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RODRIGO CASSGEOMETRIA SENSÍVELESCOLA DAS ARTES | UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PORTO R. de Diogo Botelho 1327 4169-005 20 MAI - 03 OUT 2026
Uma lâmpada acesa, em balanço, embate contra um plano monocromático e estoura, emitindo um clarão e um som estridente. Esta sequência, de um segundo apenas, repete-se infinitamente, suspensa do teto da sala de forma a emular a posição habitual de uma lâmpada. A velocidade com que avança, empurrada por uma mão (a mão do artista, a mão de Deus?), impede qualquer outro fim a não ser o seu estilhaçamento. O sentido de previsibilidade que daqui deriva direciona a atenção do observador para o momento da quebra da luminária, cujo número de fragmentos pode equivaler às n interpretações que podemos dar a este acontecimento. No entanto, o dramatismo do estouro é reduzido a um momento banal pela sua repetição, projetado num suporte anguloso que ganha corpo ao vir para a frente. Já o movimento da lâmpada faz o inverso: afasta-se de nós e afunda-se no plano pictórico. Um objeto, um espaço e uma ação. É assim que o vídeo-instalação Geometria Sensível (2024, P) dá título à primeira exposição de Rodrigo Cass (n. 1983) em Portugal. Organizada pela Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa com colaboração com a Brotéria, e curadoria de Nuno Crespo e João Sarmento SL, a exposição está dividida em dois pólos – Porto e Lisboa – e reúne entre si cerca de três dezenas de obras do artista brasileiro, uma pequena selecção que atravessa a sua prática artística desde o seu início até aos dias de hoje. A divisão da exposição em dois pontos geográficos é uma opção que acaba por se tornar uma analogia da pesquisa de Cass, servindo-lhe como representação dos extremos que originam o arco-íris da sua obra artística. Para Cass, o arco-íris representa a Revolução (2026, P, L) e o sentido da palavra não é, de modo algum, gratuito. Cada uma das suas sete cores simboliza um estágio interior num processo contínuo de transformação espiritual. É importante saber que o Cass foi monge carmelita durante nove anos, no Brasil, antes de estudar Artes Visuais (Faculdade Santa Marcelina, São Paulo) e Filosofia e Teologia (Faculdade Jesuíta, Belo Horizonte). A obra de Cass é, por isso, animada pela força de uma prática espiritual de cariz religioso, e a forma como o faz acaba por dar, a meu ver, uma frescura bem-vinda à arte contemporânea uma vez que o Rodrigo nunca se impõe como pregador. Cabe apenas ao espectador concluir a obra e descobrir as ferramentas e as condições para o manifesto que o artista defende e motiva: a arte enquanto encontro amoroso com o ser - eis o mistério. Provocar é, talvez por isso, um verbo que Cass utiliza recorrentemente para definir o seu trabalho. À primeira vista, o verbo pareceu-me desajustado e até demasiado forte face à serenidade que transparece ser a sua personalidade ou à delicadeza dos seus trabalhos. Estarei claramente a ser redutora e levada ao engano por considerar precipitadamente esta provocação como sinónimo de desafiar, enraivecer ou criticar pejorativamente, ou sê-lo pelo excesso e exagero. A ambição do Rodrigo segue noutro sentido: quer, de facto, estimular “uma grande transformação” naquele que experiencia as suas obras pela força contemplativa e curativa da arte utilizando o mínimo de elementos possíveis. Rodrigo não pretende a representação figurativa de cenas sagradas para indicar qualquer caminho e a via da abstração foi uma escolha natural que adveio do seu interesse pelo mistério do mundo material e espiritual. A vida de silêncio, escuta e contemplação que a filosofia carmelita lhe oferece permite a reflexão constante sobre a “concretude” das coisas, sobre a qual “precisa de fazer escolhas quando tudo parece demasiado real e sólido que acaba por desmoronar-se e dissolver-se em ruína” [1]. Para Cass, essa atitude relaciona-se com a própria origem latina da palavra abstração – abstrahere. Abstrair, separar, renunciar: a abstração é um ato consciente de escolha em favor de algo, no qual vivemos constante e permanentemente. A partir dessa síntese necessária que a abstração obriga, Cass tem associado, ao longo dos últimos anos, cada cor do espectro luminoso a certas dimensões da existência humana, entre as quais o amor, a morte, a ressurreição, o misticismo, o tempo e a consciência, desdobrando uma “geometria cósmica do afecto” que traz “a unidade à convergência com o todo”, escreve João Sarmento SL na folha de sala da Brotéria [2]. A geometria surge como parte integrante desta experiência espiritual através da forma, da cor e do símbolo, em linha com a herança da arte neoconcreta brasileira das décadas de 1960 e 1970, que defendia uma experiência fenomenológica das formas ao invés do puro racionalismo das mesmas. A geometria – por isso, sensível – do círculo, do triângulo e do quadrado – formas recorrentes nas obras do Rodrigo –, imbuída tanto de verdade científica como de mito divino, é enaltecida para, de seguida, lhe ser referida a estrutura desmoronante que o abalo do mundo (da vida) provoca. Terra Livre (2026, L) assim o demonstra: formas construídas com terra estão seguras pelas mãos do artista até ao momento em que, largando-as, desabam pelo efeito da gravidade.
Rodrigo Cass, Terra Livre (2026). Vista da exposição Geometria Sensível de Rodrigo Cass. Brotéria, 2026, Lisboa. © Cláudia Handem
Desde o início da sua carreira, Cass utiliza o vídeo para explorar estas relações com o suporte nas mais variadas densidades semânticas que o seu processo de trabalho e pesquisa deixa surgir. Os planos, volumes e formas dos seus objectos-escultura, onde projeta os seus vídeos, funcionam como campos de ação ativados pelo corpo que marca presença num território que, antes de ser pictórico, é espiritual. Os seus vídeos-performance caracterizam-se pelo registo de ações simples, em modo repetição, numa mise-en-scène padrão constituída por uma câmara fixa que filma um espaço geralmente monocromático e parco, com poucos objetos ou agentes. Desde experiências mais formais – veja-se Espaço liberto (2013, L) ou Encontro amoroso do círculo com o quadrado (2023, P) – a experiências de teor político – Découverte des Américains (2013, P) ou Arma Branca (2011, P) – e até pessoal – Narciso no Mijo (2006) ou Ferro na Cueca (2007), em todas elas, dialogam rupturas e uniões, encontros e desencontros iminentes entre o conhecido e o desconhecido. As obras de Cass são animadas por uma sensibilidade que agarra o invisível inerente e o expande para fora dos seus limites exteriores, dando-nos a ver e questionar o que é da ordem da imagem, do movimento, da matéria, do espaço e do sensorial – o que é continente: o que contem, o que é contido, o que contenta. Por isso, não é difícil descobrir o porquê do quão literal Cass é no uso das palavras para lhes poder dar corpo e crescimento. Mão pegando Bíblia (2026, L), uma apropriação de Hand Catching Lead de Richard Serra, resume claramente essa vontade indómita em (re)encarná-las. Ao longo do seu trajeto, vamos identificando e correspondendo certos conceitos ao seu universo, num processo que é contínuo, mutável e feito em conjunto com o observador. Manifesto é um deles: sinónimo de encarnação ou revelar fisicamente, o espírito, na tradição cristã, manifesta-se no material (Deus no corpo de Jesus; Jesus no corpo da hóstia). Em Cass, acontece o mesmo e notamos que as suas obras raramente são bidimensionais ao fazer uso da perspectiva invertida para lhes dar volume, influenciado pela aprendizagem da pintura dos ícones bizantinos durante a sua passagem pela Ordem do Carmo. Nesta técnica, o ponto de fuga, ao invés de estar localizado para lá da pintura, está à frente dela, ou seja, no observador. Esta estratégia pressupõe uma relação directa na medida em que o espaço pictórico se aproxima do observador, tornando-se ativo e real (não virtual). Este tornar assenta na ideia do que é concreto, levado de igual forma ao expoente máximo da sua expressão e significado. As linhas dos seus desenhos expandidos são feitas com concreto pigmentado (cimento/betão), sobreposto em finas camadas num processo fisicamente exigente que Cass compara com o da oração: uma insistência de todos os dias que permite as coisas manifestarem-se pelo sacrifício. Estas linhas, imperfeitas quando vistas de muito perto mas construídas com um rigor tal, elevam-se – sangram – da tela de linho tingido de um estado-cor, num volume-moldura delineado a têmpera. Em Future Self (2026, L), um objeto triangular cor-de-rosa habitado pelos 7 estágios do arco-íris (quiçá, as 7 chaves do paraíso), é visível o anseio da linha em tornar-se corpus reclamando que “o seu lugar não é o objeto do desejo, mas o sujeito do desejo” [3].
Rodrigo Cass, Future Self (2026). Vista da exposição Geometria Sensível de Rodrigo Cass. Brotéria, 2026, Lisboa. © Cláudia Handem
É um auto-retrato belíssimo cuja necessidade interior irradia por toda a exposição, numa proposta em comunhão com os 4 elementos da natureza – ar, fogo, terra e água. Identificamos facilmente esses elementos nas obras, apesar de não serem predominantes e de não constituírem a chave para o seu entendimento. O que nos é sugerido é a relação mútua entre um eu e o mundo (ou a origem dele) sobre um brando diálogo entre atos de violência – a intensidade com que as emoções se manifestam – e de pacificidade – a aceitação do mistério da vida e a sua preservação no espírito. Só existe algo capaz deste binómio: o amor (Loving Love [Healing], 2023, L), uma Mística amorosa (2024, P) que pela ação do fogo – do calor, da luz –, faz ver para além do plano Físico (2015, L) e nos dispõe para a entrega absoluta.
*As obras referidas no texto estão identificadas com as letras P (Porto) e L (Lisboa), designando o pólo expositivo onde se encontram. A exposição na Brotéria esteve patente de 26 de Maio a 29 de Agosto.
Cláudia Handem(n. 1992) Licenciada e mestre em Arquitetura pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, e licenciada em Artes Plásticas - Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Articula a atividade laboral na área da arquitetura e design de interiores, com a prática artística no campo do desenho e da pintura. Escreve, de forma independente, sobre exposições de arte.
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Notas [1] Entrevista com o artista disponível em CFA.
Notas às legendas ** Obras na imagem: Mão pegando Bíblia (2026), A floresta, o pulmão e a alma (2026), Revolução (2026) e Narciso no mijo (2006). *** Obras na imagem: Revolução (2026), Future Self (2026) e Narciso no mijo (2006).
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