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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Fotografia de Carlota Costa Cabral.


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ARQUIVO:


MARIA PIA OLIVEIRA

O PONTO PERFEITO




FUNDAÇÃO PORTUGUESA DAS COMUNICAÇÕES
Museu das Comunicações Rua do Instituto Industrial, 16
1200-225 Lisboa

21 NOV - 11 JAN 2019


 

 

 

O eremita afasta-se da companhia dos homens.
Procura as montanhas para descansar.
Arbustos verdes crescem ao acaso,
regatos de jade cantam noite e dia.
Despreocupado, alegre, simples,
o eremita mantém-se puro e tranquilo.
Evita o contágio com a lama do mundo,
o coração sem mácula como um lótus branco.

Han Shan (sécs. V-VI)

 

 

O Ponto Perfeito, de Maria Pia Oliveira, revela-se pelo seu movimento subtil, cuja vibração leva à expansão do ser através do cosmos. Trata-se de uma viagem ao sublime, cujo olhar transcende no absoluto. O ser deambula através de uma experiência extrassensorial, e espírito caminha no espaço e no tempo, deixando-se, assim, comover pela magnificência e pela grandeza.

Contemplamos o infinito. O cosmos.

Do Universo, experimentamos o arrebatamento dado pelo «ponto perfeito», que se apodera de nós como uma experiência singular. O ponto vibra, enquanto partícula quântica, na sua ínfima pequenez, o que nos faz debruçar sobre um outro olhar. Na sensação de que tudo flui, o ser intui um começo de uma longa viagem, que se expande para o não-ser, e o não-ser unifica-se com o ser. No Indizível.

Através do desenho, a artista conecta o cosmos, como se de imagens visionárias do Universo se tratasse, e a essa série de imagens apelidou de Folhas Cósmicas, que alojam a imensidão dos céus noturnos, as nebulosas constelações, galáxias, estrelas e pontos. Entre a energia e a matéria. «Out of Time, out of space», refere a artista.

Segundo o pintor Anselm Kiefer (1945), «Art is spiritual. Make a connection between things that are separated». O espectador sente essa conexão, que Kiefer nos oferece. Fruindo do desenho da artista contemporânea, numa interligação de palavras carregadas de significados espirituais, lembramo-nos do estado de libertação da existência. A autoconsciência.

Palavras em Pali que exaltam um caminho.

A descoberta.

Sila. Virtude. Pañña. Sabedoria.

Outras manuscritas em inglês, em cinza grafite, quase impercetíveis e neutras, em mapas celestes, com nuances em patines de diferentes cores escuras, azuladas, avermelhadas ou em sépia: «Everything that has the nature to arise has the nature to cease», afirma a artista. Diluídas em tons negros, surgem em ondas frases, como que oriundas de uma inteligência cósmica, num afloramento de pequenos flashes de luz, observáveis na obra Coração Trespassado, do qual se ouve um sussurro: Coming to the center. Assim, num estado meditativo, a artista escuta pensamentos como meio de transformação do ser, querendo, assim, alcançar a libertação que sentimos nas obras Awareness of Change ou Cosmic Destination, 2019.

Maria Pia Oliveira vivencia a experiência do eremita, citando as palavras de Han Shan (sécs. V-VI): «o coração sem mácula como um lótus branco». Na solitude de um devaneio, o ser transforma-se com o gesto, e o espectador com a contemplação. Embarcamos numa viagem que nos torna exploradores das multidimensões-matemáticas, que segue, por vezes, uma linha labiríntica, curva e orgânica. Ela flui. Na procura do lótus branco, na transcendência do espírito puro e imaculado, nasce o ponto perfeito. No caminho da meditação, o «ponto» emerge no estado mais elevado, além do espaço e do tempo, como observamos na obra O Vale de Lágrimas, 2019. Esta trajetória sem retorno indica-nos outros peregrinos que tiveram semelhante jornada. Desta forma, a artista vislumbra memórias que se cruzam entre si em diferentes trilhos espirituais, percorridos por outros seres, como Paramahansa Yogananda (1893-1952):

 

With open eyes I behold myself as the little body.
With closed eyes I perceive myself as the cosmic center around
which revolves the sphere of eternity, the sphere of bliss,
the sphere of omniscient, living space.
Our nature land is omnipresence.

 

Maria Pia Oliveira expressa, assim, uma outra via.

Jhayana. Contemplação.

É então que se gera a origem da ascensão do espírito, e florescem no espaço as Jóias do Deserto, em esculturas de cerâmica. Do cinza e da escuridão, faz brotar pontos de luz resplandecente, a energia pura do espírito.

Deambulamos, enquanto espectadores, nas «jóias do deserto», como se de uma miragem se tratasse. Anima o despertar da consciência. Apercebemo-nos da forma ilusória do ser. Somos atores desta peça infinita, onde desejamos o despreendimento das paixões, dos anseios e do medo, da «lama do mundo» em que vivemos. Sem pausas nem silêncio, numa constante azáfama quotidiana, respiramos numa era esquizofrénica. Sentimos a vertigem no limiar da passagem.

Na procura do ser e do não-ser, desmaterializa-se o corpo e os sentidos, suspende-se a palavra, descobre-se o silêncio. O nada. O todo. Absoluto.

 



JOANA CONSIGLIERI