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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição. Rui Chafes, Luz, 2018 / Alberto Giacometti, Figurine, cerca 1956, bronze, Col. Fondation Giacometti. Cortesia Fund. Calouste Gulbenkian. ©Sandra Rocha


Vista da exposição. Rui Chafes, Luz, 2018 / Alberto Giacometti, Toute petite figurine, cerca 1937-39, Col. Fondation Giacometti. Cortesia Fund. Calouste Gulbenkian. ©Sandra Rocha


Vista da exposição. Rui Chafes, Além dos olhos, 2018 / Alberto Giacometti, Tête de Diego, cerca 1934-41, Col. Fondation Giacometti. Cortesia Fund. Calouste Gulbenkian. ©Sandra Rocha


Vista da exposição. Rui Chafes, Tremor, aço, 2018 / Alberto Giacometti, Femme debout, cerca 1961-62, bronze, Col. Fondation Giacometti. Cortesia Fund. Calouste Gulbenkian. ©Sandra Rocha


Alberto Giacometti, Toute petite figurine, cerca 1937-39, gesso, 4,3 x 3 x 3,8 cm. Cortesia Coll. Fundação Giacometti, Paris.


Alberto Giacometti, Le Nez, cerca 1947-50, gesso, 43 x 9,7 x 23 cm. Cortesia Coll. Fundação Giacometti, Paris.


Rui Chafes, A noite, 2018, aço / Alberto Giacometti, O Nariz, cerca 1947-50, gesso, Col. Fondation Giacometti. Cortesia Fund. Calouste Gulbenkian. ©Sandra Rocha


Rui Chafes, Com nada, 2018 & Um outro corpo I, 2018, aço / Alberto Giacometti, Figurine, cerca 1956, bronze, Col. Fondation Giacometti. Cortesia Fund. Calouste Gulbenkian. ©Sandra Rocha


Rui Chafes, Um outro corpo I, 2018, aço, 80 cm. Cortesia do artista. ©Alcino Gonçalves

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RUI CHAFES E ALBERTO GIACOMETTI

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FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN – DELEGAÇÃO EM FRANÇA
39 bd de la Tour-Maubourg
75007 Paris

03 OUT - 16 DEZ 2018

Uma homenagem a Giacometti e algo mais (Rui Chafes)

 


Em primeiro lugar, a proximidade pode surpreender: qual a relação entre Alberto Giacometti e o escultor português Rui Chafes? Nem semelhança de formas, nem experiências comuns, nem uma qualquer filiação. Que ideia absurda de os reunir, de os fazer dialogar nesta exposição na Fundação Gulbenkian em Paris (até 16 de dezembro)? Para mais começamos a visita entrando num corredor sombrio, monótono e estreito, nas paredes do qual são criadas algumas frinchas através das quais nos apercebemos de pequenas esculturas de Giacometti violentamente iluminadas. Uma vê-se através de uma grade confessional, outra (Mulher em pé, sem braços) por uma estreita fenda vertical a emoldurar a sua própria verticalidade, outras por furos que desviam o olhar e proíbem uma visão única. Tem de se fechar um olho, vai-se andando de buraco em buraco e vão-se vendo detalhes ampliados. 


Alberto Giacometti, Femme debout, sans bras, 1958, gesso, 65,1 x 11,3 x 21 cm. Coll. Fondation Giacometti, Paris / Rui Chafes, Além dos olhos, 2018, aço, 12 m. Fotografia: Sandra Rocha. Cortesia Fundação Calouste Gulbenkian.

 

Temos de estar sozinhos nesta experiência, porque nos cruzamos com grande dificuldade e incomodamos o boçal que profere banalidades em voz alta, uma vez que o silêncio deve ser o cenário neste corredor. Olhamos de forma diferente para estas pequenas cabeças giacometticas, e compreendemos então que é a arquitetura desse corredor que nos obriga a um esforço mais atento, mais trabalhado, a um esforço para perceber na lente multiplicadora essa pequena Cabeça de Diego em barro cru (9,5 cm de altura), nunca antes exposta. E é então que compreendemos que não é uma encenação criativa, um artifício de curador inventivo, mas que estamos no seio de uma escultura de Rui Chafes, que esse corredor, chamado Para além dos olhos, é a sua obra, a sua forma de encontrar Giacometti, de lhe render homenagem e o confrontar, e de convocar o público, uma tarefa imensa da qual se sai muito bem.

 

Alberto Giacometti, Tête de Diego, cerca 1934-41, barro cru, 9,5 x 5,4 x 7,7 cm. Cortesia Coll. Fundação Giacometti, Paris.

 

Uma outra instalação de Chafes é, na sala seguinte, um paralelepípedo de aço de 4 metros de comprimento (Luz) no fundo do qual, num minúsculo nicho iluminado, se encontra a ainda mais minúscula Toute petite figurine (4,3cm de altura) sobre um plinto muito maior que a escultura: uma simples encenação? Mas, aí entrando para nos aproximarmos da minúscula estatueta, de repente toma-nos uma vertigem, uma tontura: o chão está inclinado, as paredes parecem balançar, sentimos um desconforto, uma tempestade, um desiquilíbrio, e avançamos o melhor que podermos. Aqui, novamente, a percepção é perturbada e temos de fazer um esforço não só mental, mas físico, vencer o desconforto, para chegar ao fim e, finalmente, desfrutar da contemplação da escultura de Giacometti (novamente, sozinhos, de preferência).

Rui Chafes será então um perturbador do visitante, um revelador do olhar, o seu papel limita-se a nos perturbar para nos permitir ver melhor? Um simples cenógrafo genial? Oh não! Além disso, ver frente a frente as esculturas de um e de outro, faz-nos perceber o contraste: umas, de bronze, gesso ou barro, estão em plintos, por vezes desproporcionados; outras, de aço negro, estão suspensas e mudam de acordo com a passagem do visitante. Algumas suportam teimosamente a marca dos dedos que as moldaram, como cicatrizes; as outras tendem a uma perfeição polida (embora, pela primeira vez Chafes, em duas delas, nos dê a ver o interior, a entranha, mais áspera, mas tão refinada quanto a pele externa bem polida). Algumas (em qualquer caso, as escolhidas para esta exposição) são figurativas, seres humanos de pé ou cabeças; as outras são apenas formas abstratas, enrolamentos, torções (mesmo que uma, discreta na escada, se chame Rasgar V, pequena esfera de aço suspensa). Umas tendem a ser "desmaterializadas", as outras flutuam até os limites do ponderável. Umas são um grito para o mundo; outras são um murmúrio no nosso espaço secreto.

Fiquei um pouco menos convencido com a montagem que reúne ambas as obras numa única instalação: a escultura de Chafes, A noite, certamente instável e oscilante, é colocada sobre um plinto, enquanto a obra de Giacometti, O nariz, se encontra suspensa, não no interior de uma gaiola como Giacometti fez, mas na própria escultura de Chafes. Essa inversão incomoda. Além disso, estas duas esculturas na exposição são as únicas que nos revelam semelhanças formais, uma parece a extensão da outra, espada e nariz. É certo que, aqui novamente, o olhar deve jogar com as formas e encontrar o seu ponto de vista singular, mas a força da demonstração parece-me aqui enfraquecida. Finalmente, há quatro desenhos de Giacometti nas paredes.

Esta exposição nada tem a ver com a outra exposição de Giacometti no Museu Maillol, muito didática (eu não vi a exposição na Fundação Giacometti com Annette Messager). Nada a ver também com as esculturas expansivas de Franz West no Centro Pompidou, em busca de legitimidade, questionando o status da obra de arte e tornando-se móveis: é uma outra concepção da escultura, nos antípodas da pureza de Giacometti e de Chafes.


 



MARC LENOT