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A ARTISTA REVELAÇÃO DA BIENAL DO WHITNEY É TAMBÉM A MAIS ANTIGA2026-03-06A grande estrela da Bienal do Whitney pode muito bem ser Carmen De Monteflores, cujas telas grandes e coloridas se destacam numa exposição quase desprovida de pinturas. Aos 92 anos, De Monteflores é a artista mais velha da exposição (assumindo que é mais velha do que Agosto Machado, que não revelou a sua idade). Chamou a atenção dos curadores, Marcela Guerrero e Drew Sawyer, através de outra participante da bienal, Andrea Fraser — que por acaso é sua filha. O plano original era que todos os artistas da exposição participassem na bienal pela primeira vez. Chegou, então, um e-mail de Fraser — que já tinha participado por duas vezes, em 1993 e 2012 — determinada a ajudar a mãe a expor finalmente obras que passaram décadas guardadas num armazém na região da Baía de São Francisco. Guerrero tinha sido curadora de “Mulheres Radicais: Arte Latino-Americana, 1960–1985”, uma influente exposição de 2017 no Hammer Museum, em Los Angeles, que se tornou um momento de redescoberta para várias artistas latino-americanas. Fraser acreditava que a sua mãe poderia fazer parte desta conversa. Depois de verem as pinturas de De Monteflores pessoalmente, Guerrero e Sawyer decidiram incluir obras de mãe e filha na bienal. “Estabelece-se regras e depois quebra-se, claro”, disse Guerrero no seu discurso de abertura na antevisão para a imprensa da exposição, com Sawyer a considerar a parceria “uma história muito mais geradora e bela do que qualquer uma de nós poderia ter imaginado”. Para De Monteflores, ver obras que pintou há quase 60 anos num grande museu, revisitando o seu antigo eu, é uma experiência estranha e poderosa. “Aquela parte de mim que já não estava a funcionar”, disse De Monteflores ao New York Times, “a minha identidade como artista está a ser restaurada”. Uma Artista Emergente na Terceira Idade Nascida em Porto Rico em 1933, De Monteflores iniciou o seu percurso artístico ainda criança, frequentando aulas de arte extracurriculares com freiras e desenhando cartoons e banda desenhada. Estudou história da arte no Wellesley College, em Massachusetts, a partir dos 16 anos, e depois frequentou aulas na École des Beaux-Arts, em Paris. Em 1954, a jovem artista mudou-se para Nova Iorque e matriculou-se na Art Students League, onde teve como instrutores George Grosz e Morris Kantor. Casou em 1956 e teve cinco filhos. Em 1960, a jovem família mudou-se para o Montana, e De Monteflores dedicou-se novamente à sua arte. Nos cinco anos seguintes, criou 100 telas. “Fazia o máximo que podia, principalmente durante as sestas dos meus filhos. Era muito disciplinada”, contou a Fraser em conversa para o catálogo da bienal. Fraser, a filha mais nova da família, nasceu em 1965, o mesmo ano em que De Monteflores começou a criar as telas com formatos especiais. As obras são ousadas e livres, com corpos nus retratados em cores tropicais, em momentos de abraço. Quatro Mulheres é um quarteto sensual, entrelaçado e reclinado. “Acho que era o meu anseio por sexo depois de anos a ter filhos”, disse De Monteflores. “Acho que havia um desejo por uma vida sexual mais plena.” Nessa altura, a família tinha-se mudado para Berkeley. De Monteflores, imersa na segunda vaga do feminismo, divorciou-se e assumiu-se lésbica. Abandonou definitivamente os pincéis em 1969 e, posteriormente, obteve o doutoramento em psicologia e escreveu cinco romances. O Sentimento de Culpa de uma Filha Fraser teve uma longa carreira como artista performativa, conhecida por obras provocatórias que abordam a crítica institucional, com peças em coleções de importantes museus. Notoriamente, filmou um encontro sexual com um dos seus colecionadores, que comprou um dos cinco vídeos editados que documentavam a performance artística, traçando um paralelo entre os artistas que vendiam as suas obras e a prostituição. Em contraste, De Monteflores nunca expôs a sua arte, e os seus esforços para se ligar a galerias de arte foram, em última análise, infrutíferos. Quando desfez as malas do seu estúdio, as suas obras foram guardadas num armazém. Fraser acredita que o percurso da sua mãe como artista inspirou parte do seu interesse pela crítica institucional e da sua desconfiança nas estruturas de poder do mundo da arte. "Talvez me quisesse vingar do mundo da arte por te ter magoado", disse Fraser a De Monteflores. Na bienal, a contribuição de Fraser é um conjunto de cinco esculturas em tamanho real de bebés rechonchudos a dormir, feitas em cera microcristalina cinzento-clara e expostas em caixas de plexiglass. Os bebés representam a obra de um artista como a sua descendência — talvez até filhos com o colecionador — mas também remetem para os cinco filhos de De Monteflores. Fraser não conseguia deixar de olhar para a sua carreira de sucesso e de se culpar por a mãe não ter tido as mesmas oportunidades. Chegou mesmo a explorar essa culpa na sua própria obra, na peça Projection, de 2008. Fraser incorporou gravações das suas próprias sessões de terapia. “A dada altura, o psiquiatra fez uma interpretação de que, a algum nível inconsciente, acredito que destruí a sua criatividade. Que destruí a sua vida como artista”, disse Fraser à mãe. “Por isso, para mim, parte deste processo de tentar expor o seu trabalho tem sido tentar devolver-lhe a sua vida como artista.” A “Bienal Whitney 2026” estará patente no Whitney Museum of American Art, 99 Gansevoort Street, Nova Iorque, Nova Iorque, de 8 de março a 23 de agosto de 2026. Fonte: Artnet News |













