|
|
MICHAEL NAJJARHETEROTOPIC TURBULENCESGALERIA FILOMENA SOARES Rua da Manutenção, 80 1900-321 Lisboa 11 JUL - 12 SET 2026 The moon ain’t made of green cheese
E então nos deparamos, na Galeria Filomena Soares, com esta astronómica figura: Michael Najjar, o artista visual alemão que promete vir a ser o primeiro artista a navegar no espaço. No meio de uma paisagem povoada por Elon Musk, Space X, Deep Blue Aerospace e as novas formas de mineração na Lua, há mais de uma década o artista investe em treinamentos pré-viagem e acesso a infra-estruturas espaciais na expectativa de, muito brevemente, poder vir a conhecer o espaço. O artista usa a sua própria experiência em cosmódromos, paisagens lunares como as da Islândia e instalações de treinamento em microgravidade para produzir imagens híbridas de fotografia e pintura com a ajuda da inteligência artificial. Deixa-nos, assim, uma exposição que reúne um conjunto de obras que transitam entre landscapes futuristas e fotografias de infra-estruturas espaciais.
**
Mais do que voos comerciais, a Virgin Galactic tem operado também viagens para a realização de estudos científicos, contratados muitas vezes por estados-nacionais: interessados têm viajado no intuito de realizar experimentos em condições de microgravidade, colectar dados fisiológicos, pesquisar os efeitos da microgravidade no desempenho cognitivo e o comportamento de materiais quando misturados em ambiente de gravidade zero. Para além da Virgin Galactic, a Blue Origin opera o foguete New Shepard em voos suborbitais curtos; a Space Perspective desenvolveu um balão estratosférico que não chega a cruzar a fronteira oficial do espaço; a chinesa Deep Blue Aerospace planeja entrar no mercado suborbital a partir de 2027; e a SpaceX e a Axiom Space oferecem voos de vários dias e estadias na Estação Espacial Internacional por dezenas de milhões de dólares por assento. É nesse contexto que o trabalho de Najjar se desenvolve: no frisson em torno desta realidade que se assemelha à Guerra Fria. Já não só corrida entre potências, mas corrida entre empresas; já não só experimentação de meios técnicos para alcançar novos planetas, mas transformação do espaço num segmento de mercado.
Michael Najjar, orbital ascent (Civilization Edition) (2023). © Michael Najjar / Cortesia da Galeria Filomena Soares.
**

É o caso, por exemplo, do quadro de Caspar David Friedrich, paisagista romântico alemão, e sua obra Das Große Gehege bei Dresden, de 1832. A pintura original é tida como a vanguarda do minimalismo atmosférico. A pintura se encontra revisitada por Michael Najjar na Galeria Filomena Soares: o artista adiciona uma base de lançamento ao fundo do quadro por meio da inteligência artificial, anacronizando-a e criando uma espécie de paisagem retrofuturista.

Caspar David Friedrich, Das Große Gehege bei Dresden (1832). Galerie Neue Meister, Museu Albertinum, Dresden, Alemanha.
Plenamente integrada na paisagem, a base de lançamento funciona ao mesmo tempo como pontuação da vanguarda de Friedrich e como paisagem romântica do futuro de Najjar. É evidente a falta de fricção ou estranhamento: o foguete funde-se na paisagem sem destoar, sem deixar ver a costura do enxerto. Essa integração, desejada por Najjar, trai, mesmo artisticamente: a infra-estrutura espacial deixa sempre rastros, e não poderia nunca misturar-se à paisagem de forma tão límpida. Mesmo temporalmente, uma vez que se trata de 1832 x 2026, algum contraste precisaria estar presente, uma vez que futuro e passado não se reúnem de forma romântica e conciliatória. O romantismo sempre correu este risco: reconciliar, ao nível do sentimento, aquilo que continuava, na realidade, por resolver. Najjar adiciona a este risco não só uma certeza, mas um componente contemporâneo: a tecnologia como veículo de realidades irreais. Além disso, não há, nas paisagens produzidas por Najjar, um aprofundamento da relação entre o humano e o infinito, entre o passado e o futuro, nem nenhum aspecto dessa viagem que seja apanhado pelos modos de acesso existenciais: angústia, terror, beleza, dúvida. Aspectos que constituíam a maior das qualidades do movimento romântico. Najjar oferece uma paisagem romântica que se resume a uma superfície sem sutura, que não pede ao espectador que questione o enxerto — só que o aceite como se sempre ali tivesse estado. Há, nas suas paisagens, um outro tipo de romantismo em jogo: misturam tempos e espaços com uma liberdade que só a tecnologia permite, tornando ausente a própria inscrição íntima do artista. As paisagens de Najjar não partem de uma imaginação, nem de uma produção pictórica ou fotográfica mais íntima: nascem de uma composição de dados, de bancos de imagens da NASA e de algoritmos que são, eles próprios, infraestrutura. Nesse contexto, desaparece o humano não só da cena, mas da própria origem da imagem.
**
Sendo generosos, poderíamos dizer que Najjar desloca o sublime da natureza para a questão cósmica. Que há uma espécie de releitura do romantismo, agora deslocado para o espaço e para as infra-estruturas que o tornam acessível. Mas não é isso que está em jogo: há penhascos, há mares de gelo, mas são paisagens que misturam a Terra à Lua na expectativa de gerar uma imaginação híbrida e lisa, um contraste conciliado, um impossível realista, uma quimera sem defeito. Por isso não é possível ser generoso: as obras são uma espécie de quimera ideológica, romantizando, no pior sentido do termo, as novas empreitadas comerciais de mineração e exploração comercial do espaço enquanto a terra arde sem piedade. É a mesma ausência de fricção na integração do foguete na paisagem de Friedrich que opera como mecanismo ideológico em toda a exposição: ao fundir sem sutura o vocabulário do sublime romântico com a infraestrutura de uma indústria — a mesma que congestiona a órbita com mais de 16 mil satélites ativos —, Najjar naturaliza como destino contemplativo aquilo que é, antes de mais, uma escolha económica e política com enormes consequências e custos. Além disso, as obras não respondem a uma experiência interior no que diz respeito à relação do homem com o cosmos, mas sim a uma espécie de frisson desinformado sobre o futuro: um assombro consumido à distância, ainda que o artista esteja lá, quase a partir. Reconhecer o vazio crítico, entretanto, não significa negar a legitimidade do fascínio que o motiva. Evidentemente, os mistérios da outridade absoluta — vida fora da terra, planetas em que o tempo e o espaço se relativizam — continuam sendo objeto de fascínio. Najjar encontra-se, precisamente, no lugar desse fascínio, mas muito mais próximo de uma ficção científica norte-americana, pronta para ser consumida, sem dúvida, por empresários interessados nessa jornada. Mesmo sugeridas as suas inclinações aos temas do romantismo, agora transladados para o universo infra-estrutural e tecnológico do caminho até à Lua e Marte, não se pode negar que há um excessivo distanciamento nas suas obras: o ato de demorar-se diante do incompreensível não aparece na exposição. A reificação toma tudo. O uso de fotografias híbridas, como operações de extração e enxerto, não o esconde. O sublime, deslocado da natureza para as mega-infraestruturas do contemporâneo, emerge nos foguetes e cosmódromos de Najjar totalmente integrados na paisagem, como se estes não se tratassem, de facto, de um assombro e de um espanto. A tradução realista do irreal é, talvez, o aspecto mais problemático desta exposição. Ao usar a tecnologia na produção de imagens híbridas, o que acontece é que a própria contradição e assombro que estão implicados nas jornadas espaciais ficam desmobilizadas enquanto espanto ou enquanto jogo dialético entre o humano e o cosmos. Um frisson otimista espalha-se no seu trabalho de landscapes irreais e realistas. Perde, por isso, a densidade que dá forma e realidade à experiência humana na sua relação com o cósmico, bem como a toda a jornada material, económica e política que a torna possível: constelações de satélites fora da terra, Virgin Galactic, Blue Origin, New Shepard e, é claro – Space X.
Mariana Varelaâ€¨â€¨â€¨É escritora e poeta. Publicou Enigmas de Jaguar e Jasmim (2019) e Rotativa (2022) ambos pela editora Urutau. Editou a mini-revista literária Frente! e edita atualmente a revista literária Letra Lenta. Mestre em Sociologia, faz doutoramento em Filosofia e escreve artigos na Intersecção da Filosofia e da Estética. Está publicada em revistas e antologias.
:::
Notas [1] Foucault desenvolve o conceito de heterotopias a partir de Jorge Luís Borges, publicando, em 1984, o livro O corpo Utópico e as Heterotopias. O conceito é usado pelo autor para descrever espaços em que a realidade social é subvertida: cemitérios, jardins coloniais, labirintos, motéis, circos, radicalizam a experiência social, concentrando espacial e temporalmente elementos sociais isolados. No caso da presente exposição, heterotópico seriam as próprias obras de Najjar, que misturam o presente e o futuro em obras que enlaçam tecnicamente fotografia e tecnologia.
|































