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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Marcelo Brodsky, Bona, 1968, 2017. Da série 1968: O Fogo das Ideias / imagem original: Interfoto/Alamy. Cortesia Museu Colecção Berardo.


Marcelo Brodsky, Bratislava 1968, 2017. Da série 1968: O Fogo das Ideias / Imagem original: Ladislav Bielik. Cortesia Museu Colecção Berardo


Marcelo Brodsky, Bruxelles, 1968, 2017. Da série 1968: O Fogo das Ideias / Imagem original: BOZAR Archives, Brussels. Cortesia Museu Colecção Berardo


Marcelo Brodsky, Rio de Janeiro, 1968, 2015. Da série 1968: O Fogo das Ideias / Original do Arquivo do Jornal do Brasil. Cortesia Museu Colecção Berardo.


Marcelo Brodsky, Cordoba, Argentina, 1969, 2014. Da série 1968: O Fogo das Ideias / Imagem original: © Pedro Martinelli / ARGRA. Cortesia Museu Colecção Berardo.


Marcelo Brodsky, Berlin, 1968, 2017. Da série 1968: O Fogo das Ideias / Imagem original: © Wolfgang Kunz / Alamy. Cortesia Museu Colecção Berardo.


Marcelo Brodsky, Coimbra, 1969, 2018. Da série 1968: O Fogo das Ideias / Imagem original: © Fernando Marques, Varela Pé Curto e Carlos Ramos; BG-UC. Cortesia Museu Colecção Berardo.

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ARQUIVO:


MARCELO BRODSKY

MARCELO BRODSKY. 1968: O FOGO DAS IDEIAS




MUSEU COLEÇÃO BERARDO
Praça do Império
1499-003 Lisboa

20 SET - 06 JAN 2019

O visível e o legível: os desvios de Brodsky

 
Seguramente, Marcelo Brodsky (em exposição no Museu Berardo até 6 de Janeiro) é um artista engajado, uma testemunha da sua época: a sua série de obras de cerca dos anos 1968 (de Milão 1966 a Angola 1974) evoca essa época agitada, cheio de ruídos e de fúria, cheia de esperanças rapidamente decepcionantes e de utopias abortadas. Ele próprio tinha apenas 13 anos em 1968 e vivia em Buenos Aires, mas soube capturar o ar daquele tempo.

O fogo das ideias, diz Brodsky. O fogo das revoltas e das rebeliões, o fogo dos gritos de liberdade e de desejo de novos mundos, certamente. Não escapa (mas poucos o conseguem) a uma forma de nostalgia romântica, que, na França por exemplo, mostra mais as barricadas do Quartier Latin que as fábricas ocupadas (muito menos glamourosas, e por isso rapidamente esquecidas por todas as comemorações semi-oficiais).

Mas, contrariamente à maioria dessas exposições comemorativas, Brodsky, que vimos neste passado verão em Arles, não testemunha, não publica uma fotografia ou um documento em estado bruto: ele ajuda a ver, mostra o que não vimos, altera a percepção da imagem.

 

Marcelo Brodsky, Projet pour une conversation, 2018, a partir de Marcel Broodthaers, La Pluie, Projet pour un texte, 1969. Fotografia: Marc Lenot.

 

Não é de surpreender que esta exposição comece com A arte e as palavras sob o patrocínio de Marcel Broodthaers, um mestre na manipulação das palavras, e que uma das obras mostre aliás a ocupação do museu Bozar em Bruxelas (e Jacques Charlier brande uma bandeira transparente, noutra imagem). Mas, no lugar de mostrar o vídeo Projecto para um texto onde Broodthaers, encharcado até aos ossos, tenta escrever em vão debaixo de chuva, o sacrílego Brodsky extraiu alguns fotogramas, congelando a ação: um desvio que nos deixa pensativos.

 

Marcelo Brodsky, Bruxelels 1967, 2017. Imagem original Jacques Charlier. Fotografia: Marc Lenot.

 

Porque Brodsky desvia: as imagens de 68 no mundo em que este recuperou os direitos (e algumas delas são icónicas), são transformadas pela escrita da sua caneta, são cobertas de inscrições (na maioria das vezes na língua do país) e de desenhos coloridos, sublinhados por legendas. Ao vermos um slogan sobre um placard ou numa parede, não sabemos se é original ou adicionado por ele. Os traços sublinham as mãos, os corpos, todo um vocabulário gráfico que reforça, sublinha e às vezes ironiza. Falta infelizmente uma das minhas imagens preferidas, vista em Arles, tão evocativa da sociedade do espetáculo: durante uma manifestação, uma dezena de jovens empoleirados no Leão de Belfort, com câmaras fotográficas na mão, que Brodsky faz surgir do fundo da imagem colorindo-os. 

 

Vista da exposição (Sao Paulo & Rio de Janeiro 1968, 2017). Fotografia: Marc Lenot.

 

Temos presente na imagem todos os temas simbólicos da manifestação (sem ir aos clichés do museu de Insurreições): a multidão em vez do indivíduo, os líderes ou as pessoas em vez do comum, as bocas e os punhos em detrimento do resto do corpo, a palavra (letreiro) em vez do som (slogan), as bandeiras em vez dos cabos da picareta. Todo um vocabulário onde manifestantes e repressão se respondem um ao outro.

Uma sala é dedicada a Portugal, tanto às lutas anticoloniais em África como às manifestações contra Salazar em Coimbra, as quais parecem, aos olhos estrangeiros, surpreendentemente respeitosas: o líder estudantil de traje académico pede educadamente a palavra ao chefe de estado durante uma inauguração.

 

Marcelo Brodsky, Kaunas, 1972, 2017. Foto original Arquivos Nacionais da Lituânia. Fotografia: Marc Lenot.

 

Esta foto (Kaunas) vem da KGB e foi usada para identificar os líderes da manifestação; esta manifestação (Tunes, 1968) foi destituída de toda a imagem e é conhecida apenas por um testemunho de Foucault, então professor na Universidade de Tunes. Numa sala escura, há apenas vozes (o sindicalista argentino Agustin Tosco, Herbert Marcuse com o sotaque alemão de cortar à faca, Dr. King, Che, Rudi Dutschke e o inevitável Cohn-Bendit): palavras sem imagens.

Todo o interesse da exposição vem dessa estética da montagem, desse jogo entre palavra e imagem, entre leitura e visão: a imagem ilustra o texto, o texto submete-se à imagem, toda uma filosofia da fotografia.

 

 

 



MARC LENOT