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MIRANDA PENNELLH IS FOR HISTORY N IS FOR NOWSOLAR - GALERIA DE ARTE CINEMÃTICA Solar de S. Roque Rua do Lidador Vila do Conde 18 JUL - 29 AGO 2026 A maldição das imagens
Em "Man Number 4”, Pennell começa por nos dar uma imagem híper aumentada onde o quadriculado dos pixels só nos mostra variações de cores. Este processo de “invisibilização” do conteúdo contrasta com a imediatez e consumo rápido característicos do visionamento de imagens nas redes sociais. Vemos como o cursor passeia pelo ecrã, como a imagem é arrastada, como manchas de cores semelhantes se agrupam, como tentamos dar sentido a vagas formas geométricas. À medida que a imagem vai progressivamente ficando menos pixelizada, é-nos relevado finalmente uma cena de Gaza. Se estamos à espera de ver uma imagem chocante, infelizmente percebemos que cada vez mais estas imagens são menos perturbadoras porque cada vez são mais recorrentes na nossa vida de espectadores digitais, oferecidas que são de modo descartável.
Still do filme Man Number 4 (2024), Miranda Pennell. © Miranda Pennell / Cortesia Solar
O que temos em "Man Number 4” não é tanto o conteúdo incómodo da imagem, mas mais a reacção de Pennell ao deparar-se com esta imagem e a fazer uma espécie de auto-análise do seu lugar de pessoa que vê uma imagem não identificada, de uma situação com a qual só nos relacionamos através de imagens, oferecidas para serem vistas no meio de outras imagens num feed infinito de coisas sem relação. Como é que, como espectadores, conseguimos escapar a este consumo rápido de imagens? Pennell oferece-nos uma proposta de “trabalhar” a imagem, insistir nos detalhes, procurar informação, analisar a própria composição da imagem e tentar perceber o que é aquilo que estamos a ver. Questionar sempre o que é que estamos realmente a ver, ou seja, pensar o próprio processo do olhar. No filme que se segue, num monitor instalado no nicho do corredor da galeria, encontramos o olhar como acto do corpo ser-nos devolvido por um grupo de bailarinos que tenta fitar constantemente uma câmara que se desloca horizontalmente, testando a capacidade destes em permanecer em contacto visual com ela. Intitulado “You made me love you”, é o filme mais antigo da exposição, data de 2005, e faz uma ligação directa com a formação em dança e o passado de Pennell como bailarina. O dispositivo, técnico e coreográfico, bastante simples é, no entanto, muito poderoso a mostrar como a câmara (e a imagem em última instância) controla os corpos. A massa de corpos treinados desloca-se como uma onda seguindo aquele olho electrónico. Parece que estamos sempre a ver o mesmo plano até começarmos a percepcionar pequenos movimentos, ajustes entre rostos, expressões faciais, olhos e bocas que se movem também, corpos que negoceiam o espaço entre si.
Still do filme You made me love you (2005), Miranda Pennell. © Miranda Pennell / Cortesia Solar
O olhar em Pennell é sempre o olhar materializado num corpo, um olhar corporificado. Mesmo tratando-se de imagens de arquivos estatais/institucionais, graficamente muito abstractas, que constituem o grosso dos materiais que Pennell usa nos seus filmes, o “olhar” é esse exercício que a realizadora faz como forma de transmissão ao espectador dessa estranheza das imagens. Uma partilha do olhar “forense” que mostra o que não se vê na superfície da imagem. Pennell procura o “corpo” na imagem, ao tornar visível o que não é visto, ao revelar presenças e ausências, ao projectar directamente na parede de pedra da cave o filme "Underworld" (2026), sobre o trabalho nas minas, e ainda ao dar a sua voz como voz off em alguns dos filmes. Ouvi-la é constatar a sua presença física como pessoa que olha e que partilha esse olhar com o espectador no espaço confinado do filme. Pennell utiliza imagens provenientes de arquivos coloniais britânicos, mas visualmente pouco familiares e com alguma semelhança com certas imagens científicas. Em “Strange Object” (2020), Pennell parte do seu encontro com imagens de vistas aéreas que mostram o que lhe pareceram estruturas arquitectónicas muito “belas”, para depois descobrir que se tratavam de alvos de destruição. São imagens captadas pela “Z-Unit”, unidade de operações que levou a cabo bombardeamentos aéreos na Somalilândia britânica nos anos 1920. São imagens belas e violentas ao mesmo tempo, que mostram o “poder telescópico em tornar o mundo minúsculo e plano”, como diz em off a realizadora/narradora. Esse mundo árido dos “outros”, quase alienígena com aquelas estranhas formas na paisagem, passa a existir como imagem cartografada, passível de ser medido e anotado. A fotografia é essa máquina que “faz um duplo do mundo e apaga o original”: “daqui não veremos os corpos semi-enterrados na areia”, continua a voz off. O título da exposição de Pennell é directamente retirado deste filme. A certa altura recita-se um alfabeto colonial: “H is for History, C is for Civilization (...) N is for Now”... Também em “Trouble” (2023) há uma “captura vertical do mundo”. Nestes dois filmes predomina a vista de cima como perspectiva privilegiada, de alguém que “não está lá”, mas que é capaz de captar tudo com o seu olho panorâmico, capaz de converter edifícios, pessoas e animais em representações gráficas controladas. “Trouble” mistura dois tipos de registos: fotografias aéreas do Egipto dos anos 1920 e do Iraque de 1991, durante a Guerra do Golfo, combinadas com excertos sonoros de vários filmes sobre múmias, populares desde os anos 1930. O colonialismo tem os seus fantasmas e por vezes estes revelam-se de forma assustadora. Entre relatos de pessoas afectadas pela “maldição do faraó”, até à maldição decretada sobre as tropas que enterraram vivos os soldados iraquianos na Guerra do Golfo, o horror imaginado e o horror verdadeiro juntam passado e presente. No espaço da galeria que faz a ligação entre estes dois filmes, está um pequeno excerto de um filme antigo, aparentemente com “propósitos científicos”, onde se vêem insectos a serem manipulados (hoje diríamos “importunados”) por uma mão que lhes estica as asas, os pressiona com um lápis, lhes puxa pêlos com uma pinça, etc. O filme sem som e em loop que Pennell montou com este material intitula-se “You, the viewer” (2026), e em contraste com (ou para fazer contraste com) os filmes “Strange Object” e “Trouble”, este é um filme onde a “violência” é extremamente visível. Não há nada escondido na areia a revelar aqui através do processo fílmico. A voz calou-se e são as imagens elas próprias um esventrar desse mecanismo de violência criado por um aparato imagético que captura sujeitos/objectos e produz um tipo de espectador. Aliás, a sinopse que se encontra na brochura da exposição tem uma única frase que diz: “Uma criatura, uma câmara, uma mão — e tu, o espectador.” O toque da mão nos animais é como a materialização da violência das imagens no espectador: as imagens afectam corpos, as imagens controlam corpos, fazem-nos actuar de modos específicos.
Still do filme You, the viewer (2026), Miranda Pennell. © Miranda Pennell / Cortesia Solar
Nos filmes de Pennell, o reconhecimento da presença de um espectador é-nos constantemente relembrado. “E tu, o espectador” ou “e tu, sentado aqui, a ouvir música suave”, como diz a certa altura a voz off de “Man Number 4”, são rasgões nesse entorpecimento que muitas vezes a imagem cria. Pennell está sempre a relembrar-nos que há o corpo do realizador que decide partilhar aquelas imagens com o corpo do espectador. Em “Strange Object”, a realizadora/narradora diz que “está aqui para ver um álbum encadernado”, ou seja, não só a presença da realizadora no processo de criação é mencionada, como também as imagens têm um corpo, elas fazem parte de um álbum de papel amarelado depositado numa instituição estatal. Há sempre corpos. O corpo do realizador a ver aquele álbum encadernado, a voz do realizador a explicar as suas dúvidas, o corpo do espectador sentado numa sala escura, confuso com a profusão de pixéis ou a tentar encaixar formas arquitectónicas estranhas. Em H is for History N is for Now, Pennell mostra como as imagens antigas falam de temas de agora. A certa altura, em “Strange Object”, pergunta-se: “e se as luvas brancas não servem para proteger o passado, mas para fazer com que o passado exista”? As imagens ainda servem para produzir o “outro” (o colonizado, o soldado inimigo, o insecto...), cabe ao espectador questionar-se sobre o que está efectivamente a ver. Pennell partilha nos seus filmes esse processo de escavação forense na imagem histórica, revelando como elas, apesar de distantes e abstractas, continuam a produzir (H)estórias.
Liz Vahia
Licenciada em Antropologia, pela Universidade de Coimbra. Doutoranda no programa Filosofia da Ciência, Tecnologia, Arte e Sociedade da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
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