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EXPOSIÇÕES ATUAIS


João Vieira, Projecto “M.A.R. – 3 letras (7 elementos)” (1970-2002-2006)


João Vieira, Projecto “M.A.R. – 3 letras (7 elementos)” (1970-2002-2006)


João Vieira, “ABÊCÊ” (2006). Instalação


João Vieira, “ABÊCÊ” (2006). Instalação - Performance


João Vieira, "ABÊCÊ", (2006). Instalação - Performance

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JOÃO VIEIRA

ABÊCÊ




PAVILHÃO CENTRO DE PORTUGAL
Av. da Lousã
3030-767 Coimbra

20 MAI - 16 JUL 2006


Abandonemos por um momento a preocupação de identificar, de reconhecer,
para que a forma que também está em nós se descubra

João Vieira, 1979

Dando continuidade ao protocolo que a Fundação de Serralves estabeleceu com a Câmara Municipal de Coimbra, inaugurou no dia 20 de Maio no Pavilhão Centro de Portugal a exposição “ABÊCÊ” de João Vieira. Artista de importância essencial na arte portuguesa contemporânea, articulou de um modo idiossincrático, desde o início da sua carreira nos finais de 50, inícios de 60, a pintura e a escrita, criando espaço para a afirmação de um novo paradigma do objecto artístico. A esta relação de interacção entre texto e pintura não foram estranhos os laços de amizade e discussão que cedo estabeleceu com poetas e escritores – Herberto Helder, Helder Macedo, entre outros. Ideais políticos e estéticos uniram estes autores, cujo contributo para a afirmação da singularidade e do experimentalismo artístico foi fundamental. Para João Vieira a relação entre o corpo do texto e o corpo da pintura não é apenas textual mas iconológica. Mais do que o significado semiótico, interessa-lhe a forma.

Progressivamente, durante as décadas seguintes, letra e pintura conquistaram espaço e afirmaram-se simultaneamente como escultura e o contexto de acção propício ao desenrolar de eventos. Neste experimentalismo, os novos materiais industriais (poliuretanos, espumas flexíveis, tinta de automóvel) desempenham um papel fulcral. Exemplo deste processo permanente de construção formal e técnica é o projecto “M.A.R. – 3 letras (7 elementos)”. Pensado em 1970 como uma intervenção pública, não teve até hoje concretização na dimensão em que foi projectado. Foi, no entanto, apresentado em Serralves em 2002 e agora reencenado no exterior do P.C.P. numa escala inferior à inicial. Foram criadas três bóias em poliuretano fibrado, pintadas com tinta de automóvel (no projecto inicial mediam cerca de dez metros) que configuram as três letras que ludicamente ordenadas constituem a palavra “mar”. As enormes letras foram lançadas como dados num tanque especialmente concebido para o efeito. A este projecto não são estranhas as referências à história marítima das viagens míticas dos descobrimentos portugueses e à relação íntima que esta aventura engendrou com a epopeia literária nacional. Ao longo da sua produção, outros projectos revelaram esta estreita relação com a História. É o caso do “Painel do Infante” (1987) integrado na recriação que João Vieira fez dos “Painéis de S. Vicente de Fora”.

No interior do Pavilhão dois espaços distintos caracterizam a exposição. No primeiro piso, em duas salas diversas, dois vídeos. O primeiro é uma compilação de três “acções-espectáculo: Expansões” (1971), “Incorpóreo I” (1972) e “Mamografia” (1981). O segundo é o documentário realizado em 2003 por Paulo Cancela e intitulado “Pinto Quadros por Letras”. Precursor do happening e da performance em Portugal, o “Espírito da Letra”, realizado em 1970 na Galeria Judite Dacruz, é o primeiro exemplo de uma performance-destruição levada a cabo por João Vieira. A esta exposição, referenciada no documentário, e que o artista denominou exposição dura, contrapôs, no ano seguinte, na mesma galeria, uma exposição mole – “Expansões”. Letras do Alfabeto executadas em espuma flexível foram manipuladas pelo público numa acção-espectáculo onde o denominador comum foi sempre o carácter lúdico das acções e a proposta de interacção com o espectador de quem se esperava uma participação activa em todo o processo. Em “Incorpóreo I”, um corpo nu feminino foi colocado dentro de um sarcófago de poliuretano, numa clara analogia ao nascimento de Vénus. Sobre esta intervenção disse o artista: “Não podendo matar uma pessoa, por causa da moral, projectei poliuretano (rígido desta vez) sobre duas metades, frente e costas, de um manequim plástico. Obtive assim uma espécie de caixa, ou concha, ou casca, no interior da qual era visível o interior do manequim, e cujo exterior deformava o ser “humano” do interior”(1). Finalmente, em “Mamografias” João Vieira projectou outra provocação à história da arte. Criou em espuma várias representações dos seios da Vénus de Milo, e com eles, várias caixas onde evocou os nomes de Man Ray e Duchamp. No mesmo espaço, um tapete de seios convidava o espectador a passear-se e a provar as maçãs que nele foram espalhadas, ao mesmo tempo que nas paredes adjacentes eram projectadas termografias que indirectamente propunham um conceito distinto de retrato.

Nas obras mais recentes, João Vieira alia as suas pesquisas anteriores – onde as letras e a pintura enquanto signo e significante se assumem como o centro do intenso experimentalismo que sempre caracterizou a sua produção – às tradições populares (2). “ABÊCÊ” (2006), instalação e performance especialmente concebida para este espaço, e que ocupa todo o piso térreo do Pavilhão, insere-se precisamente no universo etnográfico das tradições populares infantis. A instalação é composta por uma gigantesca e labiríntica estrutura de madeira onde foram afixadas – depois de recortadas sobre papel – todas as letras do alfabeto. Ao centro, abre-se uma clareira onde foi colocado um poço com celulose. A simbologia da floresta e do ciclo de vida do papel associam-se à própria nomenclatura do projecto – ABÊCÊ - muitas vezes associado não só à aprendizagem da cartilha mas também à noção abreviada de biografia. No dia da inauguração, esta instalação serviu de cenografia a uma performance onde o próprio artista assumiu a direcção de uma cartilha de jogos (da macaca, o salto do elástico, o saltar à corda, da apanhada, a cabra cega, etc.), cantigas de roda e lengalengas infantis executados por um corpo de jovens bailarinas que ludicamente seguiam as orientações do mestre e da sua batuta.


Notas
(1) Cit. Por Helder Macedo – “Formas de Ler. João Vieira Corpos de Letras”, Porto: Edições Asa/MACS, 2002.
(2) Exemplo destas pesquisas são os Caretos de Trás-os-Montes.



Ana Luísa Barão