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ALEXANDRE CONEFREYCONRADGALERIA 111 R. Dr. João Soares, 5B 1600-060 Lisboa 28 FEV - 11 ABR 2026 Conefrey / Conrad. Duelo invisÃvel
A nova série de pinturas intitulada Conrad, de Alexandre Conefrey, patente na Galeria 111 marca, de certa maneira, uma nova reflexão sobre algumas das suas explorações anteriores, muitas das quais relacionadas com a densidade negra da paisagem em conexão com a prática rigorosa do desenho. De facto, há em Conrad uma vibração cromática e uma gestualidade que operam de forma diferente de outras obras mais monocromáticas e “silenciosas” do passado. Embora o artista não renuncie ao rigor do desenho, existem nuances importantes nesta série em que sobressai a pincelada como estrutura dinamizadora da aplicação da cor e que ganha agora um novo protagonismo físico. Onde antes víamos um grafismo puro, vemos agora a matéria pictórica a construir a imagem havendo assim um cromatismo atmosférico, que sem ser uma explosão “pop” gera uma saturação de amarelos, lilases, azuis profundos, ocres e tons de terra, o que no seu conjunto provoca uma densidade óptica distinta. A cor e a narrativa pela mancha é, nalguns casos, usada nesta série para evocar a humidade e a opressão da selva, onde as formas se fundem em vez de serem delimitadas por contornos. Em muitas destas pinturas a predominância da pincelada acaba por suavizar os limites do desenho tradicional aproximando estes trabalhos, mais da pintura sobre papel do que do desenho de linha, o que acaba por conferir maior expressão e ritmo visual à superfície. Sem dúvida que Conefrey encontrou no universo de Joseph Conrad, que é ao mesmo tempo denso e cheio de cor psicológica, um pretexto para soltar o gesto e a imaginação.
Alexandre Conefrey, Trying to call you II, 2025, óleo sobre tela, 61x 38 cm. © Galeria 111
Há ainda a salientar, por outro lado, que o texto* de Joseph Conrad, retirado do livro Coração das Trevas, serve de referência literária ou conceptual à exposição do pintor. O texto parece oferecer um contexto interpretativo ou uma atmosfera que dialoga com várias destas obras, sugerindo temas relacionados com a introspecção, a complexidade emocional ou reflexões acerca da condição humana. A citação de Conrad destaca a ideia de vozes, memórias e experiências vividas com intensidade, o que pode estar associado à inspiração por trás da pintura de Conefrey, criando uma singular afinidade electiva entre literatura e pintura. Este novo projecto exposto na Galeria 111 parte da referência literária de Conrad para, de alguma maneira, encontrar novas formas de representar aquele sentimento de deslumbramento misturado com “absurdo” perante forças que superam o humano. As pinturas de Conefrey lançam-nos num mundo onde a ficção visual e literária se cruzam de maneira algo paradoxal, levando-nos a pensar que afinal nós nascemos no meio de uma história já em andamento e morremos antes de ver o fim da história do mundo. Ou seja, vivemos sempre entre um começo e um fim que não controlamos. Isso cria uma dificuldade: o tempo vivido parece caótico, sem forma clara onde apenas sentimos a vibração pujante da vida através das cores existentes da natureza e do movimento impressionista que delas dimanam. Estas pinturas encaminham-nos para um impressionismo cromático difuso que se manifesta de um modo descontínuo ou fragmentário, através de pequenas pinceladas que transmitem sensações originadas a partir de acontecimentos soltos no tempo, remetendo o espectador para um tempo vivido como se de repente deixasse de haver um fim ou um sentido para o que contemplámos e interiorizamos através da experiência literária em diálogo com as imagens da arte. As pinturas de Conefrey convidam-nos a viajar até ao coração de uma narrativa psicológica escrita por Conrad centrada na história contada por Marlow, um capitão de navio cuja missão é transportar marfim e resgatar um agente chamado Kurtz que cometeu atrocidades e que passou a ser adorado como um deus. Kurtz vive isolado num lugar remoto de quem não se recebem notícias há muito tempo. Encontra-se gravemente doente e morre no navio durante o regresso sendo as suas últimas palavras: “Que Horror! Que Horror”. É curiosa a influência cultural que esta extraordinária obra-prima do século XIX escrita por Joseph Conrad exerceu no Ocidente, tendo sido ela a principal fonte de inspiração do filme de Copolla, Apocalypse Now (1979), que transpõe a história para a Guerra do Vietname, sendo a loucura de Kurtz interpretada por Marlon Brando.
Alexandre Conefrey, Sem título, 2025, óleo sobre papel, 100,5x70,5 cm. Cortesia Galeria 111.
A ironia estética parece ser o golpe de mestre que Alexandre Conefrey procura mostrar nesta série ao confrontar a experiência visual das suas pinturas com a narrativa de Joseph Conrad. Na obra de Conrad, a selva não é apenas escura; ela é descrita como uma massa de vegetação luxuriante, excessiva e sufocante. As cores vivas de Conefrey traduzem essa vitalidade indiferente da natureza que "engole" o homem. O "horror" ou o “absurdo” não é a falta de luz, mas o excesso de vida que o ser humano não consegue controlar nem compreender.
Alexandre Conefrey, Sem título, 2025, óleo sobre papel, 57,5x76,5 cm. Cortesia Galeria 111.
As cores vivas e a luz podem ser interpretadas como a fantasia de progresso e civilização que os europeus levavam para os territórios ultramarinos explorados pelo escritor. Sob esse "colorido" (as fardas, as bandeiras, o discurso humanitário), escondia-se a podridão moral. A cor actua então como uma máscara que, ao ser removida, revela o vazio. Uma nota final: por vezes, o horror não está na sombra, mas na luz crua que expõe tudo. Kurtz, ao gritar "O Horror!", atinge uma clareza aterradora sobre a sua própria alma. Conefrey utiliza a luz e a cor, não para pacificar, mas para confrontar o olhar com uma realidade crua e sem esconderijos. É um contraste quase cintilante: enquanto Conrad usa a metáfora da escuridão para falar do mal, Conefrey usa a alucinação cromática para representar o mesmo estado de choque e desorientação. É esta a subtil ironia estética expressa pela dupla Conrad/Conefrey.
Carlos França
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* “— Absurdo! — exclamou ele. — É o que pior nos sucede quando contamos qualquer coisa… Todos vocês estão agarrados a dois bons esteios como uma barcaça de duas âncoras: numa esquina o talho, na outra um polícia; com um excelente apetite e uma temperatura normal… normal, oiçam lá bem… desde o princípio até ao fim do ano. E dizem-me “absurdo”! Raios partam o… absurdo! Absurdo! Meus queridos meninos, o que podem vocês esperar de um homem que acaba de atirar borda fora um par de sapatos novos apenas por nervosismo? Quando penso nisso, admiro-me de não me ter desfeito em lágrimas. Em geral orgulho-me de ser forte. Mas sentia-me ferido com a ideia de ter deixado escapar o inestimável privilégio de ouvir o talentoso Kurtz. No que me enganava, aliás. O privilégio esperava-me. Oh, sim, cheguei a ouvi-lo, até demais. Mas eu também tinha as minhas razões. Uma voz. Era pouco mais do que uma voz. E ouvi-o… a ele… a ela… a essa voz… a outras vozes… pouco mais eram, todos eles, do que vozes… e a memória desses tempos paira impalpável à minha volta como a esmorecida vibração de um qualquer interminável, estúpido, atroz, sórdido, selvagem falatório, ou simplesmente medíocre e destituído do menor sentido. Vozes, vozes… até mesmo a rapariga… agora…” Joseph Conrad, Coração das Trevas, tradução e Aníbal Fernandes, Ed. Sistema Solar, 2024, p.98
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