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COLECTIVA: ERA UMA VEZ NA AMÉRICAFARIBA HAJAMADI: CONVERSA DE CORVOSPAVILHÃO JULIÃO SARMENTO Av. da Índia 172 1400-038 Lisboa 04 JUL - 18 OUT 2026
No mundo do cinema, Sérgio Leone em Era uma Vez na América tratou do tema da memória com uma das eventualmente mais conhecidas montagens norte-americanas. O filme, protagonizado por Robert de Niro, não é só a história de um grupo mafioso de amigos durante a Lei Seca nos Estados Unidos: confecciona também, no seu trabalho de montagem, os caminhos tortuosos que a memória faz. Por meio de objetos e gestos, sons e texturas, a memória escorrega entre novelos e associações, deixando uma porta sempre aberta para a dúvida.
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Até 18 de outubro, o Pavilhão Julião Sarmento acolhe duas exposições que se cruzam no novelo da memória: Era uma Vez na América, com obras de diversos artistas, e Conversa de Corvos, da artista nascida no Irão Fariba Hajamadi. Ambas são forjadas a partir da coleção de Sarmento e têm curadoria de Isabel Carlos, sendo a primeira, Era Uma Vez Na América, feita em parceria com a artista norte-americana Rita McBride, que também empresta obras suas ao espaço. O Pavilhão Julião Sarmento tem consigo uma vocação e um desafio: manter viva a memória do artista português. Ao trabalhar quase exclusivamente a partir da sua coleção pessoal, o exercício curatorial é sempre uma criação e recriação, um conjunto de planetas a orbitar em torno da sua trajetória. Nesse sentido, uma vez que Sarmento manteve uma relação intensa e duradoura com a cena artística norte-americana, Era uma Vez na América é uma exposição em que as obras funcionam em dois níveis: obras autónomas e vestígios da sua vida e obra. Mas como no filme de Sérgio Leone, o exercício curatorial não é um arquivo fiel da vida de Julião Sarmento, e sim uma montagem associativa de obras que recriam a textura afetiva de uma vida, os vestígios que compõe o seu imaginário e um mapa da sua formação. Era uma Vez na América evoca, no título, a fronteira borrada entre memória e fantasia e exercita, na montagem, as associações fundamentais que a engendram: gestos de continuidade, proximidade e lastro. Nesse sentido, o que se pode encontrar na exposição é uma atmosfera norte-americana forjada a partir de obras de artistas como Nan Goldin, Ed Rusha, Jorge Molder e Bruce Nauman e, além disso, o interesse partilhado entre Sarmento e os artistas por temas, técnicas e formas: o espaço negativo do corpo, o vazio como matéria escultórica, o minimalismo, o realismo e a dimensão processualista de determinados trabalhos. A exposição revela o quanto o olhar de Sarmento se formou a par do que se produzia nos Estados Unidos entre as décadas de 1980 e 1990, em um contexto em que o vernáculo, o documental e o banal se tornaram matéria artística central, lado a lado a uma objetividade fotográfica revisitada.
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Vista da exposição Era uma Vez na América, Pavilhão Julião Sarmento, 2026. © Fábio Cunha
Retrato da importância da Democracia em um contexto em que ela parece ser carcomida por dentro, Arena foi replicada ao longo dos anos em diferentes espaços, figurada e reconfigurada graças ao seu regime de acesso aberto. Gesto expressivo do seu posicionamento e interesse artístico, McBride traz à exposição um lastro do projeto democrático do país que hoje passa por um revirar de tripas, um aprofundamento nas tubulações da sua psique — uma tragi-comédia que nos dispõe a todos, enquanto sociedade globalizada, como espectadores e envolvidos. A América que Sarmento colecionou nas décadas de 1980 e 1990 já não é a América de hoje: esse será talvez o ponto fraco da exposição, mas também aquilo que poderá fazer vingar o seu potencial: com uma série de conversas que o Pavilhão engendra com o crítico de arte norte-americano Joshua Decter em articulação com a AIR 351, Isabel Carlos e Rita McBride questionam, entre outras coisas – O que a Arte Quer de Nós — e o Que Queremos da Arte? Dada a coleção relevante de obras na exposição, sublinho as fotografias de Nan Goldin que, além de registarem a cena alternativa, queer e boémia norte-americana, é uma figura incontornável do ativismo político: com uma vasta luta contra a indústria farmacêutica por meio da fundação do grupo P.A.I.N, Goldin lutou por décadas para responsabilizar a Purdue Pharme e a Família Sackler pela crise de sobredose de opióides, tendo influenciado um número considerável de museus a rejeitar donativos e remover o nome Sackler. A sua presença na exposição é um dos pontos de conexão possíveis para pensar os Estados Unidos de ontem e hoje, cruzando pontes entre a política, a autonomia artística e as engrenagens financeiras dos museus e galerias. No contexto atual, qual o papel que museus e galerias devem desempenhar em um contexto em que o conflito armado, a violência, a opressão, a religião e a ignorância caricatural ganham protagonismo no continente americano?
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No piso superior, Fariba Hajamadi: artista nascida no Irão e radicada nos Estados Unidos que, também ela, atravessou a vida de Sarmento. Deixou nesse encontro uma obra sua — Inverted Order: one of three sets of 5 elements (1989-1994) – que foi, no contexto atual, revisitada. Adicionam-se a essa obra mais duas, que formam uma tríade expressiva do seu trabalho com fotografia e metalinguagem, onde a representação e a representação da representação aparecem como forma de revelar a fabulação institucional de identidades e histórias, aproximando-se da arte conceptual e da crítica institucional. Com uma fantasmagoria implícita nesse diálogo — uma vez que a relação entre Estados Unidos e Irão é uma das tensões bélicas mais relevantes do contexto geopolítico — a canção de ninar que Hajamadi nos deixa na parede do piso superior é emblemática da violência que atravessa a história do país. Nos seus trabalhos de fotografia, a artista trabalha com sobreposições de perspectivas, como um jogo de espelhos e reflexos, bastidores e passagens, que apresentam a identidade e a memória dentro do labiríntico caminho da migração, da memória e da construção e reconstrução da identidade. Se evoca, por um lado, a visualidade labiríntica que caracteriza a cultura islâmica, por outro, atenta para a questão da eventual impossibilidade de representação. Quando o olho que vê, a técnica que captura e a narrativa histórica passam a desempenhar protagonismo consciente na confecção da obra, qual o espaço que fica para a possibilidade de representação? Essa revelação dos mecanismos de produção da identidade presentes na obra de Fariba atravessam outros trabalhos da exposição do piso inferior, expressivos desse desvendar, questionar e arranhar a pretensa objetividade da fotografia, ainda que usando diferentes métodos. O tópico mereceria um texto à parte.
Vista da exposição Conversa de Corvos, de Fariba Hajamadi, Pavilhão Julião Sarmento, 2026. © Fábio Cunha
Mas além das obras que têm na fotografia a técnica e o medium principal, Fariba exibe um papel de parede em mural no piso superior. Em um cenário de vigília, prestes a dormir, o imaginário do Irão flui entre canalizações de petróleo, retaliação pública, morte, corvos e demónios persas. A canção de embalar no papel de parede é um exercício original de história e de memória, também ela ligada ao imaginário americano. Aparece, aqui, como geopolítica e exercício cósmico-histórico: não uma verdade tranquilizadora, não uma fantasia, não uma crítica: simplesmente o rumor do mundo que a memória e o pensamento alcançam. Aproximando a arte do sonho, o papel de parede retrata um imaginário atravessado pela guerra: nesse estado de vigília, encontram-se mundos nascidos, lembrados, cortados, atormentados, assassinados, vivos— a morder — e mordendo.
Se a referência ao filme de Leone evoca, ao mesmo tempo, um contexto histórico norte americano do pós guerra e um caminho estético que percorre a memória, o trabalho de Fariba Hajamaji enlaça o tema com a metalinguagem fotográfica e a dificuldade de representar, fielmente, aquilo que somos. As exposições, juntas, remetem aos caminhos que superam e põe em diálogo o íntimo e o colectivo, apresentando as formas e os lastros da formação artística e da paisagem afetiva de Julião Sarmento. Transitam, assim, entre uns e outros, formando um cenário ao mesmo tempo subjetivo e objetivo de um país que, não sendo mais o mesmo, ainda tem a sua – as suas – histórias. Em um contexto em que os Estados Unidos avançam na tragi-comédia geopolítica, par-e-passo com drones e armas, conservadorismo moral e político, a exposição propicia não um olhar fatal sobre o presente norte americano, mas o exercício, às vezes nostálgico, às vezes melancólico, que os corvos Huggin e Munnin, Memória e o Pensamento, convocam: conhecer o passado e a história, buscando compor a sua relação com o presente.
Meu século, minha fera, quem poderá
Enquanto vive a criatura
Para liberar o século em cadeias
Mas está fracturado o teu dorso
Com um sorriso insensato
Mariana VarelaÉ escritora e poeta. Publicou Enigmas de Jaguar e Jasmim (2019) e Rotativa (2022) ambos pela editora Urutau. Editou a mini-revista literária Frente! e edita atualmente a revista literária Letra Lenta. Mestre em Sociologia, faz doutoramento em Filosofia e escreve artigos na Intersecção da Filosofia e da Estética. Está publicada em revistas e antologias.
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Conferências Pavilhão Julião Sarmento & Air 351 30/09/2026 - 18h - Pode a Arte ser Transgressiva? 14/10/2026 - 18h - A História da Arte nas Redes Sociais (A Obra de Arte na Era da Mediação Social)
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