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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição Era uma Vez na América, Pavilhão Julião Sarmento, 2026. © Fábio Cunha


Vista da exposição Era uma Vez na América, Pavilhão Julião Sarmento, 2026. © Fábio Cunha


Vista da exposição Era uma Vez na América, Pavilhão Julião Sarmento, 2026. © Fábio Cunha


Vista da exposição Era uma Vez na América, Pavilhão Julião Sarmento, 2026. © Fábio Cunha


Vista da exposição Era uma Vez na América, Pavilhão Julião Sarmento, 2026. © Fábio Cunha


Vista da exposição Era uma Vez na América, Pavilhão Julião Sarmento, 2026. © Fábio Cunha


Vista da exposição Era uma Vez na América, Pavilhão Julião Sarmento, 2026. © Fábio Cunha


Vista da exposição Era uma Vez na América, Pavilhão Julião Sarmento, 2026. © Fábio Cunha


Vista da exposição Era uma Vez na América, Pavilhão Julião Sarmento, 2026. © Fábio Cunha


Vista da exposição Era uma Vez na América, Pavilhão Julião Sarmento, 2026. © Fábio Cunha


Vista da exposição Era uma Vez na América, Pavilhão Julião Sarmento, 2026. © Fábio Cunha


Vista da exposição Conversa de Corvos, de Fariba Hajamadi, Pavilhão Julião Sarmento, 2026. © Fábio Cunha


Vista da exposição Conversa de Corvos, de Fariba Hajamadi, Pavilhão Julião Sarmento, 2026. © Fábio Cunha


Vista da exposição Conversa de Corvos, de Fariba Hajamadi, Pavilhão Julião Sarmento, 2026. © Fábio Cunha


Vista da exposição Conversa de Corvos, de Fariba Hajamadi, Pavilhão Julião Sarmento, 2026. © Fábio Cunha


Vista da exposição Conversa de Corvos, de Fariba Hajamadi, Pavilhão Julião Sarmento, 2026. © Fábio Cunha


Vista da exposição Conversa de Corvos, de Fariba Hajamadi, Pavilhão Julião Sarmento, 2026. © Fábio Cunha


Vista da exposição Conversa de Corvos, de Fariba Hajamadi, Pavilhão Julião Sarmento, 2026. © Fábio Cunha


Vista da exposição Conversa de Corvos, de Fariba Hajamadi, Pavilhão Julião Sarmento, 2026. © Fábio Cunha


Vista da exposição Conversa de Corvos, de Fariba Hajamadi, Pavilhão Julião Sarmento, 2026. © Fábio Cunha

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ARQUIVO:


COLECTIVA: ERA UMA VEZ NA AMÉRICA

FARIBA HAJAMADI: CONVERSA DE CORVOS




PAVILHÃO JULIÃO SARMENTO
Av. da Índia 172
1400-038 Lisboa

04 JUL - 18 OUT 2026


 

 


“Meu século, minha fera, quem poderá

olhar-te dentro dos olhos?”

 


A memória e a história são irmãs do mesmo pássaro, o Corvo. Huggin e Munnin, os corvos de Odin — Pensamento e Memória — voam pelos nove mundos para ver e ouvir o que acontece. São aves que atravessam o tempo — vêm e voltam do mundo dos mortos, vão ao passado e ao futuro. Trazem as vozes daqueles que já foram e ouvem os balbucios daquilo que ainda não chegou. O corvo é esta ave que, sobretudo, recorda e, por recordar, pensa — e que pode trazer com ele canções de embalar aterrorizantes.

No mundo do cinema, Sérgio Leone em Era uma Vez na América tratou do tema da memória com uma das eventualmente mais conhecidas montagens norte-americanas. O filme, protagonizado por Robert de Niro, não é só a história de um grupo mafioso de amigos durante a Lei Seca nos Estados Unidos: confecciona também, no seu trabalho de montagem, os caminhos tortuosos que a memória faz. Por meio de objetos e gestos, sons e texturas, a memória escorrega entre novelos e associações, deixando uma porta sempre aberta para a dúvida.

 

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Até 18 de outubro, o Pavilhão Julião Sarmento acolhe duas exposições que se cruzam no novelo da memória: Era uma Vez na América, com obras de diversos artistas, e Conversa de Corvos, da artista nascida no Irão Fariba Hajamadi. Ambas são forjadas a partir da coleção de Sarmento e têm curadoria de Isabel Carlos, sendo a primeira, Era Uma Vez Na América, feita em parceria com a artista norte-americana Rita McBride, que também empresta obras suas ao espaço.

O Pavilhão Julião Sarmento tem consigo uma vocação e um desafio: manter viva a memória do artista português. Ao trabalhar quase exclusivamente a partir da sua coleção pessoal, o exercício curatorial é sempre uma criação e recriação, um conjunto de planetas a orbitar em torno da sua trajetória. Nesse sentido, uma vez que Sarmento manteve uma relação intensa e duradoura com a cena artística norte-americana, Era uma Vez na América é uma exposição em que as obras funcionam em dois níveis: obras autónomas e vestígios da sua vida e obra.

Mas como no filme de Sérgio Leone, o exercício curatorial não é um arquivo fiel da vida de Julião Sarmento, e sim uma montagem associativa de obras que recriam a textura afetiva de uma vida, os vestígios que compõe o seu imaginário e um mapa da sua formação.

Era uma Vez na América evoca, no título, a fronteira borrada entre memória e fantasia e exercita, na montagem, as associações fundamentais que a engendram: gestos de continuidade, proximidade e lastro.

Nesse sentido, o que se pode encontrar na exposição é uma atmosfera norte-americana forjada a partir de obras de artistas como Nan Goldin, Ed Rusha, Jorge Molder e Bruce Nauman e, além disso, o interesse partilhado entre Sarmento e os artistas por temas, técnicas e formas: o espaço negativo do corpo, o vazio como matéria escultórica, o minimalismo, o realismo e a dimensão processualista de determinados trabalhos.

A exposição revela o quanto o olhar de Sarmento se formou a par do que se produzia nos Estados Unidos entre as décadas de 1980 e 1990, em um contexto em que o vernáculo, o documental e o banal se tornaram matéria artística central, lado a lado a uma objetividade fotográfica revisitada.

 

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Arena de McBride recebe o visitante no primeiro piso e se dispõe com centralidade. Peça expressiva do interesse da artista pelo tema do espaço público, que frequentemente trabalha em obras de grande escala, Arena foi originalmente produzida em 1997 em regime de copy-left e, tratando-se de uma estrutura de madeira, traz a presença da ágora, do fórum, do espaço de discussão pública para o interior do pavilhão.

 

Vista da exposição Era uma Vez na América, Pavilhão Julião Sarmento, 2026. © Fábio Cunha

 

Retrato da importância da Democracia em um contexto em que ela parece ser carcomida por dentro, Arena foi replicada ao longo dos anos em diferentes espaços, figurada e reconfigurada graças ao seu regime de acesso aberto. Gesto expressivo do seu posicionamento e interesse artístico, McBride traz à exposição um lastro do projeto democrático do país que hoje passa por um revirar de tripas, um aprofundamento nas tubulações da sua psique — uma tragi-comédia que nos dispõe a todos, enquanto sociedade globalizada, como espectadores e envolvidos.

A América que Sarmento colecionou nas décadas de 1980 e 1990 já não é a América de hoje: esse será talvez o ponto fraco da exposição, mas também aquilo que poderá fazer vingar o seu potencial: com uma série de conversas que o Pavilhão engendra com o crítico de arte norte-americano Joshua Decter em articulação com a AIR 351, Isabel Carlos e Rita McBride questionam, entre outras coisas – O que a Arte Quer de Nós — e o Que Queremos da Arte?

Dada a coleção relevante de obras na exposição, sublinho as fotografias de Nan Goldin que, além de registarem a cena alternativa, queer e boémia norte-americana, é uma figura incontornável do ativismo político: com uma vasta luta contra a indústria farmacêutica por meio da fundação do grupo P.A.I.N, Goldin lutou por décadas para responsabilizar a Purdue Pharme e a Família Sackler pela crise de sobredose de opióides, tendo influenciado um número considerável de museus a rejeitar donativos e remover o nome Sackler.

A sua presença na exposição é um dos pontos de conexão possíveis para pensar os Estados Unidos de ontem e hoje, cruzando pontes entre a política, a autonomia artística e as engrenagens financeiras dos museus e galerias. No contexto atual, qual o papel que museus e galerias devem desempenhar em um contexto em que o conflito armado, a violência, a opressão, a religião e a ignorância caricatural ganham protagonismo no continente americano?

 

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No piso superior, Fariba Hajamadi: artista nascida no Irão e radicada nos Estados Unidos que, também ela, atravessou a vida de Sarmento. Deixou nesse encontro uma obra sua — Inverted Order: one of three sets of 5 elements (1989-1994) – que foi, no contexto atual, revisitada. Adicionam-se a essa obra mais duas, que formam uma tríade expressiva do seu trabalho com fotografia e metalinguagem, onde a representação e a representação da representação aparecem como forma de revelar a fabulação institucional de identidades e histórias, aproximando-se da arte conceptual e da crítica institucional.

Com uma fantasmagoria implícita nesse diálogo — uma vez que a relação entre Estados Unidos e Irão é uma das tensões bélicas mais relevantes do contexto geopolítico — a canção de ninar que Hajamadi nos deixa na parede do piso superior é emblemática da violência que atravessa a história do país.

Nos seus trabalhos de fotografia, a artista trabalha com sobreposições de perspectivas, como um jogo de espelhos e reflexos, bastidores e passagens, que apresentam a identidade e a memória dentro do labiríntico caminho da migração, da memória e da construção e reconstrução da identidade.

Se evoca, por um lado, a visualidade labiríntica que caracteriza a cultura islâmica, por outro, atenta para a questão da eventual impossibilidade de representação. Quando o olho que vê, a técnica que captura e a narrativa histórica passam a desempenhar protagonismo consciente na confecção da obra, qual o espaço que fica para a possibilidade de representação?

Essa revelação dos mecanismos de produção da identidade presentes na obra de Fariba atravessam outros trabalhos da exposição do piso inferior, expressivos desse desvendar, questionar e arranhar a pretensa objetividade da fotografia, ainda que usando diferentes métodos.

O tópico mereceria um texto à parte.

 

Vista da exposição Conversa de Corvos, de Fariba Hajamadi, Pavilhão Julião Sarmento, 2026. © Fábio Cunha

 

Mas além das obras que têm na fotografia a técnica e o medium principal, Fariba exibe um papel de parede em mural no piso superior. Em um cenário de vigília, prestes a dormir, o imaginário do Irão flui entre canalizações de petróleo, retaliação pública, morte, corvos e demónios persas. A canção de embalar no papel de parede é um exercício original de história e de memória, também ela ligada ao imaginário americano.

Aparece, aqui, como geopolítica e exercício cósmico-histórico: não uma verdade tranquilizadora, não uma fantasia, não uma crítica: simplesmente o rumor do mundo que a memória e o pensamento alcançam. Aproximando a arte do sonho, o papel de parede retrata um imaginário atravessado pela guerra: nesse estado de vigília, encontram-se mundos nascidos, lembrados, cortados, atormentados, assassinados, vivos— a morder — e mordendo.

 


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Se a referência ao filme de Leone evoca, ao mesmo tempo, um contexto histórico norte americano do pós guerra e um caminho estético que percorre a memória, o trabalho de Fariba Hajamaji enlaça o tema com a metalinguagem fotográfica e a dificuldade de representar, fielmente, aquilo que somos.

As exposições, juntas, remetem aos caminhos que superam e põe em diálogo o íntimo e o colectivo, apresentando as formas e os lastros da formação artística e da paisagem afetiva de Julião Sarmento. Transitam, assim, entre uns e outros, formando um cenário ao mesmo tempo subjetivo e objetivo de um país que, não sendo mais o mesmo, ainda tem a sua – as suas – histórias.

Em um contexto em que os Estados Unidos avançam na tragi-comédia geopolítica, par-e-passo com drones e armas, conservadorismo moral e político, a exposição propicia não um olhar fatal sobre o presente norte americano, mas o exercício, às vezes nostálgico, às vezes melancólico, que os corvos Huggin e Munnin, Memória e o Pensamento, convocam: conhecer o passado e a história, buscando compor a sua relação com o presente.

 


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Meu século, minha fera, quem poderá

olhar-te dentro dos olhos

e soldar com o seu sangue

as vértebras de dois séculos?



Enquanto vive a criatura

deve levar as próprias vértebras,

os vagalhões brincam

com a invisível coluna vertebral.

Como delicada, infantil cartilagem

é o século neonato da terra.

Para liberar o século em cadeias

para dar início ao novo mundo

é preciso com a flauta reunir

os joelhos nodosos dos dias. 

Mas está fracturado o teu dorso

meu estupendo e pobre século.



Com um sorriso insensato

como uma fera um tempo graciosa

tu te voltas para trás, fraca e cruel,

para contemplar as tuas pegadas.


Osip Mandelstam. O Século. 1923.

 

 

 

 

Mariana Varela




É escritora e poeta. Publicou Enigmas de Jaguar e Jasmim (2019) e Rotativa (2022) ambos pela editora Urutau. Editou a mini-revista literária Frente! e edita atualmente a revista literária Letra Lenta. Mestre em Sociologia, faz doutoramento em Filosofia e escreve artigos na Intersecção da Filosofia e da Estética. Está publicada em revistas e antologias.

 

 

 

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Conferências Pavilhão Julião Sarmento & Air 351
Joshua Decter - Era Uma vez na América

08/07/2026 - 18h - A Arte e as Nossas Contradições: Financeirização, Protesto, Metapolítica, Fragmentação.

30/09/2026 - 18h - Pode a Arte ser Transgressiva?

14/10/2026 - 18h - A História da Arte nas Redes Sociais (A Obra de Arte na Era da Mediação Social)



MARIANA VARELA