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MURAL MONUMENTAL DESTRUÍDO POR PINOCHET RESSURGE NO CHILE AO FIM DE 50 ANOS

2026-07-21




A obra de Escámez foi encomendada em 1969 pelo prefeito Eduardo Contreras Mella, na véspera da vitória de Salvador Allende nas eleições presidenciais. Escámez dedicou dois anos à criação do mural que, quando concluído, ocupava cerca de 42 metros quadrados numa parede do Salão de Honra. Intitulado "Início e Fim", retratava o triunfo do povo sobre a opressão, com uma composição grandiosa animada por figuras expressivas e explosões de cor.

Em 1972, o mural foi inaugurado pelo presidente da Câmara Ricardo Lagos Reyes, sucessor de Mella, e meses depois Allende visitou-o pessoalmente. O Prémio Nobel, Pablo Neruda, descreveu-o como contendo "as mais extraordinárias essências da criação, essências que possuem a quietude da profundidade, da verdade".

O fervorosamente direitista Pinochet, porém, via a obra de arte de forma diferente, por estar ligada a um projeto socialista democrático. Após a sua junta militar derrubar Allende, o ditador ordenou a destruição do mural. Escámez foi forçado a exilar-se na Costa Rica, magoado com o apagamento da sua obra. “O que ele sentiu em relação ao que aconteceu com o seu mural resumia a dor que sentia em relação ao Chile”, disse Catalina Sverlij, sua sobrinha-neta e diretora da Fundação Escámez, ao El País.

Quase cinco décadas depois, o atual presidente da Câmara do Chile, Camilo Benavente, liderou o esforço para recuperar o mural de Escámez. Mas as probabilidades de a obra ainda existir eram mínimas. Ao longo dos anos, circularam relatos sobre a forma como a obra de arte foi destruída: demolida com baionetas, coberta com pez ou, segundo o próprio artista, lascada com “cinzel e martelo”.

Mas, em 2021, uma análise inicial da parede do Salão de Honra, realizada pela Universidade das Artes (UPA), encontrou o primeiro vestígio de “Início e Fim”. “Trancámo-nos na sala do conselho e, numa pequena janela que se abriu [ao remover a tinta branca], apareceu a cor laranja, que é proeminente no mural e corresponde à chama”, disse ao El País Karin Cárdenas, historiadora que trabalhou nesta primeira análise. “Parámos e dissemos: ‘Pode haver aqui alguma coisa’”.

Acontece que o mural não tinha sido coberto com pez nem lascado com baionetas — tinha sido simplesmente pintado por cima. Mas, à medida que a UPA continuou a descobrir mais da obra ao longo dos anos, a equipa descobriu que a sua altura original tinha sido reduzida para dar lugar a um segundo piso, com uma janela aberta diretamente através dele.

Descobriram também que o mural era maior do que se acreditava anteriormente. Aliás, a cidade suspeita agora que o título da obra, "Início e Fim", possa referir-se a duas obras, provavelmente "Início" e "Fim". Enquanto a primeira parte retrata a dramática luta de classes, a segunda revela um grupo sereno de mulheres a olhar através de um telescópio, refletindo "calma e contemplação", disse Cárdenas. Ambos os murais foram declarados Monumentos Nacionais em 2024.


Fonte: ArtnetNews