno Sousa Vieira, concebeu uma curta peça de teatro, que se apresenta como folha de sala da exposição.

Na peça, ao início da noite, pai e filho preparam-se para jantar, enquanto uma breve conversa faz despoletar um misto de sentimentos aprisionados e traz à tona um segredo do passado. As duas personagens que apresentam traços emocionais opostos potenciam a reflexão sobre o poder e a identidade. Se por um lado, o pai se apresenta como uma figura autoritária patriarcal, que transparece uma tranquilidade sinistra oriunda da consciência do poder e da invulnerabilidade; em oposição, o filho representa a fragilidade, a complacência e a ingenuidade curiosa.

À medida que nos aproximamos do final da peça, a tensão dramática adensa-se e os segredos outrora guardados acabam por se revelar: o irmão do filho do caçador (Jens G.) foi morto pelo próprio pai, devido à sua incompreensão do facto deste ser homossexual. A tensão latente, a agitação, a indiferença e austeridade do pai, anunciam-se tenuemente pelos interstícios da narrativa, como sendo os atributos do seu verdadeiro caracter. Trata-se de uma história sobre verdades apagadas, ocultação e dissimulação.

 

 

Créditos fotográficos: Bruno Lopes.

 

 

Envolto numa aura sombria e sedutora, o espaço expositivo da Appleton Box apresenta uma obra que incita a aproximação do espectador desafiando-o a decifrar os elementos, por entre sombras e silhuetas. Nesta floresta armadilhada, habilmente tecida, surgem objetos vários - ossos, galochas, escoras metálicas, baldes, folhas ou tecidos - que aludem de forma subtil à história contada na peça de teatro. Na penumbra, o espectador é transportado ora para o interior (cabana) ora para o exterior (floresta) onde se desenrola a ação dramática.

Os “atores” desta história abandonaram o espaço plástico, mas os seus rastos sentimentais não se apagaram e são-nos devolvidos, com uma intensão artística metafisica, sob tensão psicológica e exatidão cenográfica.

Esta dissimulação visual exacerbada pelo azul absoluto que domina o espaço e que cria um ambiente imersivo intencionalmente hostil, não representa uma mera alusão direta à caça e à camuflagem, mas, ao invés, uma ação interposta de uma performatividade oculta. A cenografia vai muito além da intenção puramente estética e pretende sobretudo contribuir para uma reflexão sobre as questões do poder e da ruína.

“O Filho do Caçador” demostra uma vez mais que embora a contextualização histórica e social conduza sempre o trabalho artístico de Valdez Cardoso, a intenção deste nunca será uma reconstituição fidedigna na sua essência; o seu intento último é criar uma nova narrativa repleta de simbolismos e interdependências múltiplas. Assim, com “O Filho do Caçador”, Pedro Valdez Cardoso constrói uma realidade multifacetada, complexa, contida numa dissertação indivisível e consonante, em que as três propostas de discurso artístico convergem para uma única verdade, sumativa e coesa.

 

 

 

 

Francisca Correia
Aluna de Programação e Produção Cultural na ESAD.CR. Encontra-se neste momento a realizar um estágio curricular na Artecapital, na área de produção e divulgação de conteúdos.



FRANCISCA CORREIA